04/05/15

Paolo Corrdadini


alerta amarelo

o tempo está em alerta amarelo.
eu também.
esperam-se rajadas de 80 km/h.
para mim também.
o céu está carregado.
eu também.
basicamente o tempo está uma cagada.
eu também.



02/05/15

palavrinhas



    passei a tarde a abocanhar palavrinhas
    depois perfumei-as, dei-lhes um sotaque francês
    fiz-lhes uma banda sonora catita
    pintei-lhes os lábios de vermelho
    e emprestei-lhes a chave do carro.

    ...

    não sei a que horas voltam.
    mas sei que acabam sempre por me voltar a casa.

30/04/15

família

Com a família somos sempre pequenos ainda que já sejamos grandes.
Há sempre a memória de uma brincadeira, de um diminutivo, 
de uma palavra errada que se dizia em bebé.
Com a família acontece, por vezes, uma catarse de deliciosa estupidez, 
como se de repente voltássemos à era dos bibes e das coisas idiotas e genuínas.
Com a família desfolha-se, quase sempre, o álbum de retratos retratados em boas (e tantas) memórias. 
Canta-se o inaudível e as mãos parecem sempre dadas ainda que estejam longe.
Com a família fala-se uma linguagem única, típica e universal.
A linguagem dos bolos Cristina, dos carrinhos de choque na feira, das roulottes cheias de tralha no campismo, do Cebulório e da jogatina, a altas horas.
Os cabelos parecem ter o mesmo cair e as vozes têm uma toada similar.
As vogais abrem-se da mesma forma 
e as expressões partilham-se quase ao mesmo tempo.
Com a família tem-se uma relação a tempo inteiro e um casamento para a vida.
Com a família somos sempre nós.
O coletivo, o individual, os caracóis, os dedos entrelaçados, 
os corações a falar a mesma língua.
Com a (minha) família é assim. E que bom que é.
 


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