25/05/17

Rosie Huntington-Whiteley by Emma Summerton


24/05/17

a mulher que via coisas





via o que estava mesmo ali, à frente dos seus olhos.
um dia começou a conseguir ver o que está para além da primeira visão.
passados dias começou a enxergar o que está debaixo das coisas que não se escrutinam logo assim num abrir e fechar de olhos.
e começou de facto a acreditar que as coisas mais bonitas de se ver são aquelas que não estão logo ali, à distância de um olhar.
talvez por isso tivesse começado a acordar a meio da noite para ver coisas que tecnicamente são impossíveis de ver ou coisas que se vêm só porque as pessoas têm muita imaginação.
e ela tinha. muita imaginação.

ainda ontem a vi, acordada, de madrugada.
os braços dela moviam-se lentamente como uma onda.
disse-me que estava a ver as ondas do mar da praia do Trafal, do Algarve.

como pude eu não acreditar?

22/05/17

do silêncio branco

(autor desconhecido)

não sei se é deste aroma à sopa que ferve no fogão.
não sei se é dos anos que as minhas gatas demonstram no subir aos bancos e fazem-no, habilidosas, para encontrar a minha mão.
não sei é desta música que me faz recuar.
não sei mesmo se é das duas flores que comprei há dias, que estão tombadas na jarra, em cima da lareira, teimosas, agarradas à vida que já se despediu delas.
não sei se é do meu pássaro que se calou para ouvir esta música.
não sei se é de mim, do cansaço de fim de dia, a cabeça cheia de trabalho, o corpo cheio ainda da corrida de ontem.
não sei se é de ter ouvido a tua voz, há pouco, a dizer-me que vens, vens já.

mas sinto-me feliz, neste momento, neste preciso minuto de tempo,
em que deixo que o branco disto tudo sobre mim paire
e me lave e me leve.

e eu vou.

18/05/17

"Worlds Unleashed e Connecting", jantar com arte, interativamente

da TeamLab para o restaurante Sagaya em Tóquio 
um evento imersivo, onde se pode explorar um novo mundo cénico cada vez que um prato prato é colocado sobre a mesa. 
Intitulado "Worlds Unleashed e Connecting", tudo o que está sobre a mesa é observado pela inteligência artificial.


aqui, o vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=JLYxixvQ_hw

e aqui, mais trabalhos:
https://www.teamlab.art/products/

17/05/17

o meu (tão) querido Porto

my photo.

não sei se o Porto está na moda. há quem o diga e há quem o pense.
eu sou suspeita porque nutro pela minha cidade natal um amor infinito que vai aumentando à medida que eu avanço na idade.
quando penso no meu Porto penso numa mulher madura, com rugas, expressões vincadas, com membros esguios e elegantes, com olhares cheios de histórias e rios de poemas nos pés e nas mãos.
o meu Porto canção, estrofe, texto e desenho.
o meu Porto peixe, ave, saudade e coração.
o meu Porto-amor e o meu amor pelo Porto, são assim uma espécie de cara metade.

16/05/17

flores e frutos para a nossa semana





apetece-me começar assim a semana, e que vocês também.

este trabalho fotográfico magnífico é de da artista Ja Soon Ki, que também é professora de yoga.

15/05/17

a minha vida teatro

phot. Camilla Åkrans

o que nos faz, por vezes, ser especiais,
é a quantidade de coisas sublimadas em palavras histórias e risos, é a capacidade aprendida de tolerar, resgatar e continuar.
é a inveja dos outros e a nossa própria teimosia,
é não ter medo de arriscar
são as coisas difíceis e pesadas que nos fazem subir sempre mais um bocado.
é conseguir ser ao mesmo tempo actor e espectador
e ter sempre um caderninho na carteira, para ao fim do dia, vermos os apontamentos que tomamos, sobre nós próprios.
e corrigir.
como se fosse uma peça de teatro.
em que o encenador somos nós e nós dizemos sempre:
não está bem ou está bem mas podes fazer melhor.

13/05/17

sábado, Calvino e questões


phot. anna morosini

sentei-me a ler "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante", Italo Calvino.

mergulhei na leitura e depois mergulhei neste sábado lento e morno.
tenho no peito um rosário de coisas que não sei definir.
a vida ainda me abana, as questões da fé fazem-me esperas, cercam-me e obrigam-me a pensar.
gosto de pensar nas coisas e gosto de, por vezes, não as saber definir,
para que prolongue este processo de busca e questionamento.

hoje em dia as pessoas questionam-se pouco.
hoje em dias as questões não se pessoam muito.


12/05/17

a 12 de maio na mesa da Laura



sexy scissors Art Print by Paul Fuentes

às sextas apetecem-me coisas de sábado
coisas ao oıɹáɹʇuoɔ
coisas do costume e coisas do carambas.

às sextas tenho a tendência de me apetecer ser sempre Marisa
pouco Laura da semana e nada mesmo Laura do trabalho.

