31/05/16

Suite n°2, do colectivo Encyclopédie de la Parole de Joris Lacoste


o Jornal Público chamou-lhe um "retrato sonoro do mundo contemporâneo...".

"...o projecto Encyclopédie de la Parole, que hoje é também um site na Internet, reúne uma equipa de pessoas com competências muito distintas – gente do teatro, poetas, linguistas, etnólogos, músicos, artistas visuais –, mas que partilham um mesmo interesse pela palavra falada. Um dos objectivos é criar um arquivo digital de registos sonoros, de recitais de poesia a relatos desportivos, de discursos políticos a mensagens de voz deixadas em telemóveis, que depois poderão ser utilizados para vários fins."

atrevo-me a dizer que foi um espectáculo brilhante, não convencional, parco em cenografia, mas extremamente rico em vozes, luz, experiências, línguas e risos.
Joris Lacoste abriu a 39ª edição do FITEI, no Porto, com uma sinfonia onde 37 atores dizem 37 falas (em 17 línguas diferentes) relativas a situações que já aconteceram, ou melhor, já foram ditas anteriormente por alguém.

"Se pensarmos que o espectáculo inclui 37 falas em 17 línguas diferentes, do português ao japonês, que às vezes há três ou quatro a ser ditas ao mesmo tempo, entrando e saindo de cena com a precisão de uma partitura musical, que algumas destas cenas são interpretadas a solo e outras são convertidas em peças corais, e que a sequência inclui coisas tão diversas como o discurso de um ministro das Finanças cujo nome não pronunciaremos, a conversa de uma mulher com uma avestruz num jardim zoológico, um curso de auto-ajuda no You Tube, ou o serviço de reclamações de uma empresa de telecomunicações mexicana, imagine-se o que não terá sido ensaiar esta Suite n°2."


resultado? inesquecível.
parece que o 3º já está em curso.
estarei presente, sempre que me for possível.

da coerência das nossas harmonias


Encanta-me a coerência nas pessoas.
É porventura uma das qualidades que mais aprecio.
É um caminho que se trilha com persistência e uma qualidade, ajuízo, que se vai adquirindo com a maturidade.
Os anos fazem-nos perpetuar (ou não) numa série de escolhas, lugares, formas de estar.
Trabalho todos os dias (desde há muitos dias) para granjear uma harmonia em tudo coerente com a minha vida.
Vou continuar a trabalhar, sempre.
Só porque isso me faz sentir uma (tão) melhor pessoa.

ora vou d'uma ora vou d'outra

 
gosto de ir das duas.
uma é mais confortável. mas a outra é mais elegante.
há dias em que decididamente escolho uma.
há dias em que decididamente escolho a outra.
sou assim uma espécie
de pé direito de uma
e de pé esquerdo da outra.
ainda bem que assim é. que tenho pés para as duas coisas.
e vontades também.

28/05/16

aqui no meu escritório



aqui, nesta cadeira do meu escritório,
onde crio, enformo, meço e decido
consigo estar em todos os sítios do mundo.

27/05/16

o jardim de casa dos meus pais (ou um namoro peculiar)


O jardim de casa dos meus pais fica tão engalanado, na Primavera.
É uma sucessão de aromas de flores, de verdes vaidosos e ruídos de natureza feliz.
Quase todas as plantas / árvores do jardim de casa dos meus pais têm uma história.
Ou porque vieram dali ou dacolá. Ou porque foram dados por este ou por aquele.
Gosto de lhe fazer a ronda, com a minha mãe, ao fim da tarde. Como se fosse um namoro antigo.
A minha mãe sabe-o de cor e ensina-mo com o respeito de quem ensina a língua materna.
Atordoam-me os brincos-de-princesa ainda miúdos, o rododendro frondoso, as rosas que se vertem em cores e pétalas de veludo.
Cada planta, folha, semente, pé, raiz, guarda bocados das duas:
dos olhos humedecidos da idade da minha mãe
dos meus olhos encantados face a tal criação natural
do céu que nos acolhe num murmúrio de vento morno.

Este galanteio, do jardim, meu e da minha mãe
ainda um dia acaba em casamento.

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