29/04/16

Ai, dançar.


Eu tanto danço… Faço-o desde miúda, depois de ver a Liesl a dançar com o Ralph, na “Música no Coração”. E continuei, imaginando ser a belíssima Cyd Charisse e a graciosa Ginger Rogers, a dançar com o Fred Astaire.
Sempre me imaginei a dançar. Ainda imagino.
Em salas escuras com cheiro a café e charutos; em ruelas de filmes noir com som de jazz a entornar-se das janelas. Em Nova Iorque, no Blue Note, com o Chris Botti a tocar o “Embraceable you”. Em Paris, na Place des Vosgues, com estudantes da tocar Mozart.
Ainda o faço: sentada nos telhados do meu mundo íntimo; com o brilho dos olhos das viagens que faço pelos livros; com o desenho da curvatura dos sorrisos que procuro todos os dias.
Faço-o sobretudo à noite, quando me deito. Quando o meu corpo se conforma com o branco tranquilo dos lençóis; os ruídos da familiaridade da minha casa orquestram a melodia do costume: um miar distante, uma velha madeira que estala os dedos, um caminhar pequeno no andar de baixo, a tua respiração ao meu lado, o barulho da minha cabeça a sossegar-se.
E, por fim, o escuro a cobrir-me num abraço de paz.
Esta sim, é a minha dança preferida.

sinto-me amena.

by Tom Hoops

como o tempo. como certos tecidos.
como as palavras que ontem escorreram de tantos sítios.
oxalá pudesse fazer um agasalho desta serenidade para usar o ano inteiro.

28/04/16

mummy, 85 anos.

Eu tive uma mãe que não me ensinou a cozinhar ou a passar camisas de homem, a ferro. Não me ensinou a limpar pratas ou a fazer pastelinhos de massa tenra.
Mas eu tive uma mãe que me ensinou:
A falar com meiguice, com os animais, e a esperar deles um retorno quase humano.
A compreender as histórias de encantar para além dos livros.
A acreditar que os cabelos compridos das princesas podem ser os nossos cabelos, se nós quisermos.
Ensinou-me a coçar os olhos, e fazia-o, com o seu queixo, com tanta suavidade, nos meus olhos fechados.
Ensinou-me a preservar a minha pele. Ensinou-me a importância do cabelo e da elegância.
Ensinou-me a ouvir, ouvindo-a.
Ensinou-me o significado das palavras “mimo” e “doce”.
Ensinou-me a falar baixinho e ensinou-me uma oração para espantar a trovoada.
Ensinou-me a gostar de cinema quando nem sabia ler.
Ensinou-me a amar coisas, como bonecas, momentos e cheiros.
Ensinou-me a gostar de música clássica.
Ensinou-me coisas muito miúdas, que ninguém seria capaz de ensinar.
Recordo uma delas, com este carinho todo: a primeira viagem para o Brasil com os meus manos. Ela veio ter comigo com um pequeno saco plástico fechado. E fê-lo porque sabia que eu era a única que o levaria. “Tens rolhas, lá dentro. Pode-vos fazer falta para lavar a roupa”. Eu tive vontade de rir, achei que aquela era só mais uma bizarrice da minha mãe. Mas levei.
E o engraçado é que passados dias, estávamos nós os quatro filhos, no Brasil, a usar as rolhas, para lavar alguma roupa no nosso quarto de hotel...aquelas rolhas que aquela minha mãe me deu, com aquele cuidado especial de quem pensa nas vírgulas...
A minha mãe ainda hoje me ensina coisas pequenas e delicadas como tirar uma nódoa a uma peça boa, de roupa.
A minha mãe ensinou-me a ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe ensinou-me a gostar de coisas pequenas, a agradecer o que tenho, todos os dias.
Ensinou-me a rezar sem peso e sem obrigatoriedade. Ensinou-me a recordar quem já não está, sem tristeza.
Ensinou-me a conhecer as pessoas da família, que não conheci. De tal forma que seria capaz de falar delas a alguém.
Ensinou-me a fazer ovos escalfados.
Ensinou-me, sobretudo, a amar.
A minha mãe tem, quando lá vou, uma pinça para as minhas sobrancelhas, um recorte disto ou daquilo. Tem o meu jantar preferido e o meu pão preferido. Tem um detalhe para me mostrar e uma dúvida para partilhar.
Tem o amor estampado no rosto. Tem o amor a envelhecer-lhe a pele e a tingir-lhe o cabelo.
Tem o amor no corpo magro e nos dedos tortos.
Tem o amor na beleza que ainda conserva. Nos olhos cinzentos cheios de vida e nos dentes brancos, abertos num sorriso.
Tem o amor no abraço que me estende e na voz que me dedica.
E tem, o meu amor, todos os dias da vida dela, com a intensidade com que me ensinou a amar.

27/04/16

sobre o xixi em casas de banho partilhadas


e aquelas pessoas que vão telefonar para a casa de banho (literalmente, dentro da dita) e entro eu com a barriga a rebentar e a bexiga a guinchar e entro para o compartimento contíguo e começo a fazer um xixi bastante jeitoso, sim, porque já bebi quase dois litros de água e vou à casa de banho mesmo nas últimas (vou sempre) e enquanto faço o meu xixi-lençol a pessoa ao meu lado fala com a maior das descontrações "porque se for ela a ir é melhor eu não tenho nada a ver com isso mas logo falamos melhor" e o meu xixi tímido parece que nem a atrapalha "então vá lá tudo de bom beijinhos" e às tantas tudo se cala, o xixi e a pessoa com a sua conversa.
os autoclismos descarregam-se quase ao mesmo tempo enquanto eu penso porque raio me apetece escrever sobre isto.

Gosto destas (imprevistas) cantigas que a vida nos traz, inesperadamente.


Tem-me acontecido ultimamente uma coisa engraçada; vou na rua, a caminhar e, quando dou conta, está alguém ao meu lado, vindo sabe-se lá de onde, a caminhar comigo, a par, e assim continuamos ainda algum tempo até que os nossos percursos, naturalmente, se discordam e desligam.
Aconteceu com uma senhora de idade com sapatos de farmácia.
Aconteceu com um rapaz novo de carapuço enfiado na cabeça de estudante.
Aconteceu com uma mulher da minha idade de saltos altos a fazer uma cantiga engraçada na calçada.
Não sei o que pensaram eles; nem sei se pensaram no assunto.
Não são se olharam para mim pelo canto do olho; não sei se sentiram o ritmo do caminhar e se, inconscientemente o acomodaram ao meu.
Sei que achei espirituoso. Tanta gente no mundo, tantos pés. E num breve espaço de tempo, uma cantiga comum.
Gosto destas (imprevistas) cantigas que a vida nos traz, inesperadamente.

Arquivo