30/03/17

Anton Tchekhov


Ando a ler alguma da obra de Anton Tchekhov. Tinha este autor numa das (muitas) listas de leitura já desde a altura em que fiz, como atriz, a peça “Um pedido de casamento”. Encantou-me, na altura, o que continua hoje a encantar-me: a simplicidade das situações, a (tanta) vida mergulhada no texto, as personagens incomuns e inquietas, uma singularidade única na trama, no texto, no subtexto.

Algumas notas sobre este autor:
Tchékhov exerceu uma enorme influência sobre o desenvolvimento da dramaturgia do mundo, quebrando todas as regras que existiam antes. Ele criou uma dramaturgia que se desenvolve sem acção enquanto tal. Nas suas peças "de grande formato", a trama dramática, no sentido tradicional, não é para Tchékhov o principal. Ele gostava de afirmar que "o enredo pode até não existir". A força motriz que dá impulso para o desenvolvimento da intriga e da acção nas suas peças torna-se a vida interior das personagens, que o autor considera essencial, a par da descrição da sua vida quotidiana trivial "regular, plana, comum, tal como ela é na realidade". Tchékhov inovou a linguagem cénica, deixando de ser o conteúdo do texto um dos elementos principais das peças. Foi acentuado não o que se diz, mas o modo como se diz e como se enuncia. Isto resulta no facto de os diálogos e monólogos das personagens de Tchékhov se basearem em reticências e alegorias, o que, por sua vez, gera subtexto que é a única coisa que importa na sua dramaturgia. Interacção entre texto real e subtexto, como a interacção dos pólos externo e interno no conflito é o verdadeiro enredo do teatro tchekhoviano. O dramaturgo formulou o seu objectivo cénico da seguinte maneira: "Tudo no palco deve ser como na vida: as pessoas almoçam, bebem chá e ao mesmo tempo arruínam as suas vidas."

Na herança dramática de Tchékhov atraem uma atenção especial as peças de um acto, sendo a maioria cómica e satírica. A sua principal diferença é que elas não são comédias de situação, mas comédias de caracteres. Os heróis das miniaturas dramáticas de Tchékhov não são as personae convencionais, mas representantes de um determinado meio social, dotadas de características individuais da natureza humana.

Tchékhov foi um intelectual de primeira geração: o seu avô foi um servo de gleba, o seu pai um pequeno comerciante. Mas na história da cultura russa, o seu nome tornou-se sinónimo de inteligência, boa educação e refinamento. Tchékhov trabalhou como médico durante a maior parte da sua carreira literária e numa das suas cartas ele escreveu o seguinte a este respeito: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Vladimir I. Pliassov

10 comentários:

AvoGi disse...

Não sei se já li algum !Ivro dele. Adoro literatura russa, mas o nome não me provoca reconhecimento
Kis :=}

luisa disse...

Nunca li. Gostei da ideia da literatura como amante, até porque num caso assim, julgo que a legítima esposa não se importaria. :)

Mar Arável disse...

Vozes ao alto
Bj

Manel Mau-Tempo disse...

gostava de me chamar Anton :)

AFRODITE disse...

"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Analisar esta frase daria pano "p'ra mangas"...

Beijinhos pensativos
(^^)

Laura Ferreira disse...

Gi, ele tem essencialmente contos.
e peças de teatro sublimes :)

Laura Ferreira disse...

Luísa, os contos são deliciosos!

é basicamente o que disse o Máximo Gorki: "Ninguém melhor do que Tchékhov compreendeu a tragédia contida nas pequenas coisas da vida."

Laura Ferreira disse...

Mar, amén :)

Laura Ferreira disse...

M M-T e o sobrenome? :)

Laura Ferreira disse...

Afrodite, também gostei imenso da frase. :)

e sim, daria pano para mangas.

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