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13/04/15

quatro

Faziam quase tudo juntas.
Embrulhos. Bolos de arroz. Saiotes e cortinas para os quartos.
Riam alternadamente e caminhavam em contratempo.
Discutiam em coro e liam por turnos.
Ensaiavam piano a quatro mãos e dormiam todas para o lado direito.
Os coração batiam afinadinhos e pulsavam com a mesma poesia e os mesmos filmes.
Até os dedos se enrodilhavam na mesma irritação quando viam aranhas.
Faziam quase tudo juntas.
Até quando não tinham nada para fazer.

06/05/14

ai era uma mulher feliz

a mulher desajeitada escrevia de noite
porque não tinha tempo de escrever de dia.
a mulher de olhos tristes vertia no papel desgraças arranjadinhas
emolduradas em parágrafos interessantes.
a mulher escrevia até de madrugada
até o próprio silêncio se cansar
e ir dormir.
a mulher escrevia quilómetros de palavras
salpicadas com trejeitos e pontuação.
a mulher escrevia porque não sabia fazer mais nada tão bem.
e, na quietude da casa desajeitada, da noite triste
e dos parágrafos arranjadinhos
bem à sua maneira
a mulher era, ai era,

era uma mulher feliz.

12/09/13

o beijo com sabor a mirtilo

"Ela não se surpreendeu quando ele a beijou, e os lábios dele tinham o sabor a mirtilos".

por Piedade Araújo Sol

Ela deu o mote, e eu continuei....

"Ou então seria ela que gostava tanto de mirtilos e havia desejado tanto os lábios dele.
Quando os lábios dele chegaram ela já não os esperava. O verão havia feito a sua despedida tímida.
A normalidade instalara-se na sua vida demasiado normal. E tudo avançava acanhadamente: o tempo, ela e a vida.
Ele chegou numa manhã de domingo.
De um domingo particularmente sombrio. A campainha soou numa só toada. E ela estremecer. Ela estremecia poucas vezes. Era uma mulher segura. Mas sim, o seu corpo parou. E os sinais de alarme, internos, que ela tão bem reconhecia, apareceram, jocosos e repentinos, atirando-a para um estado de alerta e perturbações iminente.
Abriu a porta com um vagar propositado. As palavras aos tropeções no coração, o coração embrulhado na barriga, o sangue doido a correr nas autoestradas das veias.
Ele estava lá, atrás da porta. E ela estava lá, diante dele. Os olhos dele conversaram muito tempo. As palavras formaram uma fila ordeira. O sangue sossegou.
Ele não disse nada. Ele não era de dizer muita coisa. Avançou um passo, enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo.
Um beijo com sabor a mirtilos.
Um beijo atrasado,
Mas um beijo que ela esperou a vida inteira."

Obrigada pelo desafio, Piedade.

06/09/13

a mulher especial

tinha seios de primavera, cabelos de verão
hálito morno de sabor a terra;
andava com a delicadeza de uma aragem
e falava muito com as mãos
(como se as mãos dela fossem trigo a namorar com o vento);
tinham, os olhos dela, o brilho da água a pratear a água;
e a voz fazia lembrar, ora uma aurora, ora um poente.
talvez por estas coisas todas
- esta multiplicidade de coisas singulares e universais -
ela era de alguns (poucos)
era muito de si própria
e
ao mesmo tempo
não era
(porque não podia)
ser de ninguém.


15/07/13

ela

ela era assim desde menina. gostava de batons. de saltos altos.
punha toalhas de banho a fingir de cabelo comprido.
cantava as músicas da Elis a fingir que era a Elis.
andava aos saltinhos e fingia soluços maneirinhos.
ria a tapar a boquinha, suspirava de ansiedade fingida.
punha a perninha de lado e quando se sentava juntava os pezinhos.
dizia muita coisa terminada em "inhos" e "inhas".
ela era assim desde menina.
e mesmo quando se tornou mulher continuou a ser sempre assim.
porque ela era assim.

