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11/09/15

das historinhas de amor e tal

há qualquer coisa de ridiculamente delicioso, nas historinhas de amor,
que me faz nunca deixar de as escrever. 

18/02/15

Gabriel, o menino Feliz.



Era uma vez, uma cidade cinzenta e sombria e triste. Tão triste que a luz do sol quase se envergonhava de entrar e fugia, para não chorar.
Nessa cidade vivia Gabriel. Gabriel era um menino alegre e muito curioso, que gostava muito de passear pela cidade em busca de novas aventuras.
Porém, ao passear pela cidade, acabava por ficar também triste, como todos os seus habitantes. Naquela cidade não havia sorrisos, olhos brilhantes. Não havia calor entre as pessoas. As pessoas eram frias, como o tempo e como as calçadas tristes.
Um dia, de regresso a casa, vindo da Escola, Gabriel encontrou um velhinho sentado num banco de jardim. Tinha um olhar triste e vazio e segurava nas mãos uma caixa velha, triste, forrada a um tecido que se via perfeitamente que já havia sido, também, alegre.
Gabriel dirigiu-se a ele.
- Boa tarde. – Exclamou, com um sorriso.
O velhinho olhou para ele, como se estivesse a ver o diabo.
- O que foi? – Gabriel atirou, meio assustado.
- Tu estás a sorrir - Murmurou o velho um fio de voz.
- Sim… - Disse Gabriel e voltou a sorrir.
O velho respirou fundo e fechou os olhos. Os seus lábios moveram-se em silêncio. Quando voltou a abrir os olhos, tinha-os marejados de água.
- Estás triste? – Disse Gabriel sentando-se ao seu lado. – Nesta cidade toda a gente é triste. Eu devo ser a única pessoa que ri. Ando por aí a distribuir sorrisos, mas ninguém me liga…
O velho pousou a mão de pergaminho na mão jovem de Gabriel.
- Andava à tua procura…
- Andavas à minha procura? – Gabriel cada vez percebia menos.
- Há muitos anos atrás…  - O velho começou, com uma voz mais segura. – Um mágico malvado, que andava experimentar feitiçarias, lançou um terrível feitiço sobre esta cidade…
- Que feitiço foi esse? – Exclamou Gabriel de olhos arregalados de curiosidade.
- O feitiço foi roubar todos os sorrisos aos habitantes desta cidade…mergulhá-la numa tristeza profunda. Homens, pássaros, flores, estátuas, casas, rios. Tudo seria, a partir dali, triste.
O rapaz pensou durante um instante.
- Realmente é verdade. Tudo é triste nesta cidade.
- Mas todos os feitiços podem ser quebrados…
- Podem? – Gabriel estava a adorar a história.
- E o feiticeiro – prosseguiu – Afirmou que só uma pessoa verdadeiramente boa, com muita vontade de ajudar o próximo e fazer o bem, seria capaz de devolver, à cidade, a alegria.
Os dois olharam-se durante um instante.
- Tu és essa pessoa – Disse o velho. – Por isso te disse há pouco, que andava à tua procura.
- Mas como sabes que sou eu essa pessoa que procuras? – Indagou Gabriel.
- Porque reconheci, no teu sorriso, todo o bem que tens dentro do teu coração. E sei que a tua missão, nesta vida, é espalhá-lo…
Gabriel fechou os olhos e sentiu no peito uma coisa esquisita.
O velho estendeu-lhe a caixa. Gabriel recebeu-a a medo. Porém, quando lhe tocou, o tecido ficou resplandecente e as cores mais vivas.
- Essa caixa – Afirmou o velha. – Contém os sorrisos e a alegria desta cidade. Estão aí aprisionados desde aquele maldito dia. Se a conseguires abrir, a alegria e o riso espalhar-se-ão por todos, como se fossem ar. E os sorrisos que deres aos outros passarão a ser retribuídos… O sol passará a brilhar e as flores terão, finalmente, cor. E a água dos rios avançará contente, em direção ao mar.
Gabriel olhou a caixa que tinha nas mãos. Quanta responsabilidade sentia, de repente. E, ao mesmo tempo, que tamanha alegria.
Sem pensar, pousou a caixa no banco de jardim. Destravou o pequeno fecho, rodou a pequenina chave na fechadura ainda mais pequena. Uma brisa suave cantarolou. Uma flor adormecida ergueu uma sobrancelha. Um pássaro pousou ali perto.
Com as mãozinhas pequenas, Gabriel abriu a caixa.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
O velho suspirou contente e os seus olhos riram, pela primeira vez, desde há muito tempo.
A palavra “triste” passou a fazer parte do passado daquela cidade.
E a “alegria” passou a escrever-se nas entrelinhas dos olhares, das árvores, das estrelas e dos corações.

