11/10/17

Variações de amor para um tema de Chilly Gonzales


Ela vai sentada na delicadeza de um trecho de piano de Chilly Gonzales.
Ele vai sentado na melancolia de um trecho de piano de Philip Glass.
Ela Primavera, ele Inverno.
Ela, rubor. Ele, pálido.
Ela tem o mundo todo concentrado num caderno feito de papel de toalhas de mesa.
Ele não sabe nada do mundo nem quer saber e foge de todos aqueles que sabem, menos dela.

Encontram-se no avesso dos dias, depois de desaparecidas pessoas, gatos, cortinas e pontos de luz pequeníssimos.
Encontram-se num quarto marcado por ele. Um quarto com cheiro a cinema e a papel velho. Num quarto de um qualquer prédio que numa qualquer janela tenha um músico a tocar um instrumento como se fosse um ai.
E aí, nesse qualquer quarto atarracado, com paredes riscadas, tetos pequenos,
estores mancos, aranhas solitárias, tapetes sujos,
aí nesse quarto fazem um amor sem a melodia deles
-porque a melodia de cada um ficou à porta-
e amam-se com a sofreguidão dos clássicos aprendidos
com as estrelas coradas de tanto amor
com tudo que vive, na noite, adormecido de tanta vida
e com o tal músico a divisar, no seu instrumento,
o olhar esguio, o arfar pequeno,
o desejo escuro e o libertar.
Supremo.

(a ouvir Armellodie, de Chilly Gonzales.)

11 comentários:

Cidália Ferreira disse...

Uma texto sublime! Amei

Beijinhos

luisa disse...

Leio ouvindo a música dela... :)

Gaja Maria disse...

Uau! Fantástico.

Andreia Morais disse...

Maravilhoso! Adorei *.*

ana disse...

Tão bonito...

ana disse...

Tão bonito...

Laura Ferreira disse...

obrigada, Cidália :)

Laura Ferreira disse...

Luísa, a música diz bem, não diz?

Laura Ferreira disse...

GM, obrigada!

Laura Ferreira disse...

Andreia, gosto tanto da imagem...

Laura Ferreira disse...

Ana, obrigada :)

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