by Ferdinando Scianna
acredito piamente na existência de um véu invisível que mora à frente de todos e que se vai construindo desde o dia em que nascemos e pomos os pés neste nosso mundo.
esse véu transforma-se a dada altura numa cortina; dependendo das pessoas será mais grossa ou mais fina; mais opaca ou transparente.
é nesse véu amadurecido em cortina que me resguardo, algures nos meus dias, para ficar só comigo.
é com esse pedaço de mim-tecido que converso à noite, antes de adormecer; com quem escolho a roupa para o dia seguinte e a quem comunico algumas decisões noturnas.
é com esse tecido-feito-de-quase-tudo que gosto de conversar absolutamente tudo.
20/06/17
sexy mixed media collages series
É de Melbourne, chama-se Kelly Maker (aka The Stone Fox), faz colagens artísticas usando editoriais de moda articulados com páginas de livros e/ou brilhos.
E eu gosto, pronto.
Por ser a técnica de colagem e por usar mulheres.
14/06/17
eu cão, me confesso
(autor desconhecido)
- Gosto da possibilidade de pensar que hoje é quase-sexta. Está um dia de sol esplêndido. As meninas têm passado aqui numa passada poética e primaveril, com ombros desnudos e cabelos esparsos no vento e o meu dono ainda não arredou pé e cheira-me que é por causa disso.
Há pouco passou por aqui uma rapariga que ia apressada. Ia com ar de quem “nuncamaissãosete” e caminhava nuns saltos bem altos, mas não deixou de olhar para mim com ar interessado e olhar uma segunda vez antes de virar a esquina. Alguma coisa me diz que vai escrever qualquer coisa sobre mim.
A minha intuição de cão já me ensinou a entender o olhar das pessoas que dedicam muito do seu tempo à procura de coisas pequenas para converter em coisas grandes, através da escrita, só porque sim.
13/06/17
a dona maria luísa costureira
ilustr. Mats Gustafson
Hoje fui a uma modista. Recomendada por colegas de trabalho. Uma senhora que faz arranjos e transformações.
O facto de ter lá ido fez-me recuar até à modista que, na minha infância e adolescência, ia todas as terças-feiras para casa dos meus pais. Chamava-se Maria Luísa, era pequenina como um dedal e redondinha como um daqueles ovos de madeira que nunca percebi para que servem.
Falava pelos cotovelos, bordava maravilhosamente e enquanto fazia lá as coisas de costura, metia os alfinetes na boca e andava de gatas aos nossos pés como se ela própria fosse tecido.
A D. Maria Luísa foi muitos anos objeto de uma inveja profunda da minha parte. A inveja não era propriamente dirigida a ela, mas sim à refeição do almoço que a Irene lhe levava, num tabuleiro.
Preparava-lhe um tabuleiro com uma taça de sopa, um pão, o prato com o conduto, um copo de vinho e uma peça de fruta. Não sei o que me atraía naquele tabuleiro: se a arrumação cuidadosa, se a mistura dos cheiros todos, se o facto de ele espelhar os olhos esfaimados da D. Maria Luísa.
Sei que me esgueirava para o salão onde ela trabalhava, assim que a Irene lhe pousava o tabuleiro na mesa e, atrás da porta, deixava que ao meu nariz chegasse o aroma dos tecidos, das linhas, das flores do quintal, da comida, da sopa quente, do vinho adocicado. E aos meus ouvidos, a cantiga da máquina da costura a calar-se, o tinir dos talheres, as vozes almofadadas das duas, os insetos e o restolhar da natureza no calor.
Sei que cheguei muitas vezes a pensar em assaltar o tabuleiro da D. Maria Luísa.
Ou tornar-me costureira.
Hoje fui a uma modista. Recomendada por colegas de trabalho. Uma senhora que faz arranjos e transformações.
O facto de ter lá ido fez-me recuar até à modista que, na minha infância e adolescência, ia todas as terças-feiras para casa dos meus pais. Chamava-se Maria Luísa, era pequenina como um dedal e redondinha como um daqueles ovos de madeira que nunca percebi para que servem.
Falava pelos cotovelos, bordava maravilhosamente e enquanto fazia lá as coisas de costura, metia os alfinetes na boca e andava de gatas aos nossos pés como se ela própria fosse tecido.
A D. Maria Luísa foi muitos anos objeto de uma inveja profunda da minha parte. A inveja não era propriamente dirigida a ela, mas sim à refeição do almoço que a Irene lhe levava, num tabuleiro.
Preparava-lhe um tabuleiro com uma taça de sopa, um pão, o prato com o conduto, um copo de vinho e uma peça de fruta. Não sei o que me atraía naquele tabuleiro: se a arrumação cuidadosa, se a mistura dos cheiros todos, se o facto de ele espelhar os olhos esfaimados da D. Maria Luísa.
Sei que me esgueirava para o salão onde ela trabalhava, assim que a Irene lhe pousava o tabuleiro na mesa e, atrás da porta, deixava que ao meu nariz chegasse o aroma dos tecidos, das linhas, das flores do quintal, da comida, da sopa quente, do vinho adocicado. E aos meus ouvidos, a cantiga da máquina da costura a calar-se, o tinir dos talheres, as vozes almofadadas das duas, os insetos e o restolhar da natureza no calor.
Sei que cheguei muitas vezes a pensar em assaltar o tabuleiro da D. Maria Luísa.
Ou tornar-me costureira.
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