08/03/13

as minhas mulheres


se eu pudesse, ai se eu pudesse

tornava menos difícil a vida de certas mulheres que conheço.
dava-lhes mimo, conforto e resolvia-lhe problemas bicudos
pagava-lhes as contas do Pingo Doce e do dentista dos filhos
fazia com elas madeixas no cabeleireiro durante horas
e ginástica para tonificar os músculos
comprava-lhes uma prendinha de vez em quando
principalmente naqueles dias em que as mulheres choram e ninguém sabe porquê.
tirava-lhes os pelos das pernas sem dor
areava-lhes os tachos
via com elas séries e filmes lamechas e chorávamos em sintonia
ria com elas até ficar sem ar
ouvia pieguices e queixas, sem abrir a boca
e com os olhos só com os olhos
levava-as pelos caminhos lógicos do raciocínio
ou pelas estradas conturbadas do coração
ou então
ouvia-as, tão somente.
(às vezes é só disso que elas precisam.)
se eu pudesse, ai se eu pudesse
tornava mais aprazíveis os dias de Inverno solitários de certas mulheres que conheço.
ensinava-as a rezar e a gostar de ver revistas
a fazer um bolo pequeno para dar para muitos dias
a fazer malha ou Arraiolos, no Inverno,
a tomar um banho de imersão à luz das velas, com uma taça de vinho
a ver um filme, sozinhas
a revisitar a solidão com memórias
e a falar com os objetos de casa.
ensinava-as a gostarem das suas casas, mais do que qualquer outra coisa.
se eu pudesse, ai se eu pudesse
aliviava, de certos papeis, muitas mulheres que eu conheço
que têm na vida, muitos papeis.
falava com os filhos adolescentes, a linguagem deles, para depois falar a sério com eles,
a linguagem de mãe.
aprendia com as mães dessas mulheres, a linguagem das pequenas coisas
para a ensinar depois às suas filhas.
velava as viagens dos seus filhos, de carro, à noite para que elas pudessem dormir
esfumava nas suas vidas os episódios menos bons
ensinava-lhes as cores da aurora, da primavera
apresentava-lhes o deus das pequenas coisas
pintava a morte de branco
e a saudade transformava-a num hábito bom
ensinava-as a escrever num caderninho de cabeceira
as coisas boas da vida, para nunca se esquecerem delas.
se eu pudesse, ai se eu pudesse
e com olhos brilhantes, que pudesse clonar,
para estar ao mesmo tempo e sempre,
com essas tantas mulheres
que são as mulheres da minha vida.
(elas sabem quem são).

10/01/13

a mulher de olhos azul-triste

A mulher senta-se à minha frente no autocarro. Tem olhos de cor azul-triste, cabelo marcado pela travesseira, casaco de malha que cheira a refogado e carteira de plástico a imitar uma Louis Vuitton.

Imediatamente a seguir senta-se outra senhora (ao meu lado e de frente para a mulher de olhos tristes). Diz-lhe com uma voz sentida:
- Atão, há muito que não te via.
A mulher de olhos tristes responde com voz ainda mais triste:
- Atão tu? Também não te via há muito.
- Cá ando. E tu? Como estás?
- Fui-me outra vez abaixo.

