29/06/16

hoje apetecia-me isto

um quarto morno
uma cama lavada
perfume a plantas
uma brisa pequena
barulhos de casa, de família,
patas de gato no chão
chilreio de pássaros nas ramadas
um latir, ao longe, de um cão feliz
sons das tuas mãos a trabalhar no jardim, em qualquer coisa.

(quero tanto ter uma casa assim, contigo.
uma casa que tenha um quarto assim, contigo.
vamos ter, não vamos?)

28/06/16

Afinal ainda há noticias, no jornal da noite, que me deixam feliz






Fiquei muito, com esta (http://media.rtp.pt/extra/artigos/as-novas-viagens-philosophicas-um-olhar-novo-e-fresco-sobre-a-ciencia-e-a-natureza/) e dela deixo um excerto:

A RTP associou-se ao Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) e à Universidade do Porto, para a criação de uma série de documentários científicos “As Novas Viagens Philosophicas”.
Serão 13 episódios exibidos na RTP1, semanalmente ao domingo, às 12:30, a partir de 3 de julho, com a missão de documentar e explicar as investigações dos cientistas nacionais.
13 semanas de biodiversidade e vida selvagem protagonizados por investigadores portugueses, gravados nos locais mais inóspitos do planeta: da Mauritânia à Amazónia.

“Estamos todos fartos de ver a natureza representada por leões atrás de gazelas. Estas são novas histórias, novas formas de mostrar ciência e biodiversidade” – Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva

“As Novas Viagens Philosophicas” são o resultados de 5 anos de viagens, investigação e pesquisa, por 4 continentes e mais de 12 países diferentes.

cheiros

há mais ou menos 20 anos atrás andava eu atrás de um perfume. de um perfume que fosse a minha cara e a minha pele. um perfume que marcasse, que me marcasse com um carimbo de originalidade.
foi em Lisboa, numa perfumaria de um centro comercial, que encontrei uma vendedora (com letra enorme) que me recomendou o dito perfume, depois de um longo interrogatório sobre gostos, particularidades de carácter, costumes e manias.
o escolhido foi da estée lauder,"intuition".
curiosamente tem-me apetecido voltar a esse perfume. na época comprei-o e toda a gente me dizia que me assentava que nem uma luva, ainda que o achasse doce e intenso demais.
acabei por encostá-lo por preferir outros mais frescos e leves.
guardei o frasco meio cheio ainda durante anos. como se aquele resto fosse um desígnio que fizesse parte da minha existência e, deitá-lo fora, fosse sinónimo de castigo divino.
numa das mudanças de casa deve ter ido parar ao lixo, com as pazes feitas comigo.
entretanto elegi o meu perfume preferido (de coração); aquele que me faz sentir especial - agent provecateur, "maitresse". 
recebi-o hoje por correio (não o encontro em Portugal) e sempre que isso acontece apetece-me fechar num qualquer sítio para me deliciar a abrir a embalagem e conversar com o cheiro familiar que me acompanha há uns anos.

mas o "intuition" continua no meu horizonte.
quanto mais não seja vou voltar a experimentá-lo.
a minha vida mudou. a pele também. 
provavelmente vou achar, agora, que me fica bem.
provavelmente vou comprá-lo e absorvê-lo até à última gota.

(com a idade vou deixando de fazer pazes porque vou deixando de me zangar.)




27/06/16

perdi, mas encontrei

já me perdi nas séries de televisão.
já me perdi nas visitas e nos telefonemas aos amigos.
já perdi tarde de praia, esplanada, sol e tertúlia.
já perdi exposições e passeios engraçados.

mas em contrapartida, encontrei a "voz" da minha mais recente encenação.
e isso é muito bom.

exigência ou falta de paciência?

em 3 dezenas de lojas onde entrei, não consegui encontrar um vestido que me agradasse, para o casamento do meu sobrinho.
e certo é que corri tudo: lojas médias, lojas caras, lojas assim-assim, lojas baratinhas.
não houve um único que me enchesse as medidas e que me fizesse pensar.
e se, em algumas lojas, desisti rapidamente dada a confusão que reinava nas mesmas, já noutras desisti por causa do atendimento.
recuso-me a comprar em sítios onde parece que me estão a fazer um grande favor em me atender.
com o avançar dos anos a minha paciência diminui.
com o avançar dos anos a minha exigência aumenta.
em tudo.
já o peso devia diminuir.
e já agora, a gordura abdominal.

