22/03/17

nu lugar de

no lugar de mim, nós.
no lugar de muitos, todos.
no lugar de vogais, consoantes.
no lugar de números, equações.

no lugar de água, mar.
no lugar de terra, respeito.
no lugar de palmas, altruísmo.
no lugar de chão, firme.

no lugar de pouco, tudo.
no lugar de atores, alto.
no lugar de luzes, universo.
no lugar de voz, vida.

no lugar de Teatro, eu, tu, o outro, a outra e nós (sempre) todos.

21/03/17

poesia



a minha poesia está na película da pele mais fina,
aquela que não tem nome,
e que se faz de arrepios
mesmo com aquelas coisas que conhecemos desde sempre.

ando longe, mas por uma boa causa (A casa de Bernarda Alba)


“A casa de Bernarda Alba”
Texto: Federico Garcia Lorca
Tradução e Adaptação: Laura Avelar Ferreira
Encenação e Cenografia: Junior Sampaio e Laura Avelar Ferreira

Interpretação: Catarina Vaz, Celeste Grandão, Etelvina Baltazar, Maria De Fatima Nunes, Joana Costa, Nanci Sousa, Renata Marques, Rosário Nascimento, Sandra Paiva, Sandra Vieira Figueiredo, Sofia Príncipe e Susana Vieira
Designer: Nuno Sousa Pereira

Produção: ENTREtanto TEATRO - 2017
Produção Executiva: Inês Ferreira | Tania Seixas

Pela primeira vez, em 2017, alunas e ex-alunas das formações ministradas pelo ENTREtanto TEATRO assumem, com Júnior Sampaio, as funções artísticas da montagem desta pérola da literatura dramática, materializando o investimento iniciado pela companhia ao longo de mais de vinte anos.

Apoios: Câmara Municipal de Valongo | Botões Paris – Silvestre Vieira Magalhães e Filhos, Lda | Moreiras’s – Comércio de Ceras, Lda

16/03/17

pappy, 89 anos


há uma cantiga em surdina
há brincos de princesa no jardim
há carreiras de famílias de formigas unidas, igual à minha.
há uma porta que range com o som de antigamente
há uma voz que ri o que já não pode ser gargalhado.

há doce de abóbora
há cheiro de líquido de limpar pratas
há Mr. Bojangles a tocar

há o opel prateado a estacionar na garagem
há barulho de agulhas a bater; a avó tricota na janela, ao sol.
há uma cadela de pelo encaracolado que nos ama a cada dia que passa
há canções dos tachos e dos pratos e da água na cozinha
há livros nas estantes, flores nos canteiros,
piadas nas palavras e esperança nos olhos.
há um tempo que escorre felicidade
e se evapora em momentos felizes.

há pessoas – as minhas pessoas – inseridas em nichos de momentos imortalizados
nessas pessoas há uma em particular que retiro com as duas mãos numa concha:
um patriarca de olhos antigos mas que ainda têm verde jovem
com 3 nomes no nome
de cabelos brancos de neve
sempre vestido a condizer.

há, ainda, segurança, vontade de viver (muita), mimo,
há piadas incontáveis e promessas que um dia se cumprirão
há mãos que ainda trabalham barcos que um dia cruzarão águas por viagens de anos
há mãos que ainda se torcem quando o FCP perde e há, as mesmas mãos
que me mexem nos cabelos para depois dizer “tens o cabelo forte filha”.

há 89 anos que há isto tudo
(e para mim estas coisas serão para sempre).

volto a metê-lo, com as mãos em concha, no nicho do lado esquerdo do meu peito.
logo vou dar-lhe beijos de miúda e um abraço com tudo isto lá dentro.
e, mesmo sabendo que me viu há poucos dias
vai dizer-me o mesmo de sempre, com olhos nublados e astutos:

“já não te via há mais de duzentos anos. não me digas que hoje vens jantar…”

14/03/17

fotografar(te)

phot by Vivian Meir



tenho saudades de andar pelas ruas das cidades
a fotografar ninharias, gentes e nuvens.
e depois chegar a casa e ver as imagens com cuidado depurado
(não artístico)
antes olhar emocionado.

há imagens que fui tirando, ao longo da vida,
e me aproximaram, sem saber muito bem como,
do mais perto que há de mim.

woman

phot lisa wassmann

As a woman I have no country.
As a woman my country is the whole world.

(v.w.)
 

