31/01/16

o dia que me sabe mais a mim

quando me esbarro contra coisas boas.
vou passar o domingo a fazê-lo.
só porque sim.
porque o domingo é o que dia que me sabe mais a mim.


29/01/16

letras com voz de meninas


na escuridão de fim de cada dia
sento-me no branco dos sentidos
e lavo-me, com a devida relevância,
de poemas, sossegos e silêncios.

depois, quando o sono assoma e se senta
adormeço, a pegar em letras que escorri, dos cabelos, para os lençóis.
deixo-as escoar por entre os dedos
deixo-as soltas e perdidas
deixo-as.

sei que, aos primeiros momentos da aurora,
voltam a escalar-me corpo e mente
arranham-me a pele com voz de meninas
e possuem-me com histórias e cinema.

a minha mãe sabe

quando lhe quero falar
quando preciso de lhe falar
porque me fala.

a minha mãe sente-me, sente-se, sente.

a minha mãe é assim.
feita de bocadinhos de filhos, mimos e olhos húmidos.



"mulheres"

fotografia de Sara Sousa

amanhã as minhas mulheres vão estar em cena outra vez.
amanhã as minhas mulheres vão falar de pequenas grandes coisas.
amanhã as minhas mulheres vão dizer segredos, partilhar dor, abraçar expectativas e contar histórias.
amanhã as minhas mulheres vão fazer teatro em tom de cinema.
em tons de morno, doce e sereno.
amanhã o palco onde vão subir as minhas mulheres
encher-se-á de música, respiração, pausas
estremecimentos, coragem e arrebatamentos.
o palco das minhas mulheres, amanhã,
terá quatro mulheres a falar de mulheres
e será um palco grande, esse palco,
só porque nele
caberão todas as mulheres do mundo.

1º festival de teatro amador de oiã / auditório de oiã.
grupo dramático e recreativo da retorta, 21h30.

autoria e encenação: laura avelar ferreira
com ana sousa, diana pereira, juliana leite e núria melo.
produção: gdrr / http://retorta.com/

28/01/16

um namoro singular

Henri Cartier-Bresson, Lille, France, 1968

gosta de se lá sentar ao sol, todas as tardes de todos os dias da semana.
há quem pare a olhar para ele. há mesmo quem lhe tire retratos.
ele não se importa que olhem. nem tão-pouco que lhe tirem retratos.
importa-se, sim, quando chove. ou quando os dias se tingem em tons de cinza.
e quando a rapariga da casa em frente se esquece de passar, rente à montra,
deslizando com suavidade os dedos de uma ponta à outra
enquanto os seus lábios pronunciam alguma coisa.
deve ser doce, a tal coisa que a rapariga diz.
pois doce é também o toque dos seus dedos no vidro.
é um namoro antigo: a montra, o sol, o gato, a rapariga.

há namoros assim: feitos de singularidades e improbabilidades.
 
 

mark shaw


27/01/16

desabafos secretos

vocês não acham que a scully andou a fazer obras ao nariz?
bem, devo confessar que quando os vi, juntos, senti uma friozinho saudoso, na barriga.
quando veio o genérico, pimba, pelos eriçados nos braços.
mas depois...
depois não consegui tirar os olhos do nariz dela para tentar perceber o que foi. o que foi que ela fez.
ainda não sei se gostei dos episódios. do enredo. da fotografia. da realização.
tem qualquer coisa, em termos de produção, que me faz lembrar alguma coisa de vintage e que ainda não sei definir.
estou naquela fase em que criei já um distanciamento necessário para me poder pronunciar.
mas os ficheiros secretos são sempre os ficheiros secretos.

Nino Muñoz


26/01/16

As meninas do Milo Manara


Fazem parte do meu imaginário desde sempre. Gosto dos corpos esguios, dos cabelos encaracolados, das bocas pequeninas.
Quando comecei a desenhar, na altura da escola primária, tinha na cabeça um ideal de mulher/boneca que queria passar para o papel e que, obviamente, nunca consegui.
Os cabelos eram encaracolados, as pernas musculadas e os braços esguios. Os corpos tinham algum movimento, quanto mais não fosse, conseguido através do texto. Embora rudimentares e ingénuos, os meus desenhos encantaram raparigas e foram motivo de curiosidade para os rapazes. Eu desenhava porque, basicamente, ninguém me ligava pevide. Foi quando comecei a mostrar os meus desenhos à turma, que passei a ser popular. Não, claro está, pelas botas ortopédicas ou pelos óculos grossos de massa, mas pelos desenhos de meninas/mulheres com roupas extravagantes.
Mais tarde, quando vi as meninas do Manara, pensei: era isto.
Pois era. Se eu soubesse desenhar, era mesmo isto.

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