08/03/17

se por isto, se por aquilo


ilustr. Monica Barengo

Quando penso neste meu fascínio pelo universo feminino não sei se comece pelas avós, uma alta a outra baixa, as duas emperiquitadas, com manias singulares, mulheres fortíssimas,
se pelas senhoras engalanadas com batom rosa e sombra azul bebé que se passeavam com os fatos chiques, na esplanada de Espinho,
se pelas vendedoras da feira de São Mateus e da feira de Espinho que apregoavam com voz de homem e guardavam o dinheiro no bolso do avental,
se pela minha professora primária (que me ensinou o que uma mulher não deve ser),
se pelas ondas que eu e as mulheres da família herdámos nos cabelos,
se pelas empregadas que falavam com esses, levavam tudo à frente, eram família e cheiram ainda hoje a coisas da infância,
se por aquela vizinha que visitava a minha avó Amélia e que se vestia de preto e estava sempre a fazer crochet,
se pelas rendas que herdei das mulheres da família e que hoje uso com vaidade em datas especiais,
se pelas camélias e pelas rosas da minha casa das Antas que me ensinaram a gostar de flores e achá-las gente,
se pelas gargalhadas jovens da minha mãe, os seus recortes de revistas e aquele armário onde ela guardava as relíquias,
se pelas conversas de gente da minha tia que faz o melhor arroz que conheço, que não pinta o cabelo e que tem mãos de mãe,
se pelas recordações que as minhas primas-irmãs escreveram na pele da minha vida,
se pelas conversas entre cigarros com a minha cunhada-irmã,
se pelo humor contagiante e a garra da minha sobrinha,
se pela harmonia que as minhas sobrinhas novas instalaram nas suas famílias,
se pelos tempos passados com as minhas irmãs, com chuva, sol, silêncio, carinho, sangue e pelas recordações boas que ainda hoje guardo e colecciono,
se pelas camadas de amizade que as minhas amigas me vão alojando nos dias, no mais bonito dos meus dias,
se pelas mães das minhas amigas, se pelas mães todas,
se pelas histórias maravilhosas que as mulheres que sigo na Blogosfera me brindam quase todos os dias,
se pela Rita Lee se pela minha Aretha se pela Elis,
se pela filha que não tive mas que gostaria de ter tido,
se pela minha irmã mais velha que me abrigou e me abraça e me é mãe-e-tudo,
se por todas as mulheres que me passaram nas mãos em Teatro e quiseram comigo trilhar uma estrada de valores, arte e coragem,
se pelas colegas de trabalho que são tantas vezes família,
se pelas mulheres que conheci através do Teatro e que ficaram em palavras, abraços e canções,
se pelas mulheres que não conheço de rosto mas conheço de palavras, imagens e música,
se pelas minhas gatas que trato como filhas,
se pelas amigas que vejo pouco mas sinto muito,
se pela maré vaza da minha praia do Trafal,
se pelas mulheres que já têm mais idade e se escrevem com letra tão grande,
se pelas mulheres que li em livros e senti em quadros e degustei em música,
se pelas mulheres que dançaram e pintaram a manta e pintam os lábios,
se pelas mulheres que lutaram pelas outras mulheres,
se pelas mulheres que lutaram e lutam por causas nobre, cívicas e igualitárias,
se pelas mulheres em sofrimento,
se pelas mulheres com fome, com frio, com sede de paz,
se pelas mulheres assassinadas,
se pelas mulheres que fazem três coisas ao mesmo tempo,
se pelas mulheres que já não estão,
se pelas mulheres que escreveram história,
se pelas mulheres que se molham à chuva e pegam numa enxada,
se pelas mulheres que não sabem ler.

sei apenas que sim, que gosto (muito) e preciso (muito) destas mulheres todas.

24 comentários:

AvoGi disse...

Oh, pah, que lindo texto
Parabéns
Kis :=}

Isabel Pires disse...

"...se por mim" / por ti, Laura. Se começasses por ti...
Gostei muito de te ler assim.
Beijo

Carla disse...

E eu gosto de ti e do que escreves e da simplicidade com que o fazes e de te poder ler e apreciar o teu soberbo gosto em tudo o que aqui pões. :))

disse...

Lindíssimo, Laura.
Tens a quem sair! :)
Dia bom.
Beijinho

luisa disse...

pelo bom que escreves sempre aqui, Mulher!

desabafosemrodape disse...

Laura,
não sei dizer mais nada.
beijinho,
Mia

Alaska disse...

Que saudades desta Mulher tão grande. :)

Um beijo minha doce Laura. :)

Gaja Maria disse...

Por tudo isso, está aí tudo :)

Andreia Morais disse...

Maravilhoso texto!

r: Sem dúvida :)

conta corrente disse...

Atrevo-me a ser o primeiro, que não mulher, a vir aqui dizer-te que assim, como escreves, gosto muito de todas as mulheres :)

Laura Ferreira disse...

Gi, obrigada
beijinho

Laura Ferreira disse...

Isabel, gosto quando tu gostas :)

Laura Ferreira disse...

Carla e eu também gosto de ti, tu sabes :)

Laura Ferreira disse...

Té, obrigada,
agora deixaste-me curiosa :) saio a quem?

Laura Ferreira disse...

Luísa, tu és daquelas Mulheres que me faz gostar (muito) disto :)

Laura Ferreira disse...

Mia, não digas.
Eu sei do teu silêncio. Consigo ouvi-lo daqui.
beijo

Laura Ferreira disse...

Alaska que bom ver-te aqui!
já tinha andado à tua procura!

beijo minha querida menina

Laura Ferreira disse...

GM, e por ti também :)

um beijo

Laura Ferreira disse...

Andreia, fico feliz que gostes :)

Laura Ferreira disse...

CC, sou uma abençoada por ter tantas na minha vida :)

disse...

"agora deixaste-me curiosa :) saio a quem?"

:)
Assim num pequeno apanhado:

-(...) Avós, mulheres fortíssimas
-(...) Professora primária que me ensinou o que uma mulher não deve ser
-(...) Ondas que herdámos nos cabelos
-(...) Gargalhadas jovens da minha mãe

Laura, nada mais somos do que a soma de pequenos detalhes. que fazem a diferença.
Adorei o post. Como escrevi ontem; Lindíssimo.
Beijinho

Alaska disse...

Oh, sabes, eu posso zangar-me com as palavras, recusar-me a escrever até me passar a birra, mas sinto a vossa falta. Das tuas pequenas coisas que são tão maiores que eu. Estou aqui. :)

Laura Ferreira disse...

Té, por alguns momentos pensei que pudesses conhecer algum dos "meus" :)

obrigada

beijinho

Laura Ferreira disse...


que bom Alaska.
e eu aqui à tua espera :)

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