Nessa altura várias cabeças no autocarro se voltaram para ver quem é a mulher que se foi outra vez abaixo. Eu própria me arrisco a lançar-lhe outro olhar.
- Não me digas… - diz a outra.
- Foi tudo junto. O Natal, o marido desempregado, filho desempregado. Tenho de ser eu a por o comer na mesa.
- Pois é, os homens num têm noção das coisas, a bem dizer.
- Pois é.
- E está tudo pela hora da morte, cum caraças. Tudo aumenta.
- O passe atão é que aumentou, aldra.
Passa-se mais um bocado. Continuam a falar de desgraças. Passam dos passes de autocarro para a luz. Depois para os tempos de antigamente em que se vivia à grande e à francesa.
Às tantas a mulher que se sentou ao meu lado diz para a mulher de olhos tristes:
- Olha lá, o que é que tu tens aí na boca? – E di-lo num tom de voz que já não é sentido, e sim em tom de alarme, parecendo uma corneta que acorda a infantaria.
Nessa altura várias outras tantas cabeças no autocarro se voltam para ver quem é a mulher que tem alguma coisa na boca. Eu não olho para a mulher triste. Olho para a mulher que lhe fez a pergunta naqueles modos.
- Ando a arranjar a boca…
- Pois nota-se, mas o mecânico fez aí uma porcaria de um trabalho. Deixou-te isso tudo torto.
- Estes dentes aqui que estão mais altos?...
- Esses dentes, saem-te pela boca fora… devias mas é tê-los tirado.
- São eles que estão a segurar a placa. Tenho que deixar que eles caiam por si…
- Pois mas é esquisito… até estás a falar a arrastar a língua e tudo…
- Isto daqui a uns tempos já está composto…
- Mas o mecânico não fez aí um bom trabalho, não.
A mulher triste encolhe tristemente os ombros. Felizmente levanta-se, quase de seguida, para sair.
- Tudo de bom. – Exclama.
A outra dá-lhe uma palmadinha nas costas.
- Tudo de bom. As tuas melhoras.

Ficamos sozinhas no autocarro. Eu e a mulher que está sentada ao meu lado.
- Ai meu Deus. – Suspira com ruido. Este “ai meu Deus” é para mim. Deve funcionar para muita gente como início de conversa.
- Que vida esta. – Continua. Desta vez olha para mim.
Noutras situações eu responderia e era bem capaz de ir a conversar com ela até ao meu destino. Mas estou irritada. Fico zangada com aquela conversa da treta que transformou, a mulher triste, no centro das atenções.
Tenho vontade de me virar para ela, a mulher que está ao meu lado, e dizer-lhe:
- Minha senhora, meta-se na sua boca e deixe a boca dos outros em paz…

28/11/12

a mulher do porta-moedas de mortos

Tem um porta-moedas gordo, com papéis acumulados, de anos.

No porta-moedas gordo guarda fotografias tipo passe, dos que já se foram. Sempre que abre o porta-moedas tem que os beijar. Ao todo são 10. O marido, a cunhada mais nova, os pais, os sogros, a irmã mais velha, a vizinha que era quase como se fosse da família, o cão que viveu 12 anos, e a empregada da família que veio de casa da avó.
Aquilo dá-lhe uma trabalheira descomunal, porque às vezes está na fila de supermercado a meter as compras nos sacos e depois tem de pagar e depois tem que beijar os 10 retratos, ali à frente da menina da caixa. No metro também não dá muito jeito. Na feira, aos sábados de manha, menos jeito dá.
Neste momento tem mais mortos do que vivos, para beijar.
Já pensou em tirá-los a todos do porta-moedas. Os mortos.
Um dia fez isso mas sentiu-se tão culpada que nessa noite sonhou que todos eles lhe tinham vindo puxar os pés de noite, com sorrisos de filme de terror e cheiro a podre.
Voltou a metê-los todos no porta-moedas, ordenados por data de morte.
muitas vezes a quem deixará o porta-moedas, quando ela morrer.
Gostaria de fazer parte daquela galeria de ilustres falecidos, que, em carreirinha, exibem sorrisos vivos.
Gostaria que alguém beijasse a sua fotografia, nem que fosse maquinalmente, como ela faz.
Ou com medo que os mortos lhe puxem os pés, de noite.



07/11/12

a escritora gourmet

escrevia histórias
e temperava-as com pitadinhas de virgulas, adjetivos, metáforas e comparações.
deixava ferver em lume brandinho mexendo de vez em quando
levantando o testo e absorvendo frases e didascálias.
ia regando conforme a prosa pedia
e conforme a poesia chorava.
depois servia em louça antiga de porcelana frágil
(louça inglesa ou francesa)
daquela que fica bem servida
...com Gershwin ou Jarrett
e com duas quintas.
e com essas palavrinhas por si cozinhadas
a escritora gourmet
deliciava convivas, família, público e deuses. 

