09/12/15

crónica feminina

se fosse rica, entre outras coisas,
dedicar-me-ia a editar uma revista semanal
devota a coisas femininas:
aquelas que não interessam à maior parte das pessoas
mas que, curiosamente,
põe um sorriso tímido
na boca da maior parte delas.

Hengki Koentjoroby


07/12/15

feriado

diz que sim, que vai chover.
certo é que se diz muita coisa.
até pode nem chover.
ou pode chover copiosamente. ou um nadinha. ou aos pingos. ou aos cântaros.

estou-me nas tintas para que chova ou não chova.
hoje é véspera de feriado. posso ficar a ver filmes até o meu sono se confundir com um.
e amanhã posso dormir.
assim de repente, ter um feriado a meio da semana é do catano.



04/12/15

há finais de semana que abraço como se fosse para ter sexo.


sinos



Tenho assim uma coisa meia coisa, com sinos, desde miúda.
Sempre que ouço um sino penso em mortos.
Certa tarde, estava eu na aldeia, no verão. Fazia um calor abrasador.
Aquele calor que põe a tremer o nosso campo de visão e que põe as moscas meias taralhocas.
O sino da igreja tinha tocado nessa manhã.
Fui dar uma volta à rua, pela sombra.
Ao dobrar uma esquina dou de trombas com um funeral.
Um funeral calado, com muito calor, com meia de dúzia de pessoas, de preto, com ar assado.
À frente vinha o senhor dos funerais de bata branca e faixa roxa, com um sino na mão.
Vinham quase todos em câmara lenta: o senhor, as pessoas de preto, o carro funerário.
Todos, menos o sino. O sino era o que mexia mais.
Meteu-me tanta impressão aquela imagem que desatei a correr para trás, a bater com os calcanhares no rabo, o coração tresloucado.
Meti-me em casa e deixei passar a caravana triste.
Parecia que iam para o forno.
Continuei a ouvir o sino, até o seu som se diluir nos outros ruídos e no próprio calor.
Nessa noite sonhei com mortos risonhos, de corpos esguios a deixarem cair pele e olhos de bichos nunca vistos, a atazanar-me a alma, com sinos na mão.
Foi a partir desse dia que nunca mais gostei de sinos.

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