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18/02/15

Gabriel, o menino Feliz.



Era uma vez, uma cidade cinzenta e sombria e triste. Tão triste que a luz do sol quase se envergonhava de entrar e fugia, para não chorar.
Nessa cidade vivia Gabriel. Gabriel era um menino alegre e muito curioso, que gostava muito de passear pela cidade em busca de novas aventuras.
Porém, ao passear pela cidade, acabava por ficar também triste, como todos os seus habitantes. Naquela cidade não havia sorrisos, olhos brilhantes. Não havia calor entre as pessoas. As pessoas eram frias, como o tempo e como as calçadas tristes.
Um dia, de regresso a casa, vindo da Escola, Gabriel encontrou um velhinho sentado num banco de jardim. Tinha um olhar triste e vazio e segurava nas mãos uma caixa velha, triste, forrada a um tecido que se via perfeitamente que já havia sido, também, alegre.
Gabriel dirigiu-se a ele.
- Boa tarde. – Exclamou, com um sorriso.
O velhinho olhou para ele, como se estivesse a ver o diabo.
- O que foi? – Gabriel atirou, meio assustado.
- Tu estás a sorrir - Murmurou o velho um fio de voz.
- Sim… - Disse Gabriel e voltou a sorrir.
O velho respirou fundo e fechou os olhos. Os seus lábios moveram-se em silêncio. Quando voltou a abrir os olhos, tinha-os marejados de água.
- Estás triste? – Disse Gabriel sentando-se ao seu lado. – Nesta cidade toda a gente é triste. Eu devo ser a única pessoa que ri. Ando por aí a distribuir sorrisos, mas ninguém me liga…
O velho pousou a mão de pergaminho na mão jovem de Gabriel.
- Andava à tua procura…
- Andavas à minha procura? – Gabriel cada vez percebia menos.
- Há muitos anos atrás…  - O velho começou, com uma voz mais segura. – Um mágico malvado, que andava experimentar feitiçarias, lançou um terrível feitiço sobre esta cidade…
- Que feitiço foi esse? – Exclamou Gabriel de olhos arregalados de curiosidade.
- O feitiço foi roubar todos os sorrisos aos habitantes desta cidade…mergulhá-la numa tristeza profunda. Homens, pássaros, flores, estátuas, casas, rios. Tudo seria, a partir dali, triste.
O rapaz pensou durante um instante.
- Realmente é verdade. Tudo é triste nesta cidade.
- Mas todos os feitiços podem ser quebrados…
- Podem? – Gabriel estava a adorar a história.
- E o feiticeiro – prosseguiu – Afirmou que só uma pessoa verdadeiramente boa, com muita vontade de ajudar o próximo e fazer o bem, seria capaz de devolver, à cidade, a alegria.
Os dois olharam-se durante um instante.
- Tu és essa pessoa – Disse o velho. – Por isso te disse há pouco, que andava à tua procura.
- Mas como sabes que sou eu essa pessoa que procuras? – Indagou Gabriel.
- Porque reconheci, no teu sorriso, todo o bem que tens dentro do teu coração. E sei que a tua missão, nesta vida, é espalhá-lo…
Gabriel fechou os olhos e sentiu no peito uma coisa esquisita.
O velho estendeu-lhe a caixa. Gabriel recebeu-a a medo. Porém, quando lhe tocou, o tecido ficou resplandecente e as cores mais vivas.
- Essa caixa – Afirmou o velha. – Contém os sorrisos e a alegria desta cidade. Estão aí aprisionados desde aquele maldito dia. Se a conseguires abrir, a alegria e o riso espalhar-se-ão por todos, como se fossem ar. E os sorrisos que deres aos outros passarão a ser retribuídos… O sol passará a brilhar e as flores terão, finalmente, cor. E a água dos rios avançará contente, em direção ao mar.
Gabriel olhou a caixa que tinha nas mãos. Quanta responsabilidade sentia, de repente. E, ao mesmo tempo, que tamanha alegria.
Sem pensar, pousou a caixa no banco de jardim. Destravou o pequeno fecho, rodou a pequenina chave na fechadura ainda mais pequena. Uma brisa suave cantarolou. Uma flor adormecida ergueu uma sobrancelha. Um pássaro pousou ali perto.
Com as mãozinhas pequenas, Gabriel abriu a caixa.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
O velho suspirou contente e os seus olhos riram, pela primeira vez, desde há muito tempo.
A palavra “triste” passou a fazer parte do passado daquela cidade.
E a “alegria” passou a escrever-se nas entrelinhas dos olhares, das árvores, das estrelas e dos corações.