às sextas cozinho pratos de leitura, como empanadas de poemas
faço de conta que tenho braços nas pernas e cabeça nos lábios
canto baixinho músicas religiosas do Roberto
fico emocionada porque o Francisco chega daqui a pouco
e move-me uma coisa que vem de dentro que não sei se é fé mas sei que mexe.

às sextas sou religiosa dos meus atos e dos meus valores
não vou à missa porque não gosto do cheiro e porque não tem jazz
e rezo terços com os meus instrumentos de trabalho-palavras.

os bocadinhos da minha casa #1

O sítio onde leio ao fim da tarde e ao fim de semana.
O sítio onde dou mimos às gatas.
O sítio onde pego na guitarra para recordar notas aprendidas.
O sítio onde o meu amor cola letras recortadas em diferentes materiais; um dia hei-de uni-las para compor uma história.
O sítio onde vejo chover e onde espero o entardecer.
O sítio onde ouço as amigas e onde me ouço quando estou só.
O sítio onde me pareço mais velha quando penso no futuro e onde faço planos de férias.
O sítio onde namoro, espreito, respeito e ouço os outros.

Definitivamente, um dos sítios que mais gosto da minha casa.

(para ouvir com Bill Evans - "Peace piece")

10/05/17

Gosto de os observar.


phot. by Jonė Reed


Quando vou para casa ao fim da tarde, tento fazer do tempo que me separa de casa o melhor tempo possível.
Quando andava em ensaio aproveitava para os delinear, mentalmente.

Agora que estou de férias de teatro tenho aproveitado para pensar em coisas importantes, falar alto com elas, até as conseguir arrumar minimamente, para que não me desarrumem a mim.
Também há dias em que gosto de tirar fotografias ao céu, enquanto estou parada no semáforo.
Mas o que eu gosto mesmo de fazer é observar as pessoas que conduzem, nos carros atrás do meu recortando-lhes os olhos pelo retrovisor ou tão simplesmente olhando para elas à socapa quando param ao meu lado.
Muitas já me apanharam a olhar para elas. Pergunto-me às vezes o que pensarão de mim, ali parada a olhar para elas, com ar curioso.
Muitas sorriem, muitas viram a cara. Algumas (poucas) retribuem o olhar com ar de poucos amigos.
Uma vez uma senhora baixinha pequenina que mais parecia uma criança disse-me adeus.
Certa vez um camionista de bigode farto e olhos gulosos lambeu os beiços e fez “pssssssst”.

Gosto de os observar. Porque me dão “material” para, mais tarde ou mais cedo, escrever.

09/05/17

orgulho danado, deste meu sobrinho


https://www.youtube.com/watch?v=gQtGZCkEGLU&feature=youtu.be

A Bio em Casa distribui cabazes biológicos. Leva o que há de mais fresco e puro directamente para as casas de todos aqueles que os solicitam.

A cara desta empresa e as mãos dela pertencem ao André da Silva, meu sobrinho.

Wardrobe Snacks


Wardrobe Snacks was inspired by diners lacking the luxury of being seated at a table:
A collaboration between Michelle Maguire and Kelsey McClellan.

05/05/17

quando a arte me arrebata num fôlego



Murray Fredericks fez pelo menos vinte viagens ao centro do lago Eyre, desde 2003. 
Este lago tem uma grande concentração de sal e o artista arrasta todo o seu equipamento para poder capturar o céu reflectido num enorme espelho rectangular.

vale a pena ver o vídeo, aqui:

https://www.ignant.com/2017/05/03/murray-fredericks-sublime-landscape-reflections/



#diário


04/05/17

as minhas coisas


guardo-as todas junto ao peito.
quando for velha, vou rezar terços de coisas pequeninas.
das minhas coisas.
porque é nessas em que de facto acredito.

03/05/17

diário


pois é. voltei ao papel.
há mais de 4 anos que não me despia nele.
chegou agora a hora outra vez.
e estou muito contente por ter voltado.

humanos

 


Brad Wilson

parece que juridicamente estamos protegidos.
mas o homem é a lei que nos assusta mais.


02/05/17

“a mulher que gostava de virgulas”


phot. olena kassian

começou, a dada altura da vida, a trocar vírgulas.
talvez porque não tivesse beijos.
e beijos e vírgulas eram para ela das coisas mais bonitas.

nunca conheceu homens que lhe dessem beijos.
mas conheceu muitos que lhe deram reticências.
e a brindaram com pontos finais.
já as vírgulas, que era o que ela queria mesmo, nada.
ela queria, queria o impulso, a paragem brusca, a interrupção premente.
ela queria o retomar depois de uma frase, um afago, um segredo.
mas não, nada.
apenas composições erráticas, sem pejo, sem assombro.

talvez por isto tudo se tenha tornado numa mulher um bocadinho estranha.
que se note bem – um bo-ca-di-nho estranha.
dizia-o, este “bocadinho”, com uma boca afrancesada, pintada com batom sem cor.

talvez por isto tudo não tenha feito testamento,
talvez por isto tudo não tenha guardado os beijos nem os homens,
e talvez por isto tudo nunca tenha dito a ninguém,
que o nome que gostaria que lhe tivessem dado
era
“ a mulher que gostava de virgulas”.

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