24/01/17

vinyl records art by colin czerwinsk



23/01/17

Captain Phillips (de Paul Greengrass)

Ainda não tinha visto o filme. Vi-o na verdade sem grandes expectativas, sabendo de antemão a história e o desfecho.
Gosto de ser surpreendida com filmes. Com este aconteceu-me isso por duas razões: o granulado da imagem e os planos do filme (assemelhou-se muito a um documentário) e no final, a interpretação de Hanks. Assombrosa. Tão verdadeira que me arrepiou.

ela querer queria


é rapariga que quer muitas coisas.
há muitas dessas coisas que não tem e nunca virá a ter.
é demais orgulhosa para renunciar delas.
de maneira que decidiu colocar essas coisas mais fantasiosas e impossíveis de alcançar
de cabeça para baixo, no quartinho sem janelas, contiguo ao corredor da entrada onde guarda os sapatos.
estão lá todas enfileiradas, ordenadas alfabeticamente por tolice de concretização
e sorriem-lhe diariamente com dentes a reluzir de branco (e com um barulho de desenho animado) porque na verdade ela troca de calçado (quase) todos os dias.

20/01/17

"detalhes"



a mulher sentada numa cadeira de madeira, a uma mesa cuidadosamente colocada no centro da sala
a mesa de madeira cuidadosamente colocada no centro da sala é de madeira rosa, pau antigo, mesa que já veio de casas antigas
a mulher não é antiga mas ouve música antiga
a mulher é lindíssima, a sua pele parece um prolongamento da madeira rosa da mesa antiga
e o corpo da mulher parece um retrato pintado a óleo
aveludado e com luz de cinema.

a mulher assim sentada não faz nada
também não precisa de fazer nada pois quem a vê
fica com vontade de fazer tudo.

a mulher sentada assim ouve uma música antiga
cantada em português do Brasil
talvez espere alguém ou alguma coisa
também não precisa de esperar nada pois quem a vê
fica com vontade de esperar para o resto da vida.

blá blá blá


Gosto de conversar olhos nos olhos, ao telefone, bêbada de sono, metida no mar do Algarve com água pela cinta.
Gosto de conversar em grupo ou a dois.
Gosto de conversar com as minhas gatas com voz fininha.
E gosto de conversar, em jeito de confissão com as amigas.
Não gosto muito de falar com padres. Nem com arrumadores. Nem com empregados de café armados ao pingarelho.
Gosto mais ou menos com taxistas e com freiras.
Gosto de falar com a imagem da Nossa Senhora de Fátima que me acompanha de casa para casa e trato-a por tu e por “Fatinha”.
Gosto de conversar com os tachos e o Gel de Banho.
Gosto de conversar com os comentários dos blogs das pessoas que sigo nos blogs.
Não gosto mesmo nadinha de conversar com pessoas que não sabem conversar.
Gosto de conversar com as meninas da caixa do supermercado e com as meninas dos cabeleireiros, que têm um dialeto próprio e raramente usam os “bês”.
Gosto muitíssimo de conversar com mulheres e homens interessantes e adaptar o discurso ao curso da temática conversa.
Gosto de conversar com animais.
Não gosto de conversar no cinema mas adoro conversar na missa.
Gosto de conversar em cozinhas e em aulas de ginástica.
Não gosto nada de conversar em funerais e concertos de música clássica.
Não gosto muito de conversar quando estou amuada.
Gosto muito de conversar com o colete de malha que estou a fazer.
E gosto muito de conversar com o meu grande amor Nuno e com o ronrom das nossas miúdas.
E gosto, gosto tanto, gosto muito, gosto pra burro,
de conversar com as minhas palavras.

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