11/10/17
Variações de amor para um tema de Chilly Gonzales
Ela vai sentada na delicadeza de um trecho de piano de Chilly Gonzales.
Ele vai sentado na melancolia de um trecho de piano de Philip Glass.
Ela Primavera, ele Inverno.
Ela, rubor. Ele, pálido.
Ela tem o mundo todo concentrado num caderno feito de papel de toalhas de mesa.
Ele não sabe nada do mundo nem quer saber e foge de todos aqueles que sabem, menos dela.
Encontram-se no avesso dos dias, depois de desaparecidas pessoas, gatos, cortinas e pontos de luz pequeníssimos.
Encontram-se num quarto marcado por ele. Um quarto com cheiro a cinema e a papel velho. Num quarto de um qualquer prédio que numa qualquer janela tenha um músico a tocar um instrumento como se fosse um ai.
E aí, nesse qualquer quarto atarracado, com paredes riscadas, tetos pequenos,
estores mancos, aranhas solitárias, tapetes sujos,
aí nesse quarto fazem um amor sem a melodia deles
-porque a melodia de cada um ficou à porta-
e amam-se com a sofreguidão dos clássicos aprendidos
com as estrelas coradas de tanto amor
com tudo que vive, na noite, adormecido de tanta vida
e com o tal músico a divisar, no seu instrumento,
o olhar esguio, o arfar pequeno,
o desejo escuro e o libertar.
Supremo.
(a ouvir Armellodie, de Chilly Gonzales.)
10/10/17
De profundis, confusão lenta
phot. Thomas Laisne
Há noites em que a minha cabeça trabalha mais do que o meu corpo de dia.
Tudo se junta, nos sonhos. A Madame do conto do Guy de Maupassant, os espargos biológicos que encomendei ao meu sobrinho, as botas pequenas com bordados pequenos e vistosos e coloridos, que não me servem.
Depois, o que se junta, forma uma amálgama uniforme e sucosa, que se converte depois num enorme colchão, que se multiplica ainda num infindável lençol que me acolhe e me arrebata e me embala e me conserva.
Destilo. Regurgito. Sonho. Esmoreço.
Tremem-me os olhos num tremido nervoso de Catalunha.
Num esgar de politiquices escusadas.
Num respirar profundo de futebol.
Acordo estafada. Com um “ai” ainda rouco de tanta atividade, preso à entrada da língua silenciosa.
Levanto-me com a sensação de ter dormido em 5 minutos.
Cubro a cama com o lençol normal.
Tudo o que se junta, nos sonhos, continuará ali, à minha espera, para o sonho seguinte.
Há noites em que a minha cabeça trabalha mais do que o meu corpo de dia.
Tudo se junta, nos sonhos. A Madame do conto do Guy de Maupassant, os espargos biológicos que encomendei ao meu sobrinho, as botas pequenas com bordados pequenos e vistosos e coloridos, que não me servem.
Depois, o que se junta, forma uma amálgama uniforme e sucosa, que se converte depois num enorme colchão, que se multiplica ainda num infindável lençol que me acolhe e me arrebata e me embala e me conserva.
Destilo. Regurgito. Sonho. Esmoreço.
Tremem-me os olhos num tremido nervoso de Catalunha.
Num esgar de politiquices escusadas.
Num respirar profundo de futebol.
Acordo estafada. Com um “ai” ainda rouco de tanta atividade, preso à entrada da língua silenciosa.
Levanto-me com a sensação de ter dormido em 5 minutos.
Cubro a cama com o lençol normal.
Tudo o que se junta, nos sonhos, continuará ali, à minha espera, para o sonho seguinte.
09/10/17
livro & filme "as nossas almas à noite", de Kent Karuf
“As nossas almas na noite” é a última obra de Kent Karuf, norte-americano falecido em 2014.
Karuf não nos deixou uma extensa obra, mas a opinião geral é que nos brindou com pequeninas pérolas literárias, passadas no dia-a-dia de cidades pequenas e serenas, do Colorado.
Este livro fala de segundas oportunidades.
E fá-lo com uma maturidade assombrosa, com uma simplicidade comovente e ao mesmo tempo desconcertante.
A obra, escrita pelo autor já muito doente, é um relato transparente que corre veloz ao sabor do vento; às vezes é cruo e duro, revelando fantasmas, outras vezes veste-se de humildade e deixa-nos água nos olhos, por ser tão verdadeiro.
Aconselho muito, muito, muito.
Curiosamente, no dia em que li o livro (sim, li o livro numa manhã), vi o filme na Netflix, “Our souls at night”, realizado por Ritesh Batra (dele já vi o adorável “Lancheira”, de 2013), com os atores Jane Fonda e Robert Redford no papel de Addie e Louis, respetivamente.
Claro que gostei muitíssimo mais do livro, mas o filme é igualmente adorável e estes dois Senhores têm uma belíssima interpretação (foram justamente homenageados na última edição do Festival de Veneza, com o Leão de Ouro especial.)
03/10/17
splaft
phot. Christian Coigny.
os mergulhos que mais gosto
-e os que tenho vindo a apurar-
são os que faço, dentro de mim.
os mergulhos que mais gosto
-e os que tenho vindo a apurar-
são os que faço, dentro de mim.
02/10/17
outubro
vou receber-te, este ano, com perfil de primavera.
vou desafiar-te os dias e baralhar-te as conjecturas.
vou pintar-te