20/04/18

está.



Está nos lábios das meninas, nas bochechas das crianças,
nos galhos jovens das árvores
na madrugada sonolenta de aromas.
está nas sandálias das mulheres e nos seus cabelos.

está em mim, a Primavera, hoje.
como se nunca tivesse estado.

17/04/18

privilégio


é isto. correr num espaço destes. cheirar o mar. ouvir as coisas.
voltar depois a casa com o corpo cansado do bom que é cansar-mo-nos.

16/04/18

volto calmamente ao hábito dos dias comuns


retomo leitura, hábitos pequenos,
exercício, conversa,
filmes, música.
e eu. retomo-me. recebo-me de mãos em concha.

ontem vi um filme muito bonito.
"Lion- a longa estrada para casa", de Garth Davi.

10/04/18

"uma história que não lembra ao diabo"


(…) "Gente a fazer de bonecos ou bonecos a fazer de gente?
Há de tudo, aqui. No palco da nossa imaginação.
Aqui, neste palco, faz-se o infazível e narra-se o indizível.
Para que o fazemos? Será apenas por puro entretenimento?
Será porque podemos fazê-lo e, fazendo-o, estamos a pensar seriamente em algumas coisas?
Se calhar é um bocadinho disso tudo.
O resultado foi este.
Não sei muito bem o que vos diga.
Apenas sei que há histórias que não lembram ao diabo."


E também sei que é bom ver materializado, aquilo que começou por ser um esboço
depois foi gerado, retido, enriquecido e apaparicado
para por fim nascer, rebelde, indefinido, inconstante.
gritou, esperneou, teve noites mal dormidas mas também riu muito.
depois cresceu e teve pais, filhos, irmãos, amigos.
aprendeu a andar e a correr e a brilhar.
já o coloquei no meu álbum de filhos-teatro como (mais) um especial.
este deu-me luta. deu-nos luta. a todos. aos que o suaram em corpo e voz, aos que o coseram, colaram, maquilharam, assistiram, repetiram, transportaram, soldaram, acreditaram, iluminaram, musicaram e sobretudo acarinharam.
está pronto para ir. deixemo-lo voar.

(mas, porreta, não é que já tenho saudades dele?)

27/03/18

Teatro

Parabéns Teatro querido:
O meu Teatro, o nosso Teatro,
o Teatro que me ensinaram os grandes,
e os primeiros pequenos, que me levaram para o Teatro.
Tu que me ensinas tanto e me espantas mais ainda.
Tu que és dos casos mais sérios da minha vida,

Parabéns a nós, que o fazemos porque queremos e o fazemos, acima de tudo, com verdade.

(estou quase de volta, por inteiro.)

08/03/18

mulheres



Quando penso neste meu fascínio pelo universo feminino não sei se comece pelas avós, uma alta a outra baixa, as duas emperiquitadas, com manias singulares, mulheres fortíssimas,
se pelas senhoras engalanadas com batom rosa e sombra azul bebé que se passeavam com os fatos chiques, na esplanada de Espinho,
se pelas vendedoras da feira de São Mateus e da feira de Espinho que apregoavam com voz de homem e guardavam o dinheiro no bolso do avental,
se pela minha professora primária (que me ensinou o que uma mulher não deve ser),
se pelas ondas que eu e as mulheres da família herdámos nos cabelos,
se pelas empregadas que falavam com esses, levavam tudo à frente, eram família e cheiram ainda hoje a coisas da infância,
se por aquela vizinha que visitava a minha avó Amélia e que se vestia de preto e estava sempre a fazer crochet,
se pelas rendas que herdei das mulheres da família e que hoje uso com vaidade em datas especiais,
se pelas camélias e pelas rosas da minha casa das Antas que me ensinaram a gostar de flores e achá-las gente,
se pelas gargalhadas jovens da minha mãe, os seus recortes de revistas e aquele armário onde ela guardava as relíquias,
se pelas conversas de gente da minha tia que faz o melhor arroz que conheço, que não pinta o cabelo e que tem mãos de mãe,
se pelas recordações que as minhas primas-irmãs escreveram na pele da minha vida,
se pelas conversas entre cigarros com a minha cunhada-irmã,
se pelo humor contagiante e a garra da minha sobrinha,
se pela harmonia que as minhas sobrinhas novas instalaram nas suas famílias,
se pelos tempos passados com as minhas irmãs, com chuva, sol, silêncio, carinho, sangue e pelas recordações boas que ainda hoje guardo e coleciono,
se pelas camadas de amizade que as minhas amigas me vão alojando nos dias, no mais bonito dos meus dias, 
se pelas mães das minhas amigas, se pelas mães todas,
se pelas histórias maravilhosas que as mulheres que sigo na Blogosfera me brindam quase todos os dias, 
se pela Rita Lee se pela minha Aretha se pela Elis,
se pela filha que não tive mas que gostaria de ter tido,
se pela minha irmã mais velha que me abrigou e me abraça e me é mãe-e-tudo,
se por todas as mulheres que me passaram nas mãos em Teatro e quiseram comigo trilhar uma estrada de valores, arte e coragem,
se pelas colegas de trabalho que são tantas vezes família,
se pelas mulheres que conheci através do Teatro e que ficaram em palavras, abraços e canções,
se pelas mulheres que não conheço de rosto mas conheço de palavras, imagens e música, 
se pelas minhas gatas que trato como filhas,
se pelas amigas que vejo pouco mas sinto muito,
se pela maré vaza da minha praia do Trafal,
se pelas mulheres que já têm mais idade e se escrevem com letra tão grande,
se pelas mulheres que li em livros e senti em quadros e degustei em música,
se pelas mulheres que dançaram e pintaram a manta e pintam os lábios,
se pelas mulheres que lutaram pelas outras mulheres,
se pelas mulheres que lutaram e lutam por causas nobre, cívicas e igualitárias,
se pelas mulheres em sofrimento,
se pelas mulheres com fome, com frio, com sede de paz,
se pelas mulheres assassinadas,
se pelas mulheres que fazem três coisas ao mesmo tempo,
se pelas mulheres que já não estão,
se pelas mulheres que escreveram história,
se pelas mulheres que se molham à chuva e pegam numa enxada,
se pelas mulheres que não sabem ler.

