26/05/17

colagens


Ergo à minha volta um muro invisível.
Um muro que vede palavras, energias. Menos boas.

Um muro que me permita espreitar e saltar sempre que me apeteça, para dentro.
Para dentro do meu espaço, para dentro dos meus livros, para dentro da minha escrita, para dentro do meu trabalho.

O meu muro tem colagens nas paredes.
Tem arte que fui colecionando durante os anos: imagens de filmes antigos, recortes de fotonovelas, excertos de bilhetinhos das minhas pessoas, pautas de Bossa Nova para guitarra, uma ou outra receita da minha avó Amélia que tinha muita mão para a cozinha.

Acho que foi por isto tudo que hoje comprei um “livro de mercearia” para começar a fazer as minhas colagens.
Sempre as fiz, em cadernos dispersos, em folhas ávidas de pressa, à socapa, no trabalho.
As colagens fazem parte de mim desde que me conheço.

E desta vez apetece-me fazer colagens diferentes.
Será que é porque finalmente mudei algumas coisas de sítio, na minha vida, e quero materializá-las de alguma forma?

meu nome é Gal.


a Gal acompanha-me desde criança.
e deu-me as melhores canções vestidas de memórias.

24/05/17

a mulher que via coisas





via o que estava mesmo ali, à frente dos seus olhos.
um dia começou a conseguir ver o que está para além da primeira visão.
passados dias começou a enxergar o que está debaixo das coisas que não se escrutinam logo assim num abrir e fechar de olhos.
e começou de facto a acreditar que as coisas mais bonitas de se ver são aquelas que não estão logo ali, à distância de um olhar.
talvez por isso tivesse começado a acordar a meio da noite para ver coisas que tecnicamente são impossíveis de ver ou coisas que se vêm só porque as pessoas têm muita imaginação.
e ela tinha. muita imaginação.

ainda ontem a vi, acordada, de madrugada.
os braços dela moviam-se lentamente como uma onda.
disse-me que estava a ver as ondas do mar da praia do Trafal, do Algarve.

como pude eu não acreditar?

22/05/17

do silêncio branco

(autor desconhecido)

não sei se é deste aroma à sopa que ferve no fogão.
não sei se é dos anos que as minhas gatas demonstram no subir aos bancos e fazem-no, habilidosas, para encontrar a minha mão.
não sei é desta música que me faz recuar.
não sei mesmo se é das duas flores que comprei há dias, que estão tombadas na jarra, em cima da lareira, teimosas, agarradas à vida que já se despediu delas.
não sei se é do meu pássaro que se calou para ouvir esta música.
não sei se é de mim, do cansaço de fim de dia, a cabeça cheia de trabalho, o corpo cheio ainda da corrida de ontem.
não sei se é de ter ouvido a tua voz, há pouco, a dizer-me que vens, vens já.

mas sinto-me feliz, neste momento, neste preciso minuto de tempo,
em que deixo que o branco disto tudo sobre mim paire
e me lave e me leve.

e eu vou.

Arquivo