14/06/16

tempos estes, estes tempos

são tempos de coisas pequenas convertidas em coisas grandes.
tempos de bravura investida
tempos de conversas difíceis e tempos de insónia ensonada.
tempos estes, estes tempos
que me arrancam da pele as tantas que em mim moram e se querem demorar.
tempos de sentir, sentir tudo, muito
sentir a preceito, com vontade
sentir de frente
porque há coisa que, uma vez sentidas,
não as podemos voltar a arrumar.

08/06/16

no médico

uma filha adolescente. a cara cheia de borbulhas. a mãe de um lado. o pai do outro.
o pai mexe no telemóvel. a mãe torce a alça da carteira no regaço. a filha retorce-se na cadeira.
eu jogo um jogo de palavras enquanto espero pela minha vez.
a sapatilha da rapariga das borbulhas chama-me a atenção. as vozes baixas dos três aguçam-me a curiosidade. apuro a audição; o meu dedo médio começa a mover-se mais devagar.
parte do meu cérebro detém-se ali, na conversa deles.
falam da viagem da miúda das borbulhas. a Paris. a rapariga das borbulhas vai com as amigas a Paris. levanto os olhos para aferir a idade dela. não terá mais de 14 anos.
-mal chegues liga logo. - diz a mãe de cabelo engraçado.
- apanhem um táxi, é mais seguro. - diz o pai de pele bronzeada.
a rapariga de cabeça entontecida pela puberdade e por uma visão de alguns dias longe dos pais, fala de museus, fala do hotel, fala da mala, fala da roupa. fala entre risinhos e suspiros.
recuo até aos meus 14 anos de idade. ainda brincava com algumas bonecas, às escondidas. já não era aquela coisa das mães e das irmãs. fingia, antes, que era a cabeleireira delas. a estilista. a médica.
embora o meu corpo já tivesse dito adeus à infância a minha cabeça continuava presa a certas brincadeiras.
fui rapariga/moça já tarde, sim. eram outros tempos. não havia viagens a Paris com as amigas.
não havia telefones, tablets, sapatilhas giras e compras no ebay.
mas, em contrapartida, havia brincadeiras criativas e fins-de-tarde aproveitados até à última gota de sol.

07/06/16

espera


Há dez anos que se repete… a cada sábado; todos os sábados, todos os meses, todos os anos:
a mesma mesa, junto à varanda voltada para o oceano;
o mesmo piano, a chorar um noturno de Chopin;
o mesmo vento a afagar-me os cabelos, o mesmo vinho doce a despentear-me a razão;
e… um sorriso que se vem esbatendo:
com a espera, com o vento,
com o vinho, com a erosão.
Há dez anos que te espero.
“Que, serenamente, desespero.”
O meu corpo modificou-se. A cor do meu cabelo também.
As mãos têm mais sinais; às vezes entretenho-me a unir, com uma caneta, os sinais das minhas mãos.
Os miúdos da casa cresceram e já se foram. Até a moda mudou.
Continuo à espera que o mar te traga.
“O mesmo mar que te levou.”
Há quem diga que morreste e há quem diga que, pura e simplesmente,
foste embora e não tiveste de coragem de dizer adeus.
“Há quem não diga nada porque tem pena de mim.”
Custa-me acreditar que me tenhas deixado, sozinha, a envelhecer.
Como num monólogo, um debate surdo, uma canção sem tom.
“Não deixaste, pois não?
Costumavas dizer que há tanto mundo para ver a quatro-olhos.”
Visto este vestido, todos os sábados. Gostavas do toque dele…
“Faz-me cócegas nas mãos”, dizias, embriagado de carinho e de mar.
Já tive de o ajustar ao corpo uma dúzia de vezes - descosendo a bainha, para o alargar.
“Já tentei descoser-me, de ti, todas essas vezes.”
Não tem muito mais tecido, a bainha deste vestido.
“Decidi que deixarei de me sentar à tua espera, quando não puder alargá-lo mais.”
O amor sofre. O amor tarda. O amor hesita.
Gostavas que eu me sentasse nesta varanda quando voltavas, todos os dias, do mar.
“Exatamente assim, com este vestido, o cabelo a acariciar as costas,
as faces rosadas, o coração morno.”
Acenavas-me, de longe, e a tua mão ficava suspensa, como num retrato.
Quando chegavas a mim, trazias os olhos negros de desejo.
“Pareces um quadro do Edward Hopper” – dizias- e sentavas-te. Debaixo da mesa, davas-me o pé. Ficávamos ali perdidos nos olhos um do outro até o entardecer desmaiar na noite.
Há dias em que fixo o olhar no oceano e sou capaz de jurar que é o teu barco que avisto.
“Se, quando voltares, este vestido não me servir, o que é que visto para ti?”

06/06/16

Little Miss Sunshine


Ultimamente não tenho tempo para ver filmes.
Desdobro-me entre ensaios, estudo, pais e a minha família.
A box acumula séries e dois livros novos estão pousados na mesa-de-cabeceira à espera de melhores dias.
Quando me disponho (e consigo) ver alguma coisa na televisão é uma festa e faço por escolher títulos que vão de encontro ao que mais gosto.
Embora não seja grande adepta de comédias (na verdadeira aceção da palavra), há-as que me enchem as medidas – as que são um bocadinho negras e bizarras.
O filme que vi na semana passada encheu-me as medidas, sim. Todas.
“Little Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris é um road movie com um elenco soberbo e uma trama bizarra, que desenrola com consistência e seriedade.
A comédia é bem medida e os temas abordados são de enorme relevância e estão muitíssimo bem explorados.
Entre riso, emoção e lágrimas, a história deste filme adensa-se em diálogos, imagens, música e personagens.
Posso dizer que ri, chorei, fiquei estupefacta e, quando o filme acabou, pensei que bom que é ainda haver obras como esta que me estimulam e sobretudo trazem algo de novo às nossas vidas.
Assim vale a pena.


https://www.youtube.com/watch?v=VWyH_twcMl0

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