26/10/15

hora de inverno

quando muda a hora há um qualquer inverno que também se instala em mim.
ainda que na rua se vertam cores dos néons e das lojas, ainda que o natal já se aproxime ao longe, ainda que a esperança fale a linguagem de uma primavera distante.
não gosto que a hora mude, não gosto de acordar com escuro e voltar a casa escura.
as minhas gatas também não gostam.
ficam, como eu, quietas.
se falassem, tenho a certeza que me diriam o mesmo.
se tivessem mãos, quando chegasse a casa teria decerto uma mala feita, para as 3, para rumarmos ao sol.

meio meio

tou assim naquele ponto em que me apetece dormir até ao verão
ou dar um murro na mesa e virar o jogo.


23/10/15

a maria da luz

e quando tens uma empregada nova que te arruma o mais pormenor do sitio mais profundo
não te parte santos nem pratos
passa a ferro e deixa a casa a cheirar bem
e ainda por cima te traz, no segundo dia, marmelada e geleia...
pensas assim
eu podia viver sem empregada, podia,
mas não era a mesma coisa.

as minhas gatas ainda andam, em relação à mesma, em averiguações.
ainda não decidiram se gostam dela.
são muito exigentes, as minhas gatas.
principalmente com o liquido que se usa para se limpar o chão e o tom da voz.

pedaços

há pedaços de coisas que se vão perdendo, pela vida.
cabe a cada um de nós juntar, se for caso disso, esses pedaços.
eu gosto de juntar pedaços de gente, histórias e momentos.
pedaços de férias, viagens, passeios, jantares.
pedaços da minha infância, de um bilhete da minha mãe, de um sorriso que me imprimiu uma ruga boa.
mas os pedaços que eu mais gosto de juntar
- e que aprendi a fazer -
são os meus pedaços.

22/10/15

bora?



bora meter-nos numa coisa qualquer
a nós e as bichas
e cd’s e pipocas do pingo doce
e livros e costelinhas e arroz embrulhado em jornal
e irmos por aí, Portugal fora, Portugal dentro
a cantar com os vidros abertos e os focinhos cheios de vento
a cantar em Português, de felizes,
a cantar em contratempo
enquanto nos passeamos no tempo
até o tempo acabar.

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