10/07/17

"Percurso sem linha"






Escrevo para que nunca me esqueça, ainda que tenha a certeza de que nunca me vou esquecer.
É que as palavras ajudam a imortalizar visões, atos e sentidos.
É o que quero que aconteça com esta experiência.
Entrei no edifício onde era antes a loja Fetal. Já se falava dele, do tapete.
Antes de saber já sabia. Já tinha presente a certeza inequívoca de saber que o que iria ver e sentir era alguma coisa que iria menear o sítio íntimo de cada um de nós onde se formam as coisas (mais) observadas e (mais) sentidas e, ainda que efémeras, perenes.

Quando entrei no espaço, depois dos olhos terem repousado por breves instantes no título da instalação “Percurso sem linha” e no nome das autoras “Rosi Avelar e Maria João Castro”, parei no centro.
E tive de me obrigar a focar, porque era grande a ansia de ver, de ver tudo.
Ainda que rodeada de gente senti-me sozinha. Precisei de me sentir sozinha para que tudo aquilo que se estendia, como tecido, passasse a ser a minha única companhia.
E foi. E então vi.

Vi a materialização, em duas salas, de duas vidas. Duas vidas diferentes, unificadas em laços, memórias, conversas, refeições e… servidas em arte.
Vi perfis de instantes, vi preocupações. Vi experiência. Vi conversas solenes.
Vi, subjacentes, os filhos. Vi, explícitos, os papéis.
Vi verões intermináveis e conversas detalhadas. Vi partilha, petiscos e abraços.
Vi preocupações, sangue de família a correr nas palavras e nos traços.
Vi a articulação e a tenacidade de duas mulheres-que-são-muita-coisa, ali condensadas.
Vi-me a mim, pequena, e vi todas as mulheres que conheço e que me tanto são.
Recuei até antes de me saber gente, à memória imemorial dos primeiros sentidos.
Vi as mãos destas duas mulheres, que tão bem conheço, porque tantas vezes as vi darem-se em refeições, gestos, laços, amizade, silêncio, tanto.
Vi a astúcia, a destreza, a mãe, a linha individual que correu para o coletivo; vi a professora, a filha, a amiga, a leitora. Vi a prima, a mulher que dorme na praia ao sol, a mulher que cozinha com as mãos, para todos.
Vi tecido, veludo, perfume, feminino.


O tapete que ocupa uma das salas da antiga casa Fetal, na Rua Direita de Viseu, é efémero.
É feito de especiarias e pigmento. Foi feito através de um depuradíssimo trabalho manual, partilhado e sentido.
É um tapete feito por duas Mulheres cujos exemplos sigo e tanto admiro.
É um tapete, mas também pode ser um agasalho. Um recato e um retiro.
Exemplo e comunhão.
De vida.


mais informações aqui:
http://jardinsefemeros.pt/eventos/percurso-sem-linha/



6 comentários:

Andreia Morais disse...

Precisamos de nos isolar em nós para aprendermos a ver se interferências de terceiros!

luisa disse...

Impressões fortes as que resultaram da tua imersão nessa obra de arte efémera. Deve ser muito interessante.

Cidália Ferreira disse...

Maravilhosa postagem!

Beijinhos

redonda disse...

Vou seguir o link...

redonda disse...

Já de volta, primeiro gostei tanto da descrição aqui que fiquei curiosa e quis ir logo espreitar o link, agora penso que queria ir ver


um beijinho

Laura Ferreira disse...

meninas, é maravilhoso, sim.
vale tanto a pena ver!

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