30/12/16

bom ano


30 dezembro, 2016
Está sol. Logo vai estar muito fio. Faz anos um sobrinho (que não é de sangue mas é de coração). Estou a usar um batom rosa-choquíssimo dado pela sobrinha. Ouço Rita Lee. Ouço-a sempre. A 30, a 31, acordada, a dormir.

Já escrevi na agenda de 2017.
Já fiz o balanço de 2016. Já li sobre o acordo de cessar-fogo, o amuo entre os EUA e a Rússia, o pagamento extra do IMI, o estado do ex-presidente…
Já escrevi os objetivos para 2017. A lista de livros. A wish-list de viagens. As tarefas muito/híper/muitíssimo urgentes.
Só me falta lavar o cabelo e acabar a primeira parte do meu colete novo, em malha.
Só me falta falar de uma coisa que me é o melhor: pessoas. As minhas.

Que 2017 me continue a trazer uma das coisas que mais aprecio e preciso: pessoas.
E que fiquem e perdurem, por muitos anos, aquelas que me fazem bem e me fazem querer ficar por perto, sempre.

(Só mesmo essas.)

Bom Ano, pessoas da minha vida.

29/12/16

as meninas da Calzedonia


A menina que me atendeu, ontem, numa loja da Calzedonia, deixou-me meia apardalada de embasbacada e a embasbacação deveu-se ao facto de a menina:
Ter os lábios pintados de cor-de-burro-quando-foge;
Ter umas unhas postiças que pareciam um qualquer instrumento de podar a terra com uma cor igualmente fugitiva;
Estar tão apertada nas leggins que usava que tudo palpitava, em desespero de causa, na parte superior do seu corpo;
Ter a cabecinha meia de lado quando digitava com os dedos (de lado, por causa das garras) o valor da conta a pagar pelas freguesas apardaladas;
Ter uma camada de base tão grande mas tão grande, no seu rosto, que se lhe passássemos um dedo, poderíamos perfeitamente sulcar uma estrada;
Não ser de todo simpática e morder repetidamente repetidamente o lábio carnudo e olhar-se no grande espelho, colocado na parede à sua direita;
Trocar todos os vês por bês;
À parte desta menina, todas as outras meninas estavam igualmente apertadas em leggins barra meias barra calças slim barra calças slim que puxam o rabinho para cima e mordiscavam amiúde o lábio como se fosse uma ordem superior,

Mas essas meninas eram bem mais simpáticas que a outra menina;
uma dessas meninas (de nome Kátia) acompanhou-me ao provador com os cabelos encaracolados a saltitar e meteu-me lá dentro e fechou-me a cortina e depois abriu-a para ver as calças que me tinha impingido e quase me apanhou, em cuecas, a vesti-las e depois quando mas viu vestidas disse “uau que bem que lhe ficam” e fechou a cortina e eu por acaso até decidi levar as calças e por acaso até tinha caído bem que a menina Kátia estivesse à minha espera quando saí, esbaforida de calor daquele provador com cheiro de gente, mas não estava, a menina Kátia já estava agarrada a outra freguesa e quando saí, depois de pagar a conta (com a primeira menina que descrevi), desejei Bom Ano à menina Kátia com o meu melhor sorriso mas ela não me ligou grande coisa porque já se encontrava a empurrar outra freguesa para o provador.

Saí da Calzedonia com a cabeça cheia de calor e meninas e tudo e prometi a mim mesma que teria de escrever este texto porque as meninas da Calzedonia são de facto umas meninas que parecem ter sido produzidas numa fábrica de fazer meninas para a Calzedonia.

Carrie Fisher watches her mom on stage at the Riviera Hotel in Las Vegas in 1963.

há imagens que me fazem chorar de beleza.

diane von fustenberg

ontem adormeci embalada num perfume que já não uso há muitos anos.
mas a memória dele habita-me as partes do corpo onde a noite se entranha, como dedos e sombra líquida.
ontem adormeci com cabelos acabados de lavar
e rosto moreno de sal.
ontem adormeci como dança
e sonhei-me ar.

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