21/11/16

conversas com néon (ou diálogo com a filha que nunca tive)


Fim de tarde, um pouco antes do “quase noite”. O sol hoje não se pôs porque hoje não houve sol.
É Outubro mas os dias de Verão ainda se demoram, acanhados, nos dias de Outono.
Estamos na sala. Os muitos candeeiros de pé que salpicam o aposento ainda não foram ligados.
À nossa frente, contudo, o néon da velha garagem já se ligou. Já ninguém trabalha ali, mas a luz aveludada das letras vermelhas brinda-nos, todos os fins de tarde, com o efeito cinematográfico da luminosidade solitária da garagem abandonada.
Já me perguntaste porque se acende aquela luz, já que “não há lá pessoas que a possam acender”.
Fazes-me muitas perguntas, todos os dias. Perguntas normais, perguntas peculiares, às vezes perguntas muito difíceis. Fazes mais perguntas ao fim da tarde. Já me perguntei várias vezes porquê.
Será do efeito da luz do néon?... Do cheiro de famílias que começa a subir, ondulante, as escadas do prédio? Será dos teus cabelos, que se mesclam com os meus quando unimos as cabeças e sossegamos as mãos, em conjunto, no meu colo… Será dos ruídos de fim de dia que chegam à nossa casa – e ao nosso fim de dia – amortecidos e redesenhados? Será de estarmos sentadas no chão da sala, em cima do tapete, sem pressa, sem tempo, sem tarefas. Entregues unicamente a este nosso tempo quase sem tempo?
Parece-me que hoje é dia de perguntas difíceis. Conheço-te tão bem. Quando olho para ti, em dias de perguntas difíceis, vejo nos teus olhos um negro mais escuro e sombrio que a própria ausência da cor.

- Mãe...
- Sim.
- O meu maior medo é….
- É…?
- Que tu acabes…
(Rio um sorriso sem riso)
- Eu não acabo.
- Não podes prometer isso…
- Mas posso dizer-to, para que fiques mais descansada. Basta que acredites.
- E como é que acredito?
- Queres acreditar?
- Acho que… sim.
(Pausa. Agora é que vão ser elas. Bem, não custa tentar...)
- Quando tiveres medo, pensas numa coisa muito boa. Mas tens que pensar com muita força e tem que ser algo bem especial. Vais substituindo, lentamente o medo, por pensamentos bons. Às tantas essas coisas boas, todas juntas, far-te-ão esquecer o medo.
- As mães têm sempre solução para tudo.
- As mães têm uma linguagem que vem do coração e que só é entendida pelos filhos…
(Pausa. Estreitamo-nos um pouco mais no abraço sem braços)
- Mãe, quando tu acabares eu continuo?
- Claro.
- E se eu não souber ir sozinha?
- Ah, eu ensino-te! E até lá teremos muito tempo. Mesmo que fosse agora, tu já saberias ir.
- Mãe…
- Sim.
- Nunca tens medo?
(Se soubesses. Tenho medo quase todos os dias…)
- De vez em quando. Sabes, é o nosso cérebro que inventa, muitas vezes, o medo. E eu gosto de o fintar e comandar…com isso, consigo espantar o medo…
- Ensinas-me a fazer isso?
- Já estás a aprender.
- Mãe…
- Sim.
- De que é que tens medo?
(Lembro-me de ter feito esta pergunta à minha mãe, quando era criança)
- De não ter tempo.
- Tempo…?
- De se esgotar o tempo para gostar, conversar. Para ser e para estar. Para colecionar as coisas de uma vida: pessoas, lugares, imagens, cores, cheiros. Música, filmes.
- E mais?
(Que se esgotem aqueles que mais gosto)
- Aranhas.
- E mais?
(Os meus medos de adulta já não são iguais aos medos de criança)
- De ficar sem memória.
- Ficar sem memória?... Mas tu não podes arrancar a memória da cabeça!
- Pois não, mas há pessoas que ficam doentes e que ficam sem memória.
- Se tu ficasses sem memória o que aconteceria?
- Deixaria de conseguir reconhecer pessoas, lugares… aquelas coisas todas que disse há pouco…
- Mãe.
- Sim.
- O meu segundo maior medo é que fiques sem memória e não me reconheças…
- Isso não vai acontecer.
- Não podes prometer isso…
- Mas tu podes enganar o teu cérebro e pensar já já numa coisa boa para não ter medo disso.
(A mão do meu sorriso dá à mão ao teu medo)
- Mãe.
- Sim.
- Vou escrever num papel o meu nome para que nunca te esqueças de mim, caso algum dia fiques sem memória…
- Sim, querida.
- Mãe…
- Sim.
- Estou com medos. O primeiro e o segundo. Vamos enganar o cérebro, juntas, e pensar em coisas muito boas?