04/01/13

os 3

Os três


Iam de férias os 3.
Trabalhavam os 3 a 30 metros uns dos outros.
Dormiam os 3 na mesma cama.
Comiam, os 3, as mesmas refeições.
Liam, lavavam os dentes, varriam o pátio e passeavam o cão.
Bordavam, folheavam revistas com displicência, adormeciam no sofá e tinham ataques de fúria, numa tríade perfeita, como a conjugação de um verbo numa só voz.
As suas três vozes eram uma toada só.
As opiniões uma única voz firme. As atitudes um espelho enorme.
Chamavam-lhes os 3 Mosqueteiros, os 3 Porquinhos. Cocó, Ranheta e Facada. Pai, Filho e Espirito Santo.
Gostavam os 3 do mesmo tipo de massa. Dos mesmos sapatos. Da mesma luz para as fotografias.
Da mesma praia. Do mesmo escritor.
Corriam às mesmas estreias. Incomodavam-se com os mesmos insetos.
Espirravam a mesma vogal. Gostavam dos mesmos preliminares.
Suavam dos mesmos poros. Tinham um sinal preto no mesmo sítio.
Um dia um deles apaixonou-se por uma pessoa que nenhum dos outros conhecia.
Essa pessoa que nenhum dos outros conhecia era uma pessoa que não era boa rês.
Como todas as pessoas que não são boa rês começou a fazer coisas pouco bonitas e pouco próprias.
E ele deixou-se levar por palavras bonitas e risos mansos; jantares gourmet e olhos profundos.
E os outros ficaram a vê-lo ir-se aos poucos: rompendo laços, abandonando hábitos e descurando cumplicidades.
Desfez-se a exemplar trindade em 3 tempos.
Desfez-se, sem dó nem piedade. E nunca mais ninguém viu aquelas 3 almas juntas, unânimes e cordatas.
E alguns houve que se espantaram e choraram e até lhes escreveram.
Porque aqueles 3 serviam de inspiração para alguns, de exemplo para outros.
Mas como tudo na vida passa, esta triste história de 3 também passou.

18/01/12

a história do homem que não queria ser só

Conheci-o já nos cinquenta. Parecia ter mais. Teve uma vida difícil, dizia.
Fazia teatro por puro convívio e para enganar o tempo.
Um dia conheceu uma mulher. “A sócia”, como lhe chamava.
A socia enredou-o bem. Com falinhas mansas, cozinhados, companhia. Aqueceu-lhe os pés de noite, deu-lhe afagos e talvez sexo sem dores de cabeça.
Ele vivia na casa dele. A sócia vivia na casa dela.
Assim andaram durante uns tempos. Ele ainda fazia teatro. Porque vivia na casa dele.
Um dia foi morar com a sócia. E deixou de fazer teatro.
A sócia não gostava de teatro. E ele gostava de ter os pés quentes e o jantar quente à mesa.
Encontro-o, de vez em quando, no supermercado. A fazer compras para a sócia.
Já deve ter cinquenta e muitos.
Mas agora, parece ter muitos mais.