05/11/12

alice...somente


Para quem ainda não sabe,
Sou Alice – Alice… somente.
E posso ser uma só
E posso ser muita gente.

Posso ser o que quiser
Do tamanho que entender
Posso ficar ainda maior
E posso até nem crescer.

Quem me fez foi um desenho
E um sonho que tive em pequena
Que a Lua soprou ao papel
E que escreveu c’uma pena.

Sou Alice maravilhas
Sou Alice fura bolos
Sou terra, sou fogo, sou luz
E sou chuva molha-tolos.

Às vezes sou fala-barato
Às vezes não digo nada
Sou gato, galinha, gaivota,
Sou fábula, fama e fada.

Sou forma, textura, verbo
Sou estrofe de canção
Sou pintura inacabada
Sou trapo, sou pé e sou mão.

Sou fantoche e sou princesa
Sou pássaro e camaleão
Sou duende e sou Pinóquio
Sou cadeira e sou foguetão.

Se quiser fico zangada
Franzo o sobrolho e grito
Ou então fico parada
Com um ar muito aflito.

Também sei ficar azul
Serena, com ar descansado
Com olhos de cor de lua
E o corpo bem relaxado.

Sou vírgula de cabelo
E também de pontuação
Sou monólogo e sou comédia,
Sou farsa e até refrão.

Sou eu, sou nós todos, sou ela,
Sou eles, sou outra, sou tu,
Sou gente, sou bicho, sou erva
Sou riso, sou choro, sou… “xuuu” (fazer sinal de pouco barulho)

Sou Alice, tão somente
Menina com olhos de lua
Sou miúda e sou grande
E a minha história é a tua

18/07/12

a mulher que se benze quando ouve um sino

Sempre que ouve um sino benze-se.

Se não se benzer sente-se culpada. E a culpa na cabeça dela ganha forma humana e tem uma voz cavernosa que lhe grita impropérios.
Portanto, benze-se mais vezes do que aquelas que gostaria. E às vezes em sítios incomuns.
No dia em que conheceu o Amadeu, já ia na 25ª benzedela.
Isto porque estava perto de uma igreja. E ele também.
Ela por motivos bem diferentes dos dele.
Ela porque lhe morrera uma tia-avó. E ele porque tivera um furo no pneu dianteiro.
Então encontraram-se na pracinha em frente à igreja.
Ele suado e de mangas arregaçadas. Ela com ar tímido de frio.
Ele com o macaco na mão. Ela com o terço.
Ele cospe para o chão. Ela sente um soluço.
Ele esboça um sorriso de cariz dez por cento sexual.
Ela desvia o olhar e sente uma impressão na barriga.
Continuam naquela reza interminável de olhares, desvios e sorrisos.
Até que o sino volta a tocar. Ela benze-se e ele recebe uma chamada no telemóvel.
Ela escapa-se para dentro da igreja. Ele escapa-se para dentro do carro.
Nunca mais se encontram. Mas também nunca mais se esquecem.

24/02/12

china girl


era pequena em tudo, nas medidas do corpo, na boca, no cabelo.
principalmente nas palavras.
também comia pouco, aos bocadinhos em garfadas tímidas.
andava num carro pequenino, numa condução miúda e prudente
e lia pequenos contos sobre as pessoas normais.
um dia encontrou um homenzarrão
alto e grande e forte e muito
mas mesmo muito maior que ela.
e isso fê-la pensar que o tamanho das coisas pode ser somente um ponto de vista
e o homem que era farto nas palavras
generoso em tudo o resto
ensinou-lhe uma medida acima
(uma medida para todas as coisas em que ela se achava demasiado pequena)
e juntos – a rapariga pequena e o homem grande –
construíram uma espécie de física, matemática, geografia, linguística,
onde partilharam verbos, voz,
vento,
e vida.

