09/09/16

poetry for two

Alexander Vihansky , "two"



Decidem um dia escrever um livro de poesia, juntos.
Zangam-se logo no imediato porque
ela quer eleger o título e
ele quer eleger o título.
Assim sendo
decidem, no borralho da irritação,
Que o livro de poemas escrito a meias
não vai ter título.

Depois entremeiam-se em estética, sílabas, tema e métrica.
Ela fica-se pelos gerúndios porque é mulher arredondada e ondulante
ele opta por lira aguerrida e sagaz
com teor politico e social
porque é homem de pelo na venta e músculos trabalhados.

Voltam a zangar-se mais adiante
porque logo no primeiro dia em que se sentam para criar
(era uma tímida tarde de setembro)
ela diz que tem de ser ele a fazer o jantar
e ele diz que tem de ser ela a fazer o jantar.

Andam um bom bocado às turras
com palavras esbeltas de poeta e olhares presumidos de quem não quer ceder.

Decidem, já a noite vai alta,
com a barriga a dar horas e com parco humor de cão,
que se calhar a poesia é para quem tem conjuntura e falas mansas e sobretudo resignação.

Assim sendo, resolvem ir escrever o amor para os lençóis,
e criar uma estrofe de pernas, braços, cabelos e desejo.

4 comentários:

C.N. Gil disse...

Uma decisão, diria eu, acertada!

:)

luisa disse...

Uma "guerra de sexos" até na poesia... :)

conta corrente disse...

Pessoas inteligentes :)

Fragmentos Repartidos disse...

Que ao menos se entendam nesse aspecto essencial :-P, caso contrário estão condenados!

Trata-se de um texto simples, mas interessante. Muito bem.

Arquivo