Dizemos que sim, com a cabeça. Os teus olhos já estão mais claros. Já se acendeu o candeeiro de rua, pela hora nova. O vermelho das letras do néon da garagem sozinha já se derramou, tímido, pela parede desarranjada.
Aos poucos, os ruídos que nos são familiares começam a impregnar o espaço que nos cinge: as vozes dos andares de cima; um cão a ladrar. Um piano cansado e uma batedeira elétrica. As notícias de um canal sensacionalista. A criança que canta num inglês que não sabe. Um chuveiro e uma guitarra. Uma ladainha ao telefone. Um jogo de consola. Uma panela e um tacho, plenos e satisfeitos. Gavetas que se fecham com coisas lá dentro. Sapatos de salto que sobem um lanço de escadas. Pigarrear. Tinir de louças e gargalhadas.
Aos poucos, a vida vai jorrando e dissemina-se nos cantos mais pequenos dos dias de todos.

A vida – a tua e a minha – está nas paredes da nossa sala, nas conversas no tapete, no néon que nos observa lá de fora, todos os dias, com olhos de cinema.
A vida – a minha e a tua – está nesta conversa que nunca tivemos. E está nestas palavras que nunca deixarei de escrever.

in revista InComunidade | Edição Novembro 2016

18/11/16

não me calo, não.

nunca. no que toca a injustiças.
trabalho na mesma casa há quase trinta anos.
neste momento sou tratada como um número.
não tenho rosto. só meia dúzia de dados informatizados
que são tratados como os outros milhares que pertencem à mesma empresa.

(vi nascer esta casa. ajudei no parto. andei com ela ao colo. estive em todos os momentos oficiais e importantes.
dói-me muito ver que estão a tentar matá-la.)

17/11/16

considerações sobre o arrumador aqui da rua


Ando consumida com o arrumador aqui da rua.
Não gosto de arrumadores. Fujo deles a sete pés.
Mas o arrumador aqui da rua parece que é da família aqui da rua.
Conheço-o há mais de dez anos. Dei-lhe uns trocos duas vezes, se tanto.
O arrumador aqui da rua anda sempre limpinho e lavadinho e é muito educadinho e muito certinho. Veste roupa janota e anda sempre de cabelo cortado e barba feita. Não parece arrumador, é o que é.
As duas vezes que lhe dei uma moedita agradeceu educadamente.
Quando me atraso, de manhã, parece tirar da cartola um mágico lugar de estacionamento. Ainda por cima não é daqueles que fica junto do carro a cobrar, com os olhos, a moeda. Não senhor. Afasta-se complacente e põe-se meio de lado, a disfarçar uma vontade que na realidade não veste bem.
De maneira que ando consumida porque não consigo olhar para ao arrumador aqui da rua como olho para os outros arrumadores das outras ruas.
Quando me arranja lugar sinto que havia de lhe arranjar uma moedita.
Há dias fui para casa a pensar: onde mora o arrumador? Que faz o arrumador ao serão? Será que lê? Será que tem companheira, cão, gato, banquinho para por os pés enquanto vê a televisão? Será que é feliz?

Vivien Leigh & Clark Gable in Gone with the Wind (1939)

sem dúvida, um dos filmes da minha vida.
ensinou-mo a minha mãe, quando eu era criança. se calhar nem tinha idade para o aprender. mas a minha mãe fê-lo numa linguagem que lhe vem do sangue, um verbo simples e sem maldade.
comecei pela roupa: os vestidos rodados da Scarlett; feitos com tecidos alegres ou tão somente com as cortinas. passei depois a admirá-la por outras razões: a elegância e o génio, a sobrancelha levantada e a obstinação. sem dúvida, na minha opinião, um dos tesouros de interpretação feminina do cinema, de todos os tempos.
aprendi também  a encontrar em cada personagem o porquê, o como, o tão; desde a mãe até à empregada.
fui crescendo sempre com este filme no espírito. encantada com a banda sonora, com a realização magistral, com a grandeza da história, dos planos, das emoções.
li o livro em adolescente e fiquei ainda mais encantada.

este filme é:
pais, irmãos, é a Scarlett a pegar num punhado de terra e dizer que nunca mais terá fome, é a Melanie a ajudá-la com um altruísmo avassalador, são lágrimas de adolescente - as primeiras que chorei com arte. é uma lição de cinema e uma lição de vida.
está-me rente à pele, no esboço do meu mais íntimo.
e ensinou-me uma das coisas mais importantes da minha vida, que uso desde essa altura:

"after all tomorrow is another day".



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