19/09/19

as minhas viagens - estação do oriente

Uma rapariga com unhas de noiva: rosa muito rosa-pálido-noiva.
Uma blusa numa mulher madura a ondular ao vento.
Um casal jovem de namoro jovem a apertar-se num abraço antigo.
Uma rapariga de pés para dentro a escrever com os polegares.
Uma rapariga com ar de rapaz com cabelo de duas cores, mochila às costas e sandálias com muitos quilómetros.
Um homem gordicho de buço suado e bigode espalhafatoso.
Um grupo de espanhóis de meia idade com t shirt de Portugal a tirar selfies “agora tudo a rir depois tudo de braço no ar depois tudo a tossir”.
Uma mulher angulosa, recta, magra e minimal, de ombros imponentes e carteira Prada.
Várias senhoras chinesas de máscara e pés para dentro e gémeos salientes.
Um casal com ar de “nunca mais vais já devias era ter ido”.
E eu. A olhar para eles.
Entretanto chega o comboio. “Vou ter sossego e quem sabe até dormir”.
Entro na carruagem conforto, procuro o meu lugar já com um olho meio fechado e um sorriso meio de lado, de satisfação.
Quando chego ao lugar deve parecer que tive um ataque de caspa.
Lugar com mesa ao centro. E nos 3 lugares que me esperam uma família de japoneses. Ela de olhos tortos e sorriso cheio de dentes. Ele cara redonda mais redonda que uma bola, não se cala, não se cala e uma criança japonesa que quando me vê grita.
Quase grito também.
Estou a escrever isto sentada no meu lugar e ainda não se calaram. Não vão calar.
Vão a falar e a gritar até Coimbra B e depois Aveiro e depois Porto.
Mas também se não estivessem aqui eu não estaria a escrever sobre eles.
Assim seja.

13/09/19

considerandos de sexta


não tenho nada contra os franceses,
mas gosto incomensuravelmente mais de pescadinhas com rabo na boca e selada russa.

05/09/19

à beirinha da língua, num vai e vem irritante


Passei o dia com uma palavrinha à beira, beirinha da língua.
A querer saltar e transformar-se em som, palavra, frase.
Não saltou, não se transformou. Foi e veio e riu-se de mim porque várias vezes a quis agarrar.
Seduzi-a, em tentativas, com piscadelas, perfume, até um dança maluca, em frente ao espelho.
Nada. Não quis nada comigo.
Não hoje.
Pode ser que amanhã volte transmutada em conto, ideia ou prólogo de romance.
Hoje, não lhe ligo mais.

03/09/19

a minha borracha


Agarro-me assim às coisas, e depois?
Tenho manias. Uma caneta específica para escrever na agenda pessoal. Um lápis específico para apontar as séries. Uma caneta específica de cor específica para apontar coisas que especificamente vou colecionando.
E depois tenho esta borracha. Há anos.
Começou linda, branquinha e retilínea. Já apagou milhares de coisas. De contas a romances, de segredos a desapontamentos, de combinações a disparates profícuos.
É pequenina e rombuda. Ainda se lê o “g” do “rotring”.
Tem marcas escuras como têm marcas as minhas mãos. Eu digo que são da idade.
Acompanha-me todos os dias. No trabalho, no teatro, na saúde, na doença.
Podia ser a minha-borracha-marido.
Ai de mim se a perco.
Quando ficar pequena, mas tão pequena que já não lhe consiga pegar para apagar nem que seja em pensamento, colocá-la-ei junto dos meus apetrechos da escrita reformados e pequeninos, inaptos para me acompanhar nestas lides, mas por quem nutro um amor capaz de me fazer escrever poesia dois dias inteirinhos, sem comer.

02/09/19

política


quanto mais leio sobre a nossa política
e sobre as pessoas que escrevem sobre a nossa política
e sobre a nossa política que é mesma política
desde que me lembro da politica,

mais gosto de coxinhas de frango assadas no forno com arroz seco.

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