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22/02/16

Tokio 1965 Photo | Henri Cartier-Bresson


29/07/08

4


“Estás louco ou quê? como é que me vais desmaiar logo naquele sítio? estragaste-me a noite!”
Foram estas as últimas palavras de Gertrude, que despejou Manfred em casa, logo depois de ele ter desmaiado. O desgraçado ficou-se a vomitar até de manhã, nem palavras conseguiu dizer, nem conseguiu deitar de comer aos gatos, o Óscar e a Pandora, nada, raça de nada…
Acordou no dia seguinte com uma luz fortíssima que lhe entrava pela janela e lhe furava os olhos e pensou se não estaria no céu ou noutro lugar qualquer, isto é, pensou que tinha morrido.
Mas não, porque no céu não há gatos e um Óscar faminto miava desesperadamente, em cima dele. Manfred soergueu o corpo e pensou ter um melão no sítio da cabeça pois ela pesava-lhe como tal e sentiu uma náusea tão grande que logo se deitou.
Um arranque seu, que mais parecia um rugido, projectou Óscar, de pêlo eriçado, para bem longe e como não tinha nada para vomitar no estômago pois não o fez, mas continuava aos arranques e o animal continuava a saltar e a bufar de cada vez que ele estremecia.
“Preciso de beber…”pensou e olhou à sua volta.
“Inteligente Manfred” disse com um esgar, ao ver a cama tão longe de tudo, resultado de uma decisão idiota, mais uma decisão idiota. Porque fora ele colocar a cama debaixo da janela, longe da casa de banho, longa da cozinha, que ficavam no outro extremo da sala. “Idiota, acéfalo, bruto, quadrúpede, animal do presépio, camelo…”. Enquanto desfiava todos os nomes conhecidos, olhou para a sala à espera de ter alguma ideia brilhante mas Manfred nunca tinha ideias brilhantes, só tinha ideias idiotas.
Até o telefone estava longe, até isso, e o comando da televisão e o estupor do rádio…
Óscar aproximava-se agora outra vez dele, a medo, Pandora vinha-lhe na peugada, os dois sobranceiros ao chão, caçadores, predadores….
“Anda cá, bichinho… se tu pelo menos me pudesses chegar um copo de água…”

02/07/08

Manfred caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.
Mas caiu cheio de estilo. Com os sapatos do falecido, gravata alegre, unhas arranjadas, o cabelo penteadinho e um fato de linho beije, com risca fininha castanha escura.
Caiu depois de ter bebido, de golada, a bebida que Gertrude lhe preparara.
Gertrude estava belíssima naquela noite, com um vestidinho curto de organza azul-bebé, o cabelo cheio de laca e aquele perfume dela que era feito pela avó cega, a Mdme. Marple e que, na opinião de Manfred, cheirava a um creme fresco e encorpado, que lhe punham no peito, em criança, para não tossir.
Gertrude fora buscá-lo de Mercedes-Benz 190 SL, uma pérola que lhe fora deixada, forçosamente, por um tio inglês que tinha ficado passado da cabeça e fora internado, numa casa de repouso, no Sul de França.
“Manfred, estás giro… “ tinha-lhe dito, com uma gargalhada teatral.
Rumaram à festa e entraram no jardim de braço dado.
Com a orquestra a tocar ao fundo do jardim, entre choupos verdes e archotes acesos.
Ela atravessou o pátio, bamboleante, distribuindo sorrisos aqui e acolá, piscadelas de olhos cheios de rímel.
Ele atravessou o pátio bestialmente nervoso, olhos postos no chão, não conhecia ninguém. Os sapatos do falecido, embora janotas, faziam um barulho assustador de modo que ele nem tinha percebido se as pessoas viravam as cabeças por causa do decote de Gertrude ou por causa dos sapatos dele.
“Queres um Martini?” ela perguntou-lhe, lânguida.
“Pode ser…” disse ele que só bebia Laranjina C e chá de camomila, para dormir bem.
Ela deixou-o para ir buscar as bebidas. À sua volta, mulheres sofisticadas e muitas, a beber, a reluzir, a dançar, a olhar nos olhos homens elegantes, a fumar cigarros finos e a desfilar fantásticos vestidos.
Bebeu o Martini de gole e dançou com Gertrude um bolero.
Viu-se depois nos braços de uma colega de trabalho de Gertrude, uma tal Allison, rapariga forte, mais alta do que ele, de lábios grossos e que parecia ter-lhe pegado, de repente, ao colo, para levá-lo a rodopiar pela pista.
Ao som de “Perfídia”, Manfred começou a sentir-se leve como um passarinho, os olhos pareciam sair-lhe das órbitas, de repente Allison estava com a boca escancarada e os lábios tão grossos que ele mal lhe via dos olhos, viu ainda os músicos da orquestra a rir imenso, com grandes dentes de rato e ele próprio começou a rir e sentiu-se no ar, a flutuar, nos braços fortes de Allison, que agora tinha umas asinhas de anjo…
A última imagem que teve da festa foi de si próprio, no meio daquelas mulheres todas, todas as mulheres da festa…em roupa interior…Depois caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.

23/06/08

Manfred não tinha muito jeito com as mulheres, na verdade não tinha mesmo jeito nenhum, e elas sabiam-no e sabiam ainda que bastava uma coisa pequena para o surpreender e quando isso acontecia ele ficava genuinamente emocionado e elas divertiam-se com isso e tinham até apostado entre elas quem seria capaz de o surpreender em menos tempo…

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