30/10/15

conversa com o meu cérebro


não falo contigo, hoje. não te ligo.
não quero que vás por aí e me leves. não quero falar do que falei ontem.
não falo contigo de coisas sérias, hoje.
só te ouço, se me fizeres rir.
só te ouço, se me deres uma receita para fazer bolo de iogurte depois de pronunciar uma consoante.
não falo contigo de coisas assim coisas, hoje. só falo contigo de coisas idiotas.
às vezes levas-me por estradas idiotas que descambam em destinos idiotas.
quem manda hoje sou eu.
hoje, tu, o meu cérebro, está determinantemente vetado a existir, sozinho.
ficas amarrado à minha vontade e às minhas ações.
deixo-te um livro de reclamações na mesinha da entrada, ao pé do manequim.
juntamente com o livro, fica um lápis. o lápis tem o bico pequeno.
o que significa, portanto, que tens de escrever pouco.
o que é que achavas? pfff....
já cá ando há 47 anos... acharias, porventura, que não sei dar-te a volta?
estudasses....
tenho dito.

escolho-me

Lily Donaldson by Billy Kidd for Numéro #148

hoje escolho-me. inteira. inequívoca.
sem reflexo, sem espelhos.
e, depois de me ter escolhido, dispo-me.
e, depois de me ter despido, mergulho-me.
e, depois de me ter mergulhado, deixo-me ficar no mais fundo quieto de mim
quero-me assim quieta, escolhida e profunda.

uma parte de mim hoje ainda está no ontem.


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