28/07/17

a minha companheira da tarde

Passou ali grande parte da tarde, empoleirada na chaminé. 
E eu passei, grande parte da minha, a olhar para ela.

19/07/17

da falta que isto me faz

phot. ,laura mexia

falta-me este meu sítio, falta-me muito.
falta-me a visita quase diária aos vossos sítios que passaram a ser meus um bocadinho.
não me falta trabalho, não me tem faltado. uma etapa nova, exigente, que tem requerido de mim o máximo dos máximos.
as férias já espreitam. para a semana. acenam-me, enfeitadas com poentes, praia, calor, morno, pássaros, mar.

para a semana volto mais descansada.
para matar saudades deste meu sítio.
e para matar saudades dos vossos.

11/07/17

impressão


passei a noite a imprimir-me em tantos sítios.
de manhã quando acordei tinha editado, no meu corpo, um belíssimo livro de viagens.

10/07/17

"Percurso sem linha"






Escrevo para que nunca me esqueça, ainda que tenha a certeza de que nunca me vou esquecer.
É que as palavras ajudam a imortalizar visões, atos e sentidos.
É o que quero que aconteça com esta experiência.
Entrei no edifício onde era antes a loja Fetal. Já se falava dele, do tapete.
Antes de saber já sabia. Já tinha presente a certeza inequívoca de saber que o que iria ver e sentir era alguma coisa que iria menear o sítio íntimo de cada um de nós onde se formam as coisas (mais) observadas e (mais) sentidas e, ainda que efémeras, perenes.

Quando entrei no espaço, depois dos olhos terem repousado por breves instantes no título da instalação “Percurso sem linha” e no nome das autoras “Rosi Avelar e Maria João Castro”, parei no centro.
E tive de me obrigar a focar, porque era grande a ansia de ver, de ver tudo.
Ainda que rodeada de gente senti-me sozinha. Precisei de me sentir sozinha para que tudo aquilo que se estendia, como tecido, passasse a ser a minha única companhia.
E foi. E então vi.

Vi a materialização, em duas salas, de duas vidas. Duas vidas diferentes, unificadas em laços, memórias, conversas, refeições e… servidas em arte.
Vi perfis de instantes, vi preocupações. Vi experiência. Vi conversas solenes.
Vi, subjacentes, os filhos. Vi, explícitos, os papéis.
Vi verões intermináveis e conversas detalhadas. Vi partilha, petiscos e abraços.
Vi preocupações, sangue de família a correr nas palavras e nos traços.
Vi a articulação e a tenacidade de duas mulheres-que-são-muita-coisa, ali condensadas.
Vi-me a mim, pequena, e vi todas as mulheres que conheço e que me tanto são.
Recuei até antes de me saber gente, à memória imemorial dos primeiros sentidos.
Vi as mãos destas duas mulheres, que tão bem conheço, porque tantas vezes as vi darem-se em refeições, gestos, laços, amizade, silêncio, tanto.
Vi a astúcia, a destreza, a mãe, a linha individual que correu para o coletivo; vi a professora, a filha, a amiga, a leitora. Vi a prima, a mulher que dorme na praia ao sol, a mulher que cozinha com as mãos, para todos.
Vi tecido, veludo, perfume, feminino.


O tapete que ocupa uma das salas da antiga casa Fetal, na Rua Direita de Viseu, é efémero.
É feito de especiarias e pigmento. Foi feito através de um depuradíssimo trabalho manual, partilhado e sentido.
É um tapete feito por duas Mulheres cujos exemplos sigo e tanto admiro.
É um tapete, mas também pode ser um agasalho. Um recato e um retiro.
Exemplo e comunhão.
De vida.


mais informações aqui:
http://jardinsefemeros.pt/eventos/percurso-sem-linha/



07/07/17

You and the Night and the Music


phot. Rita Bernstein

sabes, hoje vou.
vou de mala de rodinhas, ataviada com vontades e alegria miudinha.
vou com o malote dos cremes e também levo sapatos bonitos.
vou com andar direito, cabelo preso e o perfume da Guess que já está quase no fim.
vou com ardor no peito, paciência sublimada e um leque dos chineses que não abana grande coisa mas é tão bonito…
vou contigo, com dois livros e com um caderno de pano para escrever.
vou dois dias mas é como se fosse uma semana, pois tamanha é a vontade de ir.
vou com um lá-lá-lá a nascer-me lá no fundo do corredor da boca, aquele – sabes - onde se me afloram poemas e acalentos.

e é porque vou – e porque vou contigo -
que estas viagens feitas de quilómetros pequeninos
são as viagens que se vestem de maior.

04/07/17

por hoje


um capitulo inacabado
ou uma página com uma dobra pequena, no canto, só porque tem uma frase bonita. 
um marcador de tons pálidos
que levam consigo o cheiro de outras histórias.
uma manta de retalhos antiga com cheiro a guardado
e um sol de fim-de-tarde com faces ruborizadas.

e eu perdida nesta paz, embriagada dos sentidos
e o "It's So True", dos Spain, a tocar.

e ao longe, um dia que começou há muito e que me segredou, ao ouvido, que tão cedo não vai acabar.


 

30/06/17

29/06/17

a caixa do armário que tinha coisas incríveis


 

by Josef Sudek


a fotografia deste senhor
parece a caixa que a minha mãe guardava a sete chaves
(no armário de guardar a roupa do seu quarto)
essa caixa tinha coisas incríveis aos nossos olhos de crianças
e só era aberta em situações muito especiais.

tinha cheiro, a caixa. cheiro de mãe, de irmãs.
tinha cheiro de infância.

lembro-me dessa caixa, do cheiro dessa caixa e dos nossos olhos a ver essa caixa
como se a tivéssemos aberto ontem.

28/06/17

beijo-forma-de-vida

(autor desconhecido)



aos poucos retornam à planura das línguas,
ao tecido das conversas que não se escutam
ao compasso acurado das notas agudas do coração


e é lá, nesse beijo-forma-de-vida,
que reencontram o chão dos dias
e a arquitetura prosaica da felicidade
que aprenderam a edificar.

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