31/10/16

contágio

fui espreitar os blogs que sigo, como faço quase todos os dias à hora de almoço.
e o "conta corrente" falava ontem, de música.
é engraçado como me apeteceu detalhar o tema. quando começo a escrever ou a falar de música não paro.
é engraçada esta "socialização" que temos com os blogs e que fazem com que, de vez em quando, os temas nos afectem no bom sentido ou nos sejam demais permeáveis.
acontece-me isso com a Isabel Pires do "nascer na praia", que me dá estímulos quase diários.
acontece-me com tantos outros.
um dia ainda volto a falar disto. dos blogs que acompanho há anos. e que são, na verdade, companhias.

ontem foi um domingo cheio de música.
será que foi por isso que esta noite dormi muito melhor?

se eu te deixar reticências

fechas-me a frase ou complementas o meu verbo?

28/10/16

detalhes aguçados

(phot. laura a ferreira)

Detenho-me mais, ultimamente, a tirar fotografias a detalhes.
Cogitei se seria uma eventualidade que advém da maturidade.
Mas os detalhes a que me tenho dedicado com afinco povoam a varanda do 9º andar do edifício onde trabalho, varanda essa onde fumo cigarros à socapa, entre pássaros, ruídos de rua e céus que se vão metamorfoseando como espectros.
É que a varanda deste 9º andar está cheia de signos, sinais, inscrições na pedra, sombras, rostos.
De tanto me deter nas minúcias acabo sempre por encontrar alguma coisa que à primeira vista me passou despercebida.
Há dias encontrei estes lábios.
Terá sido um beijo esquecido boca de alguém ou terá sido um beijo que não chegou ao rosto destino?

27/10/16



hei-de pintar-me um só dia
só de coisas simples
e ficar assim tão somente
só.

parabéns minha mana


Estamos na praia. Na praia do Trafal. Há uma brisa morna, suave. Hoje nem foi preciso para-vento.
Já passou o homem das bolas de Berlim e já foste ao mar meia dúzia de vezes. Vais sempre mais vezes do que eu. E vais ao mar, com o teu corpo de miúda, a tua cor de Brasil, o teu cabelo com fios de ouro. Voltas a deitar-te ao meu lado. Numa toalha clarinha que pechinchaste, com tanta pinta, na praia da Falésia. Deitas-te com as pernas meias fletidas, a cabeça meia de lado, o cabelo aberto na toalha, as mãos a descansar na barriga ou então pousadas ao longo do corpo.
O sol lambe-nos o corpo, guloso. Há conversas à nossa volta. Há pequenos insetos que reverberam nos filamentos de sol. Há o teu mindinho e o meu mindinho a escassos milímetros de distância.
Quando estou assim contigo sinto-me protegida.
Mas quando estou longe de ti também.
Nunca consegui descrever esta nossa coisa de irmãs ou mães e filhas ou lá o que seja, que tanto é.
O teu telefone toca. É alguém que gosta de ti (como se pode não gostar de ti). Alguma coisa da escola que resolves num ápice. Antes desta chamada foi o pai a perguntar o que vamos almoçar. Antes do pai já tinham sido os filhos a dar os bons dias.
És assim uma espécie de centro de qualquer coisa e de toda a gente.
Às vezes gosto de te ter só para mim. De ficar a beber um copo de vinho e a falar.
A falar de tudo, mesmo às vezes das coisas mais difíceis. A rir, das minhas Lauzadas quando visto roupa e troco o decote com as mangas.
Gosto das nossas conversas maduras e familiares.
Do cheiro do sangue que nos corre nas veias e que fala a mesma cor.
Quando estou a escrever, assim, sobre ti, fico mais perto.
Na realidade estou sempre perto. O meu mindinho está sempre perto do teu mindinho, estejamos na praia ou em qualquer outro lugar.
Neste momento estou contigo na praia, sem qualquer dúvida.
Há o calor, o mar morno, a areia a escaldar, as duas espreguiçadeiras a dizer “andem cá meninas”, há os dois policiais suecos.
Há um mundo de afinidades e um mundo de experiências conjuntas. Há caracóis louros, castanhos, parecidos e completamente diferentes. Há rugas de coisas boas e há pele que foi perdendo a lisura só porque nos fartamos de viver, na pele, tantas coisas boas. Há o amor que me ensinaste e a amizade que partilhamos em surdina. Há um infinito de nós e laços e memórias que nos ligam, invisível e delicadamente.
Gosto de ficar madura contigo. Gosto de escrever. Para ti escrevo quilómetros. Para ti nunca hei-de ficar sem palavras.


Agora voltaste o rosto para mim e abriste um olho só, por causa do sol.
Tu – Já queres comer, mana?
Eu – Sim, mas também bebia um Mojito.
Tu – Também eu, caraças, vamos lá buscar.
Eu – Bora.

E vamos. Havemos de ir sempre.
Mesmo quando se acabarem os caminhos.
Mana, gosto de ti com todos os verbos do mundo.

26/10/16

malhar

já comecei os meus trabalhos de outono-inverno.
adoro sentar-me à noite, depois de ter arrumado o meu dia, a fazer qualquer coisa em malha.
relaxa-me como muito pouca coisa.
cada ponto que dou guarda cada coisa que penso.
às vezes enfiam-se cabelos no trabalho. às vezes mistura-se sono.
conversas, mimos de gato, séries de televisão e filmes.

os meus trabalhos de malha têm um bocadinho de quase todas as coisas que me fazem bem.

25/10/16

sonhos & sentidos


Hoje acordei dorida. Acordei sentida de sentir.
Não sei o que sonhei. Apenas sei que era translúcido e não tinha cheiro. E isso incomodava-me muito, o não ter cheiro.
Sei que andei no seu encalço (dessa tal coisa que nem sei se era coisa) e que fiquei cansada e ofegante e lá aparecia a cara da minha mãe (no canto esquerdo do ecrã do sonho) a dizer-me com voz de pó-de-arroz “Laurinha não devias fumar tanto minha filha”… e a coisa fugia-me e às tantas estava a jantar com a Sally Field da série “Brothers and Sisters” e de coisa já nem sombra nem coisa nenhuma e depois tudo se tornava líquido, com cores que ondulavam como serpentes e picos de som intermitentes que pululavam com olhos animados.
Acordei vazia de cores e com a pele cansada.
Talvez no sonho de hoje a encontre, a tal coisa.
Se a encontrar, peço-lhe que me explique porque me faz isto, amiúde, aos meus sentidos.

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