26/01/18

o meu Teatro é isto


phot. Alan Schaller

Vejo-os, os meus atores, de cima. Parados, em cena.
Gosto de lhes pedir que se movam, lenta e paulatinamente.
Gosto de lhes pedir que não façam nada. Ou que façam pequenos nadas. Assim ou assado. Para dentro ou para fora.
Depois peço-lhes que deles se desprenda uma torrente de qualquer coisa de dentro, qualquer coisa que não tem nome, que se forma a partir do eu de cada um, a partir do impacto que o texto tem em cada um.
O Teatro é isto. O meu Teatro é isto. Faz com que se desprenda também de mim qualquer coisa que não tem nome, que se forma a partir do meu eu, a partir do impacto que o amor que tenho por ele tem em mim.
Vejo-me, de cima. Parada, à boca de cena.
Gosto de me ver assim.
O Teatro - é um dos sítios onde gosto mais de me ver.

25/01/18

dias há

dias há
em que há tudo
e nada há.

23/01/18

"A Convidada", Simone de Beauvoir

ter lido este livro foi como se me tivesse sentado, em Paris, num qualquer café, com cheiro a cigarro, a comer um croissant e a beber um café longo, sentada a uma mesa de canto, com muita gente a entrar e a sair, e no segundo a seguir, sem gente nenhuma lá dentro.
com sons de guerra, ao fundo, com maldade, fúria, ternura e desassossego a emergirem do chão do café de Paris onde imaginariamente me sento, neste momento. 
com jazz longínquo e com cheiro a Teatro.
com promessas de liberdade.

Informação retidada do site Wook:

Sinopse
A história de uma tentativa de vida a três, dramaticamente conduzida até à evidência da sua impossibilidade.
Críticas de imprensa
É (...) como sempre, um romance de tese. Uma história de amor "a três" que gira em volta da indefinição e da liberdade. E fica-se a conhecer intimamente S. Germain des Prés dos anos trinta e quarenta. Ou seja: o sítio onde "tudo" aconteceu.
Mafalda Ivo Cruz in «Mil Folhas» (Público) em 30/12/2000

19/01/18

friday

às sextas maquilho-me com amor
e faço dos gestos - flores, para aqueles que gosto mais.

18/01/18

dias assim


Acordou com voz de colagem, feitio de desenho animado e espírito de pássaro.
Havia dias assim. Feitos de camadas, colagens, cores e coração.

phot. harold feinstein

17/01/18

encontro com bonito. do bonito a valer.

vim aqui para escrever, juro. depois de dias de trabalho intenso e falta de tempo em absoluto.
o spotify acompanha-me, nestes momentos. à falta de imaginação para ir buscar música, valho-me em certos dias das propostas do "daily mix".
claro, brasileiras, inspiradas na Elis, no Caetano, no Chico, na Gal, no Egberto, em tantos, em todos.
hoje foi um desses dias de proposta e de cansaço também, onde a cabeça dói de números e preçários e leis e propostas.

descobri isto. e, por ser tão, bonito, decidi adiar a escrita para amanhã.
por hoje fico só assim, quieta, a ouvir.

(como posso mexer-me enquanto isto toca?)

https://www.youtube.com/watch?v=riudCKh7eLQ


10/01/18

se eu fosse um desenho


este era um desenho que eu gostava de ser.
tem vermelho. tem pássaros. tem pontinhos pequenos que na minha cabeça são tanta coisa.
tem rosáceas. tem corado. tem flores.
tem, pelo menos, uma sobrancelha meia levantada.
e tem música.
uma música que ouço, ao longe, com tecido de infância e cheiro de família.
uma música com cordas, acordes menores e silêncios, em contratempo.
uma música que sei de cor porque ela me sabe a mim. desde o início.

09/01/18

excerto

"Um dia li um livro e toda a minha vida mudou. desde a primeira página, sofri com tanta força o poder do livro que senti o meu corpo apartado da cadeira e da mesa em que me sentava."

Orhan Pamuk, "a vida nova".

08/01/18

Ultimamente tudo me detém.



