30/09/16

pela esquerda, viras na primeira à direita

e chegarás ao canto de mim que é mais canto e que é mais mim.
só tu é que lá chegas, tu sabes.

27/09/16

cheiros


o cheiro de um fósforo a lamber a lixa:
traz-me o cheiro dos primeiros cigarros fumados à socapa
e esse esse cheiro – dos primeiros cigarros –
traz-me o cheiro da infância e adolescência, em Espinho:
praia, feira, café avenida, arroz embrulhado em jornais na praia,
banheiro, almofadas de pano, liteiro,
moscas zonzas do calor e das conversas das mulheres vizinhas das barracas da praia,
matrecos, primeiros beijos na boca às escondidas e às escuras,
prego na areia, água do mar gelada, piscina de Espinho,
Stevie Wonder a cantar o “Superstition”, roulotte cheia de tralha,
primeiros espetáculos teatrais às 3 pancadas,
pele morena, arrepios de alegria, férias intermináveis,
Ié, Rosi, Marisa, Sandra, tia Mimi. Kiki.
estamos sentadas no avançado da tia Mimi a comer bifes pequeninos e aquele arroz feito na panela.
faz calor; ao longe ouve-se o tilintar dos talheres; um rádio de bolso;
o altifalante do parque a chamar alguém.
à nossa frente estendem-se
dias grandes e preguiçosos com sabor a mar e a família.

nós ainda não sabemos
mas esses dias vão ser dos melhores das nossas vidas.

manifestamente. leva-me.

26/09/16

hoje o meu coração e o meu corpo

 estão pequeninos, na barriga da minha mãe.

25/09/16

48 anos

48 vidas. 48 anos.
48 sonhos. 48 livros.
48 coisas pequenas.
48 coisas grandes.
48 músicas.

e sem mais palavras
cem histórias escritas num minuto, hoje.

23/09/16

o riso muda com a idade?




sem dúvida. mais do que com a idade, com a maturidade.
certo é que por vezes também se torna um riso triste. porque vai acumulando camadas de vida e coisas difíceis.
o meu mudou muito com o tempo.
era de passarinho, em pequena. tornou-se de ave grande depois de crescer.
acalmou-se. ficou mais grave, por causa do cigarro e dos exercícios de voz.
também se tornou mais exigente e selectivo.
gosta de companhia, o meu riso. mas também gosta muito de rir sozinho.
quando for mais velha quero rir muito.
e ler muitas revistas e livros, com caracóis cinzentos e louros e um gato a aquecer-me os pés.

22/09/16

sempre que o meu namorado faz anos




sempre que o meu namorado faz anos
regozijam-se milhões de estrelas no céu da nossa casa e no céu das nossas bocas.
sempre que o meu namorado faz anos
deleito-me a desfiar as suas idades
impressas no seu corpo jovem e elegante
nas mãos de trabalho e criação
nas palavras atentas, assertivas e amorosas.
sempre que o meu namorado faz anos
torno-me ainda mais um bocadinho mais dele
e apetece-me escrever coisas assim:
poéticas, papalvas, em ponto de pé-de-meia
entusiasmadas, eufemísticas, embriagadas,
metafóricas, muitas, misturadas.
- porque o meu namorado quando faz anos -
faz-me ficar assim.

parabéns meu (Grande) amor Nuno.

21/09/16

adoro adoro adoro adoro e adoro

vou fazer uma lista dos blogs que adoro e um dia destes escarrapacho-a aqui.
adoro que certas palavras que escrevo, no word, apareçam sublinhadas a vernmelho.
adoro passar semáforos no verde tinto.
adoro fazer caras estúpidas para o espelho do elevador quando vou sozinha.
adoro fazer vozes quando arrumo a roupa passada a ferro.
adoro ler alguns comentários em noticias do sapo.
adoro as palavras do Jesus. adoro o penteado do Trump.
adoro o genérico dos "pequenos vagabundos" e adoro o gilbert bécaud a cantar o "et maintenant". 
adoro escrever sobre o que adoro.

A casa de Bernarda Alba

comprei o livro em 2003 depois de ler uma versão em espanhol.
comprei-o para o dirigir a peça, com o meu grupo antigo. acabou por não ir para a frente.
hoje, 13 anos mais tarde, volto a abri-lo.
desta vez vai ser, sim.
vou encenar esta obra fabulosa do Lorca, com as minhas mulheres.
estou assustada. 
sinto nas costas o peso da responsabilidade.
de levar ao público a minha versão da opressão daquelas mulheres.
o jugo a valores dominadores e tirânicos.
a sexualidade das mulheres, primeiro reprimida e depois a aflorar-se, gradativamente, qual fotografia.
sim, fotografia.
na nota de abertura do livro o autor intitulou esta obra um "documentário fotográfico".
e foi de facto, um retrato inigualável da sociedade espanhola no inicio do século XX sob o ponto de vista das  mulheres.
agora ainda fiquei mais assustada, depois de escrever isto.
mas também fiquei mais feliz.

20/09/16

intervalo.

(L'Agent by Agent Provocateur Vanesa Lace Underwired Bra)

19/09/16

da escrita

falava há dias dela. no exercício que para mim se tornou. na leveza que me coloca. na ajuda preciosa que ainda me é.
falava há dias dela como se fosse um músculo. o meu coração maior. a parte de mim a quem dedico mais de mim.
a minha escrita salvou-me e ainda me salva.

há que encarar os problemas de frente.


17/09/16

i loves you porgy

começo o dia a mergulhar em mim, fundo.
um mergulho que afunda mas regenera e enforma.
saio para o sol a seguir. saio para a rua e vejo coisas que habitualmente não vejo.
um estendal de roupa a corar ao sol. um gato que me olha com olhos de gente.
um carro estacionado cheio de papeis, lá dentro.
uma senhora que caminha com um sapato calçado e o outro meio calçado.
continuo no sol. continuo na rua.
entro em casa. mergulho no meu mundo,
ponho um disco de Keith Jarrett a tocar. "i loves you porgy" traz-me a paz que introduzi nas suas notas, ao longo de todos estes anos.
sento-me e escrevo. escrevo sobre o meu mergulho.

ao meu lado o pássaro canta, as gatas dormem.
o sol bilha. a rua continua.
e eu sinto-me estupidamente feliz.

16/09/16

barrigas



Gosto de barrigadas, barrigões e barrigas.
Gosto de barrigadas de riso, barrigões de grávidas e barrigas de mulheres. 

Há barrigas de mulheres que me contam as suas histórias, baixinho.
Há barrigas empreendedoras, francesas, jeitosinhas e impecáveis.
Há barrigas assumidas, escondidas, exibidas e desejadas.

Andei uns tempos arreliada com a minha porque lhe apeteceu medrar sem licença me pedir.
Acabamos por fazer as pazes, mas só depois de muito conversar.
(é que as barrigas têm um discurso difícil e são muitíssimos teimosas.)
Há dias em que ainda me molesta olhar para ela porque me olha com vagar provocador.
Há dias em que me pacifico e sou capaz até de lhe achar alguma graça.

As mulheres e as suas barrigas são uma melodia interminável de amor-ódio.
Mas aquelas que convivem pacificamente, todos os dias, terão porventura das melhores canções das suas vidas.

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