Gosto de ver a vida a passar através da janela do meu carro.
Como se fosse cinema, a vida: os pássaros, as árvores, os passeios e as mulheres de saltos altos; os prédios, os vendedores de rua, os cães e as montras das lojas.
A vida, vista através dessa janela, faz-se num plano apertado com luz aveludada e imprevista.
A vida faz-se numa banda sonora de cores, motivos, pormenores e sombras.
Se encostar a minha mão ao vidro posso fingir que lhe toco, à vida.
Fingir que afiro:
a suavidade das penas dos pássaros
o arrulhar das folhas numa cantiga, plácida, de Outono
a música dos sapatos das mulheres graciosas
o cheiro das famílias a esgueirar-se pelas frestas das casas
as palavras aprendidas dos vendedores móveis
a respiração apressada dos cães errantes
e a orquestra, de vida, de sons cheios de vida, das lojas cheias de gente.
Gosto de fazer cinema com quase nada.
E meter, em bocadinhos de cinema nos meus olhos, bocadinhos de quase tudo.
A partir desta belíssima fotografia, gentilmente cedida pela Sónia.
Há mais desta arte no http://ocorpoestremecedesaudade.blogspot.pt
(muito) obrigada.