23/06/16

quando me sei perto da água

sei-me perto da minha mãe.

Teatro. Sempre.

hoje estou feliz. mais do que o habitual.
terminei uma das (muitas) fases de um grande desafio.
os grandes desafios desafiam-nos
atiram-nos de frente para o desconhecido
empurram-nos para fora da nossa zona de conforto.
atiçam-nos, estimulam-nos, fazem-nos crescer.
imprimem-nos rugas de espanto
e cabelos brancos de admiração.
os grandes desafios são partículas mágicas de um pó
- o pó que vamos juntando nas dobras da nossa existência-
e que nos faz espirrar de alegria.


hoje estou feliz, mais do que o habitual.
podia voar, se me apetecesse. da varanda da minha casa quieta e adormecida
podia fazer pinos e passos de ballet em pontas, nos telhados, nos carros estacionados e até na estrela mais longínqua.
podia falar em francês com o meu piriquito
falar de saldos da Zara com as minhas gatas
e contar isto, baixinho, ao ouvido do meu amor, que já dorme.
hoje vou deitar-me com o pó - o tal pó mágico -
a saracotear-se no meu corpo cansado
a enrolar-se nos sonhos e nos caracóis
e a sussurrar-me ao, ao ouvido,
uma das palavras que mais gosto de ouvir.
(Teatro.)

21/06/16

férias

de trabalho, só.
nunca me quis tão próxima de Teatro.
nunca me quis tão próxima de mim,

17/06/16

baril



baril baril
é quando dizes
“eu mato”
e eu respondo
“eu esfolo”
e tu dizes
“bora?”
e eu digo
“bute”
e depois vamos
e depois aquilo que era
pode perfeitamente deixar de ser
porque basicamente o que interessa
é que estamos e vamos
and that’s it.

16/06/16

um amor assim

sabes
o nosso amor
é o sítio onde mais gosto de estar.

14/06/16

a bolsa de valores do meu coração

ando a capitalizar juros, no meu coração, há tanto tempo
que quando ele amortizar
vou ser rapariga rica, ai vou vou.

tempos estes, estes tempos

são tempos de coisas pequenas convertidas em coisas grandes.
tempos de bravura investida
tempos de conversas difíceis e tempos de insónia ensonada.
tempos estes, estes tempos
que me arrancam da pele as tantas que em mim moram e se querem demorar.
tempos de sentir, sentir tudo, muito
sentir a preceito, com vontade
sentir de frente
porque há coisa que, uma vez sentidas,
não as podemos voltar a arrumar.

08/06/16

no médico

uma filha adolescente. a cara cheia de borbulhas. a mãe de um lado. o pai do outro.
o pai mexe no telemóvel. a mãe torce a alça da carteira no regaço. a filha retorce-se na cadeira.
eu jogo um jogo de palavras enquanto espero pela minha vez.
a sapatilha da rapariga das borbulhas chama-me a atenção. as vozes baixas dos três aguçam-me a curiosidade. apuro a audição; o meu dedo médio começa a mover-se mais devagar.
parte do meu cérebro detém-se ali, na conversa deles.
falam da viagem da miúda das borbulhas. a Paris. a rapariga das borbulhas vai com as amigas a Paris. levanto os olhos para aferir a idade dela. não terá mais de 14 anos.
-mal chegues liga logo. - diz a mãe de cabelo engraçado.
- apanhem um táxi, é mais seguro. - diz o pai de pele bronzeada.
a rapariga de cabeça entontecida pela puberdade e por uma visão de alguns dias longe dos pais, fala de museus, fala do hotel, fala da mala, fala da roupa. fala entre risinhos e suspiros.
recuo até aos meus 14 anos de idade. ainda brincava com algumas bonecas, às escondidas. já não era aquela coisa das mães e das irmãs. fingia, antes, que era a cabeleireira delas. a estilista. a médica.
embora o meu corpo já tivesse dito adeus à infância a minha cabeça continuava presa a certas brincadeiras.
fui rapariga/moça já tarde, sim. eram outros tempos. não havia viagens a Paris com as amigas.
não havia telefones, tablets, sapatilhas giras e compras no ebay.
mas, em contrapartida, havia brincadeiras criativas e fins-de-tarde aproveitados até à última gota de sol.

