27/05/16
conversas de mulheres
Model Children by Morton Bartlett
Há conversas que só podemos ter com mulheres. E não com todas.
Possivelmente com as que conhecemos há uns (largos) anos. As que conhecem as nossas birras; as espinhas que aparecem no queixo numa idade despropositada; as brancas, no cabelo, depois das quatro semanas de pintura; o pelo branco ou preto que cresce, jovial, no nosso queixo e, como se não bastasse, cada vez mais grosso.
Há mulheres com quem é espirituoso partilhar estas coisas de mulheres.
Há mulheres que entendem a linguagem de vida das outras mulheres: sabem ler as vírgulas, as entrelinhas do silêncio, os amuos, as indefinições, as calças mais justas ao corpo, as olheiras que um dia acordam e teimam em andar com elas o dia todo.
Há mulheres que se dispõem, naturalmente, a ter este tipo de conversas com outras.
Gosto (muito) de fazer parte desse círculo de conversas de mulheres.
E sim
gosto (muito) dessas mulheres.
25/05/16
anita
Povoou a minha infância de animais, curiosidades, encantos, singularidades, aventuras e mimos.
Fez-me sonhar e fez-me querer ser crescida e fez-me gostar (ainda mais) de animais.
Fez-me desejar ser hospedeira de bordo, artista de circo, mãe, mulher.
Ensinou-me a apreciar a leitura e a ilustração.
Tornou a minha vida indubitavelmente mais rica.
Ah. E também me fez dizer em criança, que se algum dia tivesse uma filha, chamar-se-ia Anita.
24/05/16
sem título
e é dia de abrir alma.
(aquele recanto que ainda tem algum pó
e tralha desarrumada.)
23/05/16
estou zangada com o meu sono
é. estou.
andamos à galheta, esta noite.
fugiu-me, o estapunha. e ainda por cima andou a fintar-me a noite toda.
a espreitar entre os carneiros, a deitar-me a língua de fora entre as estrelas do tecto.
não consegui apanhá-lo. várias vezes lhe segurei a calça e o dedão. mas escapuliu-se com uma pintarola danada.
é danado. aprende bem. (comigo.)
acho que hoje vou ter de lhe pedir para que façamos as pazes.
andamos à galheta, esta noite.
fugiu-me, o estapunha. e ainda por cima andou a fintar-me a noite toda.
a espreitar entre os carneiros, a deitar-me a língua de fora entre as estrelas do tecto.
não consegui apanhá-lo. várias vezes lhe segurei a calça e o dedão. mas escapuliu-se com uma pintarola danada.
é danado. aprende bem. (comigo.)
acho que hoje vou ter de lhe pedir para que façamos as pazes.
20/05/16
ver passar, a minha avó Amélia e as minhas memórias preferidas
The Concierge's Dog, Paris, 1929, Andre K.
Apetecia-me passar a tarde todinha todinha sem fazer a ponta de um corno, a ver passar pessoas com suas roupas e seus animais e suas pessoas e assim.
Nas grandes cidades são raras as vezes em que vejo assim pessoas à janela, com ar descomprometido, relaxado, com ar de quem está ali porque lhe apetece estar ali e porque estar ali é muito melhor do que estar a jogar candy crush ou do que estar a ver as publicações de alguém para depois lhe ir moer a paciência ou qualquer outra coisa que envolva tecnologias, se bem que hoje qualquer coisa que se faça, regra geral, envolve tecnologias…
A minha avó paterna gostava muito de ficar à janela, a ver passar.
Quando assim ficava, o meu pai dizia que ela estava na “montra”.
A minha avó paterna cheirava a Madeiras do Oriente e usava sempre colares e eu gostava muito disso. Lembro-me de pensar que, quando fosse grande, gostaria de usar colares, como ela.
A minha avó paterna andava com os pés para fora e tinha caracóis pequeninos nos cabelos grisalhos e ainda hoje gosto de acreditar que, de certa forma, foram os caracóis dela que um dia passaram para os nossos cabelos, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna não ouvia lá muito bem de maneira que falava um nadinha alto demais. Mas em contrapartida tinha uma coleção admirável de livros e crónicas femininas e comia assim muito perto do prato, rente. Ainda hoje gosto de acreditar que essa mania que ela tinha passou para o meu pai, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna chamava-se Amélia. Era uma mulher de garra. Cozinhava como ninguém e gostava muito da família.
Parte do meu fascínio pelo universo feminino vem dela, da casa dela, na Rua do Arco. Do quarto ensolarado com as almofadas e a boneca de saia rodada, sentada na cama. Das mãos cruzadas no regaço ou os braços cruzados em cima do peito.
Do cheiro do pó-de-arroz e do cheiro das memórias desse tempo.
(Esse perfume ainda continua a ser o meu preferido.)
Apetecia-me passar a tarde todinha todinha sem fazer a ponta de um corno, a ver passar pessoas com suas roupas e seus animais e suas pessoas e assim.
Nas grandes cidades são raras as vezes em que vejo assim pessoas à janela, com ar descomprometido, relaxado, com ar de quem está ali porque lhe apetece estar ali e porque estar ali é muito melhor do que estar a jogar candy crush ou do que estar a ver as publicações de alguém para depois lhe ir moer a paciência ou qualquer outra coisa que envolva tecnologias, se bem que hoje qualquer coisa que se faça, regra geral, envolve tecnologias…
A minha avó paterna gostava muito de ficar à janela, a ver passar.
Quando assim ficava, o meu pai dizia que ela estava na “montra”.
A minha avó paterna cheirava a Madeiras do Oriente e usava sempre colares e eu gostava muito disso. Lembro-me de pensar que, quando fosse grande, gostaria de usar colares, como ela.
A minha avó paterna andava com os pés para fora e tinha caracóis pequeninos nos cabelos grisalhos e ainda hoje gosto de acreditar que, de certa forma, foram os caracóis dela que um dia passaram para os nossos cabelos, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna não ouvia lá muito bem de maneira que falava um nadinha alto demais. Mas em contrapartida tinha uma coleção admirável de livros e crónicas femininas e comia assim muito perto do prato, rente. Ainda hoje gosto de acreditar que essa mania que ela tinha passou para o meu pai, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna chamava-se Amélia. Era uma mulher de garra. Cozinhava como ninguém e gostava muito da família.
Parte do meu fascínio pelo universo feminino vem dela, da casa dela, na Rua do Arco. Do quarto ensolarado com as almofadas e a boneca de saia rodada, sentada na cama. Das mãos cruzadas no regaço ou os braços cruzados em cima do peito.
Do cheiro do pó-de-arroz e do cheiro das memórias desse tempo.
(Esse perfume ainda continua a ser o meu preferido.)
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