07/02/12

a rapariga que não queria sentir



Chegou à farmácia e pediu.

“Queria um remedio para não me apaixonar”.




27/01/12

a rapariga com mood de cinema





Acordou com mood de cinema:

olhos de “Bonjour Tristesse”
boca de “One from the heart”
cabelo de Rita Hayworth.

Vestiu um vestido de Ava Gardner
calçou uns sapatos de Lauren Bacall
vestiu um casaco branco e calçou luvas pretas de Kim Novak.

Olhou-se no espelho
e levantou a sobrancelha como a Scarlett O’Hara
e fez boquinha de Marylin Monroe.

Saiu para a rua com andar de Tippi Hedren: passinhos miúdos, pernas abraçadas em saia tão custa, sintonia perfeita entre a música dos joelhos e dos saltos altos.

Entrou num clube antigo com muito fumo e luz teatral.
Uma orquestra de músicos de camisa branca, cabelo lambido e mangas arregaçadas, tocava temas de Cole Porter.

Sentou-se a uma mesa, cruzou a perna direita e retocou o pó de arroz e o batôn com ar arrebatado de diva de film noir.
Na mesa pousaram-lhe um copo com Whisky e muito gelo.
Mãos enluvadas de homem riscaram um fosforo e acenderam-lhe um cigarro fino.
Humedeceu os lábios e sorveu o cigarro e expeliu o fumo, propositadamente, de encontro ao feixe de luz branca
para criar um efeito cinematográfico de filme a preto e branco.

A orquestra começou a tocar, arrastada e impecavelmente, o “The way you look tonight”.
Marcou o ritmo, subtilmente, com a biqueira do sapato elegante, sossegou o coração no peito e ficou ali, com ar de cinema, a apreciar a luz a escorrer entre o fumo e a pensar que dele, do fumo, ele apareceria:

de chapéu antigo, fato escuro, perfume maduro, cigarro ao canto da boca, voz grave.
Olhá-la-ia por uns segundos, com os olhos negros de desejo educado,
estender-lhe-ia a mão e arrastá-la-ia para a pequena pista de dança
e envolvê-la-ia num abraço de Rick Blaine.
enquanto lhe dizia ao ouvido,
por cima da musica,
num inglês perfeito


"Lovely, never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it ?
Cause I love you, just the way you look tonight."


10/01/12

the mark of your lips

phot. by pedro tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/

Guardou a chávena de café por onde ele tomou café da última vez.
Depois disso ele foi embora.
Nunca mais voltou. Mas a chávena ficou.
Guardou-a, a chávena, porque tinha a marca dos lábios dele.
E guardou-a para o poder beijar todas as noites.
Até o esquecer.

30/12/11

the way you look tonight



Brindaram às 23h40. A cabeça tonta de champanhe, os pés levezinhos.
Ela pôs a tocar o “the way you look tonight” do Frank Sinatra:

“Some day, when I'm awfully low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight.”
Com as faces rosadas pendurou-se no pescoço dele e pediu-lhe numa vozinha infantil, no compasso da música:
- Fala-me ao ouvido com voz de cinema… estamos no Madison Square Garden....
Eu uso o vestido verde da Cyd Charisse e tenho o cabelo Chanel. E tu, o colete amarelo do Gene Kelly, calças brancas. Levas-me quase no ar. Embriago-me com os perfumes e os vestidos das mulheres, do americano dos homens, dos brindes com champanhe.
Sou leve nos teus braços. O meu perfume dança com o teu.
Canta-me uma canção ao ouvido. Pode ser esta, que agora ouvimos.

"Yes you're lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight."

