20/05/16

às sextas sinto-me capaz de qualquer coisa.


19/05/16

um tirar-de-casaco-poema




a mulher que hoje tirou o casaco no meio da rua – e não era uma rua assim tão pouco movimentada – fez com que toda a gente, que estava naquela rua, ficasse a olhar para ela, embasbacada, literalmente embasbacada, sim, porque aquele tirar de casaco foi belo como um poema simples e intrincado como um quebra-cabeças. aquele tirar de casaco foi vento sul, foi lábios húmidos e soabertos.
aquele tirar-de-casaco-poema começou por um ombro desnudo e depois cruzou para o outro e prosseguiu, numa lânguida viagem, até ao pulso fino, deslizando pelos dedos longos, primeiro de uma e depois da outra mão.
o casaco ficou-se numa das mãos, inerte e exangue, porque ela e o corpo dela lhe tiraram a vida.
o corpo dela desfez-se depois em luz de veludo e os olhos de todos aqueles que ali estavam, naquela rua, colaram-se nele, no corpo dela, e por lá ficaram a passear, a deslizar ombro acima, ombro abaixo, dedo abaixo, dedo acima, mastigados numa cantiga de prazer, embriagados pela ventania interna do desejo.
a mulher que tirou hoje o casaco no meio da rua,
fez dos olhos de todos
prisioneiros do seu corpo-poema.

se eu pudesse, guardava no colo todas as primaveras do mundo.


18/05/16

pessoas não simpáticas e a minha comichão no nariz


Pessoas simpáticas há em todo o lado. Não simpáticas também.
Tenho alguma dificuldade em lidar com pessoas não simpáticas, que estão em cargos de atendimento ao público. Reconheço-lhes o tom, a metros de distância. Devem emanar uma qualquer espécie de odor que, certeiro, me invade as narinas e o sistema nervoso central.
Quando me abeiro delas ainda lhes dou uma hipótese. Faço a pergunta que me leva lá, simpaticamente. E elas respondem-me, não simpaticamente.
Pronto, borram a escrita. Sinto comichão no nariz, nervoso miúdo nas pontas dos dedos das mãos e umas quantas palavras e frases assomam à ponta da língua, prestes a despenhar-se com elegância do patamar mais alto da minha educação.
A partir daí, o diálogo resume-se unicamente ao objetivo da minha visita; nada mais. Frases curtas da minha parte com tom de “teatro”; respostas secas do ser não simpático. Levanto a sobrancelha e abano o cabelo; a pessoa não simpática responde com enjoo e ainda por cima não me olha nos olhos. Ficamos ali em silêncio enquanto sou atendida.
No fim digo obrigada. Ela acena com a cabeça zangada.
Viro as costas, depois do atendimento, e retorno ao meu destino ainda engasgada com a irritação.
Ao contrário, se forem pessoas simpáticas, a coisa é bem diferente.
Já tive conversas surpreendentes com a menina da Nespresso, com a menina da loja de produtos de cabeleireiro e com o cabeleireiro de calças ao fundo do rabo com sotaque portuense e língua afiada.
Danço conforme a música que me dão.
Sendo certo que, sendo simpáticos, sou capaz de ficar até ao fim da festa.

Restaurante Aurora, Porto

Dei-me conta do Restaurante Aurora, na rua de Entreparedes, a caminho do Teatro Nacional S. João, no passado Sábado.
Tínhamos 1h para jantar.
Entramos, com algum receio de não sermos atendidos, dado não termos reservado mesa.
Bem, confesso que foi uma surpresa agradabilíssima, em todos os sentidos.
Em primeiro lugar, atendimento, simpatia e prontidão.
Subimos ao primeiro andar e entramos para uma sala com decoração típica e detalhes encantadores perfilados pelas paredes: pequenos quadrinhos, emoldurados, com pinturas / colagens.
Adorei os copos e os guardanapos e o candeeiro, vintage, que adornava a nossa mesa.
A comida: tradicional com um toque de contemporaneidade; uma carta atraente e uma sedutora lista de vinhos.
De vez em quando há fado; aliás quando estávamos a ir embora, iam começar a tocar.
Tive pena de não ficar para assistir, mas esperava-nos uma peça de teatro.
Mas confesso… a luz de fim de dia que fluía pelas grandes janelas, o repasto excelente, o vinho branco aveludado e a companhia ideal… quase me fizeram esquecer a peça e o horário que tinha de ser cumprido.

Voltarei, Aurora.

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