17/10/17

sushi humano


É isto que acontece, quando um ás em Photoshop (Cristian Girotto) se junta a um diretor criativo de arte digital (Olivier Masson) e ambos criam esta serie única de sushi “humano” denominada “Raw”.

15/10/17

A ILHA DE SUKKWAN de David Vann


O premiado romance de David Vann, “A Ilha de Sukkwan” é uma obra inesquecível, um livro de leitura compulsiva, cruo e duro, obrigatório e absolutamente brilhante.

“Uma ilha deserta no sul do Alasca, a que só se consegue chegar de barco ou de hidroavião, repleta de florestas e montanhas escarpadas. Este é o cenário que Jim escolhe para desenvolver em novas bases a relação com o filho Roy, de 13 anos, que mal conhece. Doze meses numa cabana isolada do resto do mundo, colaborando para enfrentar uma natureza rude. Parece uma boa oportunidade para recuperar o tempo perdido. Mas as difíceis condições de sobrevivência e a tensão emocional a que se veem sujeitos rapidamente transformam esta estada num pesadelo asfixiante, tornando a situação incontrolável.

A Ilha de Sukkwan é uma história de um suspense avassalador. Com esta narrativa, que nos leva às profundezas da alma humana, David Vann afirmou-se como um dos escritores norte-americanos de primeiro plano.”
(Wook)



“A Ilha de Sukkwan” é uma obra que dói, que mexe, que me levou a mergulhar no fosso das relações humanas, que me fez ter vontade de ir ao Alaska e que me fez (re)colocar uma série de questões.
Talvez por ser tão incrivelmente verdadeira, tão dolorosamente bonita e incomensuravelmente fria.

13/10/17

às sextas



às sextas desaperto-me de rotinas, horas e vírgulas.
às sextas componho-me de compassos, combinações, corolários e camarins.
às sextas sou um desenho sem medo e um pijama velho, mas quente.
às sextas sou pantufas, panquecas, preleções e pequenices.
às sextas tenho o alfabeto nos sentidos e as notas musicais nos dedos das mãos.
às sextas sou um poema do Manuel António Pina e um movimento de Matisse.
às sextas estico-me encolho-me sobro-me e aceito-me.
às sextas sou, geralmente, mais engraçadinha e simpáticazinha.
às sextas borrifo-me para a matemática dos números e faço contas de somar às coisas que mais gosto.
às sextas sou, de todas as minhas Lauras, o melhor bocadinho que elas têm.

12/10/17

 
(pintura de Maija-Savolainen)

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


Daniel Faria, in “Dos Líquidos”

11/10/17

Variações de amor para um tema de Chilly Gonzales


Ela vai sentada na delicadeza de um trecho de piano de Chilly Gonzales.
Ele vai sentado na melancolia de um trecho de piano de Philip Glass.
Ela Primavera, ele Inverno.
Ela, rubor. Ele, pálido.
Ela tem o mundo todo concentrado num caderno feito de papel de toalhas de mesa.
Ele não sabe nada do mundo nem quer saber e foge de todos aqueles que sabem, menos dela.

Encontram-se no avesso dos dias, depois de desaparecidas pessoas, gatos, cortinas e pontos de luz pequeníssimos.
Encontram-se num quarto marcado por ele. Um quarto com cheiro a cinema e a papel velho. Num quarto de um qualquer prédio que numa qualquer janela tenha um músico a tocar um instrumento como se fosse um ai.
E aí, nesse qualquer quarto atarracado, com paredes riscadas, tetos pequenos,
estores mancos, aranhas solitárias, tapetes sujos,
aí nesse quarto fazem um amor sem a melodia deles
-porque a melodia de cada um ficou à porta-
e amam-se com a sofreguidão dos clássicos aprendidos
com as estrelas coradas de tanto amor
com tudo que vive, na noite, adormecido de tanta vida
e com o tal músico a divisar, no seu instrumento,
o olhar esguio, o arfar pequeno,
o desejo escuro e o libertar.
Supremo.

(a ouvir Armellodie, de Chilly Gonzales.)

10/10/17

De profundis, confusão lenta

phot. Thomas Laisne



Há noites em que a minha cabeça trabalha mais do que o meu corpo de dia.
Tudo se junta, nos sonhos. A Madame do conto do Guy de Maupassant, os espargos biológicos que encomendei ao meu sobrinho, as botas pequenas com bordados pequenos e vistosos e coloridos, que não me servem.
Depois, o que se junta, forma uma amálgama uniforme e sucosa, que se converte depois num enorme colchão, que se multiplica ainda num infindável lençol que me acolhe e me arrebata e me embala e me conserva.
Destilo. Regurgito. Sonho. Esmoreço.
Tremem-me os olhos num tremido nervoso de Catalunha.
Num esgar de politiquices escusadas.
Num respirar profundo de futebol.

Acordo estafada. Com um “ai” ainda rouco de tanta atividade, preso à entrada da língua silenciosa.
Levanto-me com a sensação de ter dormido em 5 minutos.
Cubro a cama com o lençol normal.

Tudo o que se junta, nos sonhos, continuará ali, à minha espera, para o sonho seguinte.

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