13/01/12

mythic oil


Gostava de a apreciar enquanto ela se despia da maquilhagem.
Fazia-o já na cama, e dela só o perfil do corpo metido num pijama fresco e com flores orientais.
Seria do morno da cama, do conforto dos lençóis, do cheiro do amor…
seria do cheiro dos creme desmaquilhante e depois do balsamo e depois do creme da noite
e por fim o óleo do cabelo. Seria uma junção disto tudo.
A junção perfeita que antecedia o momento perfeito – apertá-la nos braços antes de adormecer.
Recebia-a com a boca urgente e o corpo a pedir o corpo dela.
Recebia a boca dela a saber a pasta dos dentes.
E recebia-a a ela, magra, pequena, faladora, alegre, com milhares de cheiros intensos
e olhos brilhantes.
Recebia-a como se fosse a melhor prenda que alguma vez tivesse tido.
Apertava-a dos braços, chegava-a a si, mergulhava o nariz na sua pele e adormecia.
E havia dias em que era feliz.

22/12/11

my funny valentine


phot. by Pedro Tudela at  http://instagrid.me/pedrotudela/


Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Ele assemelhava esses dois estados aos estados da esperança que lhe residia no peito.
Havia dias em que a esperança corria como a bebida.
E ele, engalanado, sentava-se na mesa junto ao contrabaixista porque era a mesa que tinha a melhor vista da entrada.
E ele queria vê-la entrar uma vez mais, nem que fosse a ultima vez.
Quando ela entrava alguma coisa saía dele e de todas as outras pessoas; era como se a presença dela arrancasse de todos – animais, humanos, plantas e coisas inanimadas – tudo o que eles tinham de melhor: cor, alma, memórias, brilho, história.
Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Nos dias em que lhe faltava a esperança secava a garganta e os olhos numa mesa do meio do bar, de costas voltadas para a entrada. O piano corria triste, ao longe e ele, aturdido com a saudade e a angústia, sentia o coração a amarfanhar-se.
Andava assim. De mesa em mesa. De bebida em bebida. O coração a dilatar e a encolher.
Até que um dia chegou à última mesa.
E, engalanado, bebeu o último copo, tamborilou na mesa e pela última vez o choro contido do “My funny Valentine”, pagou a ultima conta, deu o ultimo suspiro por ela e saiu para a rua como se fosse a primeira vez, desde há muito tempo.

30/09/11

o rapaz dos olhos com vida própria

Os olhos dele eram de certo apreciados. Pela cor.

Mas os olhos dele eram apreciados também pelo facto de terem uma vida própria, os olhos dele.
Os olhos dele abraçavam, riam, contavam histórias de viagens e falavam baixo. Como ele.
Os olhos dele eram campo, trigo, feno, areia e verão.
Ele não falava muito. Mas os olhos dele tinham todas as palavras do universo.

31/08/10

o coleccionador de selos

Passara a vida a coleccionar selos.
A observá-los, depurada e atentamente, com uma atenção que aos olhos dos outros parecia desmesurada.
Dispensara as amenas cavaqueiras com os amigos, ao sol, e as tertúlias de cerveja com sueca; as tardes ociosas de Domingo, em que se encostavam às paredes quentes do café, para ver passar as raparigas com flores na cabeça e os seus andares de Verão.
Deu pouca atenção à 1ª comunhão do neto e ao dia de formatura do filho mais velho. Esquecera aniversários de casamento, entregas de IRS e compras de supermercado.
A Internet passara-lhe à margem e nunca ouviu, sequer, falar do Sudoku.
Mas quando, no leito de morte, alguém perguntou se tinha sido feliz, ele apertou com as ultimas forças, o seu primeiro álbum de selos, a cheirar a antigo, e os olhos brilharam como duas estrelas.
E a Maria do Carmo, que estivera ao seu lado a vida inteira e entendia aquele seu amor pelos selos e acreditava, hoje, que ele era quase tão grande como o amor que tinha por ela e pelos filhos, respondeu, numa voz calma e resignada.
- Nunca deixou de fazer o que lhe proporcionava felicidade e bem-estar. Talvez por isso tenha sido feliz e nos tenha feito a nós, também, felizes.
Deu-lhe um beijo na testa enrugada, colocou a sua mão sobre a mão dele e sobre o álbum dos selos e deixou-o partir em paz, como tantas vezes o deixara, abandonado, à luz ténue do candeeiro sobre a mesinha onde, feliz como uma criança se dedicava à tarefa minuciosa de se apaixonar por cada um daqueles minúsculos pedaços de papel.

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