27/10/16

parabéns minha mana


Estamos na praia. Na praia do Trafal. Há uma brisa morna, suave. Hoje nem foi preciso para-vento.
Já passou o homem das bolas de Berlim e já foste ao mar meia dúzia de vezes. Vais sempre mais vezes do que eu. E vais ao mar, com o teu corpo de miúda, a tua cor de Brasil, o teu cabelo com fios de ouro. Voltas a deitar-te ao meu lado. Numa toalha clarinha que pechinchaste, com tanta pinta, na praia da Falésia. Deitas-te com as pernas meias fletidas, a cabeça meia de lado, o cabelo aberto na toalha, as mãos a descansar na barriga ou então pousadas ao longo do corpo.
O sol lambe-nos o corpo, guloso. Há conversas à nossa volta. Há pequenos insetos que reverberam nos filamentos de sol. Há o teu mindinho e o meu mindinho a escassos milímetros de distância.
Quando estou assim contigo sinto-me protegida.
Mas quando estou longe de ti também.
Nunca consegui descrever esta nossa coisa de irmãs ou mães e filhas ou lá o que seja, que tanto é.
O teu telefone toca. É alguém que gosta de ti (como se pode não gostar de ti). Alguma coisa da escola que resolves num ápice. Antes desta chamada foi o pai a perguntar o que vamos almoçar. Antes do pai já tinham sido os filhos a dar os bons dias.
És assim uma espécie de centro de qualquer coisa e de toda a gente.
Às vezes gosto de te ter só para mim. De ficar a beber um copo de vinho e a falar.
A falar de tudo, mesmo às vezes das coisas mais difíceis. A rir, das minhas Lauzadas quando visto roupa e troco o decote com as mangas.
Gosto das nossas conversas maduras e familiares.
Do cheiro do sangue que nos corre nas veias e que fala a mesma cor.
Quando estou a escrever, assim, sobre ti, fico mais perto.
Na realidade estou sempre perto. O meu mindinho está sempre perto do teu mindinho, estejamos na praia ou em qualquer outro lugar.
Neste momento estou contigo na praia, sem qualquer dúvida.
Há o calor, o mar morno, a areia a escaldar, as duas espreguiçadeiras a dizer “andem cá meninas”, há os dois policiais suecos.
Há um mundo de afinidades e um mundo de experiências conjuntas. Há caracóis louros, castanhos, parecidos e completamente diferentes. Há rugas de coisas boas e há pele que foi perdendo a lisura só porque nos fartamos de viver, na pele, tantas coisas boas. Há o amor que me ensinaste e a amizade que partilhamos em surdina. Há um infinito de nós e laços e memórias que nos ligam, invisível e delicadamente.
Gosto de ficar madura contigo. Gosto de escrever. Para ti escrevo quilómetros. Para ti nunca hei-de ficar sem palavras.


Agora voltaste o rosto para mim e abriste um olho só, por causa do sol.
Tu – Já queres comer, mana?
Eu – Sim, mas também bebia um Mojito.
Tu – Também eu, caraças, vamos lá buscar.
Eu – Bora.

E vamos. Havemos de ir sempre.
Mesmo quando se acabarem os caminhos.
Mana, gosto de ti com todos os verbos do mundo.

8 comentários:

Isabel Pires disse...

Laurinha, és tão parecida com a outra tu!!
Que bem que me soube ler este teu texto.
Hoje tens de levar mais beijos...

ana disse...

uma escrita assim só pode sair do coração.
essa parte que tu tens faz-me tanta falta...
parabéns por tudo, Laura :)

CCF disse...

Que bonito!
~CC~

Eros disse...

Parabéns à tua bela irmã!
Que seja tão sensivelmente culta quanto tu o ostentas por cá :)

Laura Ferreira disse...

E eu gosto dos teus beijos Isabel :)
obrigada!

Laura Ferreira disse...

Oh Ana obrigada eu por tudo aquilo que és e pões na tua escrita.

Laura Ferreira disse...

CCf, obrigada!
beijinho

Laura Ferreira disse...

Eros, os parabéns serão entregues :)
Obrigada!

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