07/06/16

espera


Há dez anos que se repete… a cada sábado; todos os sábados, todos os meses, todos os anos:
a mesma mesa, junto à varanda voltada para o oceano;
o mesmo piano, a chorar um noturno de Chopin;
o mesmo vento a afagar-me os cabelos, o mesmo vinho doce a despentear-me a razão;
e… um sorriso que se vem esbatendo:
com a espera, com o vento,
com o vinho, com a erosão.
Há dez anos que te espero.
“Que, serenamente, desespero.”
O meu corpo modificou-se. A cor do meu cabelo também.
As mãos têm mais sinais; às vezes entretenho-me a unir, com uma caneta, os sinais das minhas mãos.
Os miúdos da casa cresceram e já se foram. Até a moda mudou.
Continuo à espera que o mar te traga.
“O mesmo mar que te levou.”
Há quem diga que morreste e há quem diga que, pura e simplesmente,
foste embora e não tiveste de coragem de dizer adeus.
“Há quem não diga nada porque tem pena de mim.”
Custa-me acreditar que me tenhas deixado, sozinha, a envelhecer.
Como num monólogo, um debate surdo, uma canção sem tom.
“Não deixaste, pois não?
Costumavas dizer que há tanto mundo para ver a quatro-olhos.”
Visto este vestido, todos os sábados. Gostavas do toque dele…
“Faz-me cócegas nas mãos”, dizias, embriagado de carinho e de mar.
Já tive de o ajustar ao corpo uma dúzia de vezes - descosendo a bainha, para o alargar.
“Já tentei descoser-me, de ti, todas essas vezes.”
Não tem muito mais tecido, a bainha deste vestido.
“Decidi que deixarei de me sentar à tua espera, quando não puder alargá-lo mais.”
O amor sofre. O amor tarda. O amor hesita.
Gostavas que eu me sentasse nesta varanda quando voltavas, todos os dias, do mar.
“Exatamente assim, com este vestido, o cabelo a acariciar as costas,
as faces rosadas, o coração morno.”
Acenavas-me, de longe, e a tua mão ficava suspensa, como num retrato.
Quando chegavas a mim, trazias os olhos negros de desejo.
“Pareces um quadro do Edward Hopper” – dizias- e sentavas-te. Debaixo da mesa, davas-me o pé. Ficávamos ali perdidos nos olhos um do outro até o entardecer desmaiar na noite.
Há dias em que fixo o olhar no oceano e sou capaz de jurar que é o teu barco que avisto.
“Se, quando voltares, este vestido não me servir, o que é que visto para ti?”

06/06/16

Little Miss Sunshine


Ultimamente não tenho tempo para ver filmes.
Desdobro-me entre ensaios, estudo, pais e a minha família.
A box acumula séries e dois livros novos estão pousados na mesa-de-cabeceira à espera de melhores dias.
Quando me disponho (e consigo) ver alguma coisa na televisão é uma festa e faço por escolher títulos que vão de encontro ao que mais gosto.
Embora não seja grande adepta de comédias (na verdadeira aceção da palavra), há-as que me enchem as medidas – as que são um bocadinho negras e bizarras.
O filme que vi na semana passada encheu-me as medidas, sim. Todas.
“Little Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris é um road movie com um elenco soberbo e uma trama bizarra, que desenrola com consistência e seriedade.
A comédia é bem medida e os temas abordados são de enorme relevância e estão muitíssimo bem explorados.
Entre riso, emoção e lágrimas, a história deste filme adensa-se em diálogos, imagens, música e personagens.
Posso dizer que ri, chorei, fiquei estupefacta e, quando o filme acabou, pensei que bom que é ainda haver obras como esta que me estimulam e sobretudo trazem algo de novo às nossas vidas.
Assim vale a pena.


https://www.youtube.com/watch?v=VWyH_twcMl0

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