29/03/16

Kate Moss by Tim Walker for Love


28/03/16

rasgar ideias

passei estes dias a rasgar ideias como se fossem tecidos.
ainda não consegui costurar nada que me agrade verdadeiramente.
são assim, estas coisas das ideias e da mente.
quando queremos muito, não se faz grande coisa.
quando não estamos à espera, fazemos verdadeiras feridas de criatividade.

25/03/16

que faço então aos tantos pedaços de mim que me brotam dos vários pedaços de mim?

hoje dormi muito depressa.
o meu sono não me deu tempo para que todos os meus braços e pernas viajassem e se perdessem 
e se encontrassem em horas já passadas, histórias já acontecidas, conversas já permutadas.
que faço então aos tantos pedaços de mim que me brotam dos vários pedaços de mim?
tenho de arranjar-lhes ocupação profícua. são exigentes, os meus pedaços.
lançam-me dúvidas, abanam-me estruturas, baralham-me as pernas e as ideias,
confundem-se frases e cabelos e metáforas.
talvez lhes dê o colete que ando a fazer em malha, para que mo adiantem,
talvez os sente à frente das minhas estantes de livros.
talvez os ponha a fazer-me a sopa.
talvez os sente tão somente à minha frente
a verem-me escrever estas pequenas coisas
e talvez fiquem depois com ar espantado ou parvinho
e pode ser então
pode ser que se decidam finalmente a recolher a mim
e que me deixem acalmar as mãos e sossegar as palavras
para que me possa dedicar às milhentas coisas que hoje tenho para fazer.







24/03/16

Às vezes tenho saudades de certos momentos de pasmaceira da minha infância.


A Internet veio trazer o tudo à mão de tudo.
Mas mesmo tudo. Convites, férias, crónicas, comentários pouco ortodoxos, miminhos cor-de-rosa e até insultos.
Hoje, insulta-se como se se mudasse de meias, quando se vem da escola.
O objeto do insulto está a um palmo da nossa face; muitas vezes não tem rosto; tornou-se, de repente, moda; insulta-se porque alguém ganhou um concurso; insulta-se porque alguém gosta da Heloísa Apolónia; insulta-se porque o Marcelo não vai tirar férias na Páscoa.

Às vezes tenho saudades de certos momentos de pasmaceira da minha infância.
Dos tempos mortos. De ouvir o silêncio. De ouvir o calor, no Verão.
Dos sons da Páscoa. O Compasso, o sino, as escadas a ranger. Os rapazes penteadinhos com o crucifixo maior que eles. O rumor das crianças e o fervor dos adultos. A mesa engalanada numa toalha de crochet, com bolos, acepipes e uma garrafinha de vinho do Porto. 
Páscoa. Viseu. Família. Tio Zé.
Tempos em que os laços eram nós. Apertados, presentes.
Tempos como nenhuns outros.
Como já não há.

ser ou não ser Blogger - eis a questão



Afinal, Blogger, é uma profissão?
Certo é que nos dias de hoje algumas pessoas passaram a viver disso (e diga-se, em alguns casos, demasiado bem).
Mas e as pessoas como eu, que mantêm um blog há 10 anos e escrevem quase diariamente?
Afinal sou ou não sou Blogger?
Bem, é uma palavra que pelos vistos já aparece nos dicionários.
Mas será que há alguém que preencha, nos quadrados destinados à identificação da profissão, a palavra “Blogger”?
Quando atualizei o meu CV, há tempos atrás, tive dúvidas se havia de colocar essa referência.
Acabei por pô-la dado ser uma mais-valia na candidatura a que me propus: estudar Língua Portuguesa.

Se calhar daqui a uns anos ainda terei a mesma dúvida.
Se calhar daqui a uns anos os Blogs já não se chamam Blogs e até já passaram de moda.
Uma coisa é certa: se eu ainda cá andar, o “sitio das pequenas coisas” andará comigo.

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