29/07/08

4


“Estás louco ou quê? como é que me vais desmaiar logo naquele sítio? estragaste-me a noite!”
Foram estas as últimas palavras de Gertrude, que despejou Manfred em casa, logo depois de ele ter desmaiado. O desgraçado ficou-se a vomitar até de manhã, nem palavras conseguiu dizer, nem conseguiu deitar de comer aos gatos, o Óscar e a Pandora, nada, raça de nada…
Acordou no dia seguinte com uma luz fortíssima que lhe entrava pela janela e lhe furava os olhos e pensou se não estaria no céu ou noutro lugar qualquer, isto é, pensou que tinha morrido.
Mas não, porque no céu não há gatos e um Óscar faminto miava desesperadamente, em cima dele. Manfred soergueu o corpo e pensou ter um melão no sítio da cabeça pois ela pesava-lhe como tal e sentiu uma náusea tão grande que logo se deitou.
Um arranque seu, que mais parecia um rugido, projectou Óscar, de pêlo eriçado, para bem longe e como não tinha nada para vomitar no estômago pois não o fez, mas continuava aos arranques e o animal continuava a saltar e a bufar de cada vez que ele estremecia.
“Preciso de beber…”pensou e olhou à sua volta.
“Inteligente Manfred” disse com um esgar, ao ver a cama tão longe de tudo, resultado de uma decisão idiota, mais uma decisão idiota. Porque fora ele colocar a cama debaixo da janela, longe da casa de banho, longa da cozinha, que ficavam no outro extremo da sala. “Idiota, acéfalo, bruto, quadrúpede, animal do presépio, camelo…”. Enquanto desfiava todos os nomes conhecidos, olhou para a sala à espera de ter alguma ideia brilhante mas Manfred nunca tinha ideias brilhantes, só tinha ideias idiotas.
Até o telefone estava longe, até isso, e o comando da televisão e o estupor do rádio…
Óscar aproximava-se agora outra vez dele, a medo, Pandora vinha-lhe na peugada, os dois sobranceiros ao chão, caçadores, predadores….
“Anda cá, bichinho… se tu pelo menos me pudesses chegar um copo de água…”

02/07/08

Manfred caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.
Mas caiu cheio de estilo. Com os sapatos do falecido, gravata alegre, unhas arranjadas, o cabelo penteadinho e um fato de linho beije, com risca fininha castanha escura.
Caiu depois de ter bebido, de golada, a bebida que Gertrude lhe preparara.
Gertrude estava belíssima naquela noite, com um vestidinho curto de organza azul-bebé, o cabelo cheio de laca e aquele perfume dela que era feito pela avó cega, a Mdme. Marple e que, na opinião de Manfred, cheirava a um creme fresco e encorpado, que lhe punham no peito, em criança, para não tossir.
Gertrude fora buscá-lo de Mercedes-Benz 190 SL, uma pérola que lhe fora deixada, forçosamente, por um tio inglês que tinha ficado passado da cabeça e fora internado, numa casa de repouso, no Sul de França.
“Manfred, estás giro… “ tinha-lhe dito, com uma gargalhada teatral.
Rumaram à festa e entraram no jardim de braço dado.
Com a orquestra a tocar ao fundo do jardim, entre choupos verdes e archotes acesos.
Ela atravessou o pátio, bamboleante, distribuindo sorrisos aqui e acolá, piscadelas de olhos cheios de rímel.
Ele atravessou o pátio bestialmente nervoso, olhos postos no chão, não conhecia ninguém. Os sapatos do falecido, embora janotas, faziam um barulho assustador de modo que ele nem tinha percebido se as pessoas viravam as cabeças por causa do decote de Gertrude ou por causa dos sapatos dele.
“Queres um Martini?” ela perguntou-lhe, lânguida.
“Pode ser…” disse ele que só bebia Laranjina C e chá de camomila, para dormir bem.
Ela deixou-o para ir buscar as bebidas. À sua volta, mulheres sofisticadas e muitas, a beber, a reluzir, a dançar, a olhar nos olhos homens elegantes, a fumar cigarros finos e a desfilar fantásticos vestidos.
Bebeu o Martini de gole e dançou com Gertrude um bolero.
Viu-se depois nos braços de uma colega de trabalho de Gertrude, uma tal Allison, rapariga forte, mais alta do que ele, de lábios grossos e que parecia ter-lhe pegado, de repente, ao colo, para levá-lo a rodopiar pela pista.
Ao som de “Perfídia”, Manfred começou a sentir-se leve como um passarinho, os olhos pareciam sair-lhe das órbitas, de repente Allison estava com a boca escancarada e os lábios tão grossos que ele mal lhe via dos olhos, viu ainda os músicos da orquestra a rir imenso, com grandes dentes de rato e ele próprio começou a rir e sentiu-se no ar, a flutuar, nos braços fortes de Allison, que agora tinha umas asinhas de anjo…
A última imagem que teve da festa foi de si próprio, no meio daquelas mulheres todas, todas as mulheres da festa…em roupa interior…Depois caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.

23/06/08

Manfred não tinha muito jeito com as mulheres, na verdade não tinha mesmo jeito nenhum, e elas sabiam-no e sabiam ainda que bastava uma coisa pequena para o surpreender e quando isso acontecia ele ficava genuinamente emocionado e elas divertiam-se com isso e tinham até apostado entre elas quem seria capaz de o surpreender em menos tempo…

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