10/03/17

a abelha selectiva

(autor desconhecido)

ontem estava a trabalhar e abriram a janela e entrou uma abelha e ficaram todos aflitos e doidos e histéricos
e o que eu amo nos animais é sua capacidade a sua quase compreensão racional a sua quase inteligência emocional
a abelha que entrou, ontem, pela janela do meu trabalho voltou a sair quase a seguir
no meio de gritos e braços levantados e gritinhos
mas saiu porque quis - porque na minha opinião
os animais são, às vezes, muitíssimo mais selectivos que os humanos.

09/03/17

chega-me assim, isto

vanities | still | inspire | claire delmar

peço e penso.
quero o pequeno, hoje, mas que seja absoluto.
o simples informal que se sabe que é esperado.
penso e peço.

chega-me assim, isto.

08/03/17

se por isto, se por aquilo


ilustr. Monica Barengo

Quando penso neste meu fascínio pelo universo feminino não sei se comece pelas avós, uma alta a outra baixa, as duas emperiquitadas, com manias singulares, mulheres fortíssimas,
se pelas senhoras engalanadas com batom rosa e sombra azul bebé que se passeavam com os fatos chiques, na esplanada de Espinho,
se pelas vendedoras da feira de São Mateus e da feira de Espinho que apregoavam com voz de homem e guardavam o dinheiro no bolso do avental,
se pela minha professora primária (que me ensinou o que uma mulher não deve ser),
se pelas ondas que eu e as mulheres da família herdámos nos cabelos,
se pelas empregadas que falavam com esses, levavam tudo à frente, eram família e cheiram ainda hoje a coisas da infância,
se por aquela vizinha que visitava a minha avó Amélia e que se vestia de preto e estava sempre a fazer crochet,
se pelas rendas que herdei das mulheres da família e que hoje uso com vaidade em datas especiais,
se pelas camélias e pelas rosas da minha casa das Antas que me ensinaram a gostar de flores e achá-las gente,
se pelas gargalhadas jovens da minha mãe, os seus recortes de revistas e aquele armário onde ela guardava as relíquias,
se pelas conversas de gente da minha tia que faz o melhor arroz que conheço, que não pinta o cabelo e que tem mãos de mãe,
se pelas recordações que as minhas primas-irmãs escreveram na pele da minha vida,
se pelas conversas entre cigarros com a minha cunhada-irmã,
se pelo humor contagiante e a garra da minha sobrinha,
se pela harmonia que as minhas sobrinhas novas instalaram nas suas famílias,
se pelos tempos passados com as minhas irmãs, com chuva, sol, silêncio, carinho, sangue e pelas recordações boas que ainda hoje guardo e colecciono,
se pelas camadas de amizade que as minhas amigas me vão alojando nos dias, no mais bonito dos meus dias,
se pelas mães das minhas amigas, se pelas mães todas,
se pelas histórias maravilhosas que as mulheres que sigo na Blogosfera me brindam quase todos os dias,
se pela Rita Lee se pela minha Aretha se pela Elis,
se pela filha que não tive mas que gostaria de ter tido,
se pela minha irmã mais velha que me abrigou e me abraça e me é mãe-e-tudo,
se por todas as mulheres que me passaram nas mãos em Teatro e quiseram comigo trilhar uma estrada de valores, arte e coragem,
se pelas colegas de trabalho que são tantas vezes família,
se pelas mulheres que conheci através do Teatro e que ficaram em palavras, abraços e canções,
se pelas mulheres que não conheço de rosto mas conheço de palavras, imagens e música,
se pelas minhas gatas que trato como filhas,
se pelas amigas que vejo pouco mas sinto muito,
se pela maré vaza da minha praia do Trafal,
se pelas mulheres que já têm mais idade e se escrevem com letra tão grande,
se pelas mulheres que li em livros e senti em quadros e degustei em música,
se pelas mulheres que dançaram e pintaram a manta e pintam os lábios,
se pelas mulheres que lutaram pelas outras mulheres,
se pelas mulheres que lutaram e lutam por causas nobre, cívicas e igualitárias,
se pelas mulheres em sofrimento,
se pelas mulheres com fome, com frio, com sede de paz,
se pelas mulheres assassinadas,
se pelas mulheres que fazem três coisas ao mesmo tempo,
se pelas mulheres que já não estão,
se pelas mulheres que escreveram história,
se pelas mulheres que se molham à chuva e pegam numa enxada,
se pelas mulheres que não sabem ler.

sei apenas que sim, que gosto (muito) e preciso (muito) destas mulheres todas.

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