- Agora diz-me que gostas de mim. Diz-mo em inglês. Mas pára. Quero que mo digas parado, com ar de ator e no alinhamento ali daquele projetor de recorte… isso… mais para a direita.
Vês as nossas sombras no chão? Parece um filme. Estamos num filme. Nem que seja só por esta noite.
Vá, diz-me com o teu sotaque impecável. E com brilho nos olhos.
“Lovely, never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it ?
Cause I love you, just the way you look tonight. “


- Agora encosto a minha face à tua e dançamos mais um bocado.
Até o meu corpo ter aprendido o respirar do teu.

07/12/11

a mulher que cantava sozinha

disse-lhe sem pausas sem pontuações disse-lhe ter inventado uma linguagem nova de gostar uma linguagem simples sem verbos sem figuras de estilo disse-lhe isso sofregamente com a voz entrecortada e às vezes esganiçada principalmente nas palavras mais agudas e disse-lhe isso com as mãos com os olhos com o corpo numa entoação delirante e acalorada e aquilo que ela dizia mais parecia uma cantiga uma cantiga que ela tinha escrito e sabia sabia sabia
que nunca a cantaria com ele
porque

só ela a iria cantar.



06/12/11

quarto sobre o mar

Sentava-se na cama do seu quarto em frente ao mar quando a luz atingia o pico da claridade.

Passava o indicador pelas rosetas da colcha que cobria a cama de solteira e a sensação aveludada que recolhia desse toque era reconfortante.
Ficava ali com os olhos perdidos nos inúmeros pontos de luz que o sol fazia sobre o mar e deixava que o cheiro da maresia a invadisse inteiramente.
E dias havia em que se sentia um prolongamento daquele mar, daquela luz e do veludo do toque da colcha da cama de solteira.
Sentia-se feliz. Livre. Feita de matéria e desprovida de tudo o resto.
E sentia-se porção da natureza e astro e onda e luz.
E sentia-se como se estivesse dentro do “Quarto sobre o mar” do E. Hopper.
E sentia-se personagem de uma história irreal.
E por causa disso sentia-se feliz.

11/11/11

a mulher tempo e o homem erosão


phot. pedro tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/

Encontraram-se anos depois. Já as faces eram pedra e o tempo erosão.
Mas os corações guardavam ainda partícula de tempos idos em que as raras palavras trocadas haviam escrito grandes livros.
Ela estava velha, desusada e meia desfeita. Mas guardava nos olhos um fio de juventude que lhe conferia ainda um pouco de luz.
Ele estava velho, desusado e meio desfeito. Mas guardava nos olhos um fio de juventude que lhe conferia ainda um pouco de luz.
Então ela desferiu, sem medo, porque há uma idade em que as pessoas deixam de temer seja aquilo que for:
- Então, vamos sair?
E ele anuiu, porque há uma idade em que as respostas, para certas coisas, deixam de ser não.
E foram juntos assistir a um bailado porque os seus corpos já não podiam bailar.
Mas tudo neles bailou principalmente as palavras e as mãos.
E finalmente decidiram ficar juntos, porque há uma idade em que o tempo escasseia e os medos passam a ser uma certeza.

(para a minha mana.)

24/10/11

a rapariga que se passeava nua

phot. by pedro tudela in http://instagrid.me/pedrotudela/


A rapariga passeava-se nua porque não gostava de se passear vestida.
E enquanto se passeava nua via-se no reflexo das montras
e ao sabor da lua vislumbrava, no chão húmido, a sombra cinematográfica do seu corpo
e fazia-o todas as noites quando a cidade já dormia e quando na rua não havia alma.
E fazia-o por precisar de companhia e por em casa não ter espelhos.
E fazia-o enquanto pela cidade deixava impressa a memória daqueles momentos e fazia-o como se fosse um filme: planos apertados, únicos, com música, imagem tremida.
E regressava a casa com um trailer diferente todas as noites.
E coleccionava cenas de filmes noir, filmes mudos, filmes de animação.
E aquelas cenas amansavam-lhe a solidão.
E faziam-ma pensar na sua vida como se de um filme se tratasse.
Porque no cinema tudo pode acontecer.
E porque no cinema,  a solidão é uma palavra cheia de gente.

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