sei apenas que sim, que gosto (muito) destas mulheres todas.

04/03/18

and the Oscar goes to...


Há coisas que mudamos, na vida, não porque queremos mas porque a tal somos obrigados.
A vida e as obrigações e as responsabilidades mudam-nos hábitos e ditam-nos regras.
Óscares. A noite dos Óscares.
Nos meus tempos de adolescente, era uma noite em tudo similar, em termos de emoção, ao Festival Eurovisão da Canção, aos dias em que recebia os LPs de MPB que o Sr. Bordalo me trazia do Brasil ou ao primeiro dia de praia em que a pele respira sofregamente e se abre para o sol.
Os Óscares eram um nadinha de tudo isso e mais ainda: magia, luzes, holofotes, elegância, mulheres bonitas, reconhecimento, eram uma coisa longínqua, que acontecia do outro lado do mundo, acedível só a quem estivesse acordado toda a noite.
Eu estava. Primeiro, quando estudava e depois, nos primeiros anos de trabalho. Metia férias para ver os Óscares. Depois sentava-me no sofá de pijama e lá ficava, a cair de sono, com sandes de vários andares para me tirar a larica, a torcer por este, por aquela, a rir-me do outro e embasbacada, a olhar para todos.
Sei que hoje em dia esta coisa dos Óscares é mais uma coisa de indústria, politica e lobbies do que de mérito. Acredito que, em alguns casos, assim seja.
Mas rais me peniquem, não é que ainda continuo a sentir aquela coisa no baixo ventre “da-noite-dos-Óscares”? Ainda me delicio com os vestidos, as jóias, ainda faço apostas e roo uma unha porque quero que ganhe este ou aquele.
Já não meto férias. Já não me entulho de sandes de vários andares antes de ir dormir.
Mas, porra, a primeira coisa que faço no dia seguinte (à noite dos Óscares) é ligar a rádio para saber como foi.
Há coisas que mudamos, na vida, não porque queremos mas porque a tal somos obrigados.
Mas também há amores, na vida, que são para sempre.

12/02/18

o convite do "Delito de Opinião" que muito me honrou

O Pedro Correia, que muito admiro, convidou-me a escrever um texto para o "Delito de Opinião".
Fiquei feliz porque me diz, o Blog. Muito.
Dele sigo as opiniões, as músicas do século e os livros.

Escolhi o tema "cinema". Porque me diz muito. E porque há muito que não escrevia sobre ele.

Está aqui:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/convidada-laura-avelar-ferreira-9882338

Pedro, mais uma vez, muito obrigada pelo convite.

09/02/18

carnavalando

e depois de uma semana de muito trabalho na Bolsa.
e depois de uma semana de muito trabalho no teatro (à noite).

vou sair mais cedo, meter-me num Uber, rumar ao UCI Arrábida e enfiar-me no cinema.
dose dupla.
como gosto e como preciso!

07/02/18

este meu sítio imaginado do ar

respiro à noite, quando chego a casa, depois de um dia em que couberam horas de quase uma semana,
quando me sento no sofá já perto do sono a pique
e me lembro deste meu sítio, onde tenho vindo pouco, mas a quem gosto muito (tanto).

ponho-me a escrever no ar, no espaço, com uma caneta invisível, bonita, de tinta irrepreensível e Português acertado,
escrevo uma coisa pequena, porque pequeno é o tempo que tenho.
curioso como já não me sinto tão longe daqui.

ainda bem que um dia, em pequena, fiz um pacto com a minha imaginação.
e lhe disse, ao ouvido, coisas que me fizeram acreditar hoje, em adulta,
que o tempo e o espaço são matéria e facto,
mas também são abstracto e são aquilo que eu às vezes quero que sejam.

(ontem quis muito que o espaço e a noite fossem este meu sitio.)

26/01/18

o meu Teatro é isto


phot. Alan Schaller

Vejo-os, os meus atores, de cima. Parados, em cena.
Gosto de lhes pedir que se movam, lenta e paulatinamente.
Gosto de lhes pedir que não façam nada. Ou que façam pequenos nadas. Assim ou assado. Para dentro ou para fora.
Depois peço-lhes que deles se desprenda uma torrente de qualquer coisa de dentro, qualquer coisa que não tem nome, que se forma a partir do eu de cada um, a partir do impacto que o texto tem em cada um.
O Teatro é isto. O meu Teatro é isto. Faz com que se desprenda também de mim qualquer coisa que não tem nome, que se forma a partir do meu eu, a partir do impacto que o amor que tenho por ele tem em mim.
Vejo-me, de cima. Parada, à boca de cena.
Gosto de me ver assim.
O Teatro - é um dos sítios onde gosto mais de me ver.

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