Ultimamente tudo me detém.
O tanto, o tédio, o tempo tonto e até as particulazinhas de pó que ensaiam uma dança minúscula à luz morna da tarde envergonhada do meu domingo.
Ontem andei a ver os quadros que habitam as paredes da minha casa, de mãos atrás das costas, como fazem certas pessoas em museus.
O ver, assim depurado e vagaroso, reflete-nos por vezes os pormenores que a vista, à primeira vista, não alcança.
Desde o início do ano que ando a prestar mais atenção às coisas que sempre me circundaram, seja numa tentativa de as redescobrir, seja pelo simples facto de que olhos para elas e penso “porra, que seria a minha vida sem ti”.

06/01/18

habemos peça

ó Teatro, meu farsolas,
andaste fugido, a fazer-me de longe caretas pueris;
calçaste sapatos de corrida, que me roubaste, bem janotas e puseste-te a milhas.
e, de longe, continuaste a acenar-me, com os olhos de menino terrível e com o sorriso triunfante dos fedelhos insuportáveis.

e eu? Laura do teatro há quase trintas
deixei-te ir.
às vezes as despedidas são voltas revigoradas.
às vezes as costas são a frente das coisas verdadeiras.
andas a rondar-me há dias.
hoje pousaste-me na mão.
vinhas cabisbaixo, com ar de caso, de olhos pequenos de medo e escuros de embaraço.
não me disseste grande coisa.
eu nada te disse.
pousaste-me na mão. e a minha mão começou a escrever.
depois aninhaste-te no colo do meu peito e adormeceste, com olhos de mim.
e eu verti para o papel as palavras que encontrei nas tuas asas.

(amanhã vens comigo à Feira que te lixas.
e tão cedo não sais do meu encalço.
e amanhã és tu quem arruma a cozinha.)

04/01/18

O Coração É um Caçador Solitário


custou-me despedir deste livro. especialmente do Senhor Singer, um mudo branco, gentil e tolerante (melhor dizendo, uma personagem incomparavelmente bela).
custou-me despedir de tudo. do calor, do luar, do lugar sem nome, da luta dos negros, da pobreza, da grandiosidade dos ideias, das ambições esquecidas
 e da música que morava no peito e na cabeça de Mick.

agora entendo, porque é que este livro é considerado como um dos grandes do século XX.


Informação retirada de https://www.wook.pt/livro/o-coracao-e-um-cacador-solitario-carson-mccullers/5102119:

Sinopse
No Sul profundo dos Estados Unidos, em plena década da Grande Depressão, num cenário desolado, de pobreza, intolerância e isolamento, John Singer, um mudo, torna-se de súbito confidente de um grupo de personagens desenquadradas da sociedade. Todos procuram à sua maneira preencher o vazio deixado pelos sonhos perdidos - e todos, por algum motivo, acham que Singer os compreende. Mas Singer, impassível na sua mudez, não tenta alcançar nada senão a atenção de um amigo que não manifesta mais que indiferença… Uma obra expressiva e poderosa que permanece actual na sua projecção de uma realidade intrínseca à condição humana.

Críticas de imprensa
«Um livro notável… A escrita de McCullers é apaixonante.»
The New York Times

«McCullers escreve com serenidade e realismo, com uma intuição e tolerância profundas sobre a psique humana.»
Boston Globe

Autor: 
Carson McCullers nasceu na Georgia em 1917 e começou a escrever desde muito cedo. Com apenas 23 anos publicou O Coração É Um Caçador Solitário (1940), um livro muito bem recebido pelo público e pela crítica, que foi adaptado ao cinema e ao teatro e recentemente eleito um dos 100 melhores romances do século XX. No ano seguinte, saiu Reflexos Num Olho Dourado, que viria a ser imortalizado pelo filme com o mesmo título, realizado por John Huston e protagonizado por Marlon Brando e Elizabeth Taylor. Ambos os romances encontram-se publicados pela Presença nesta coleção. A extensa bibliografia da autora inclui ainda outros títulos que ficaram célebres, como The Member of the Wedding (1946) e A Balada do Café Triste (1951).
Carson McCullers morreu em Nova Iorque em 1967.


02/01/18

2018


não fiz planos, não comi 12 passas, não abracei 20 e muitos.
ma desejei com muita força que 2018 floresça em várias coisas e de várias formas
e me continue a trazer por cá.
(e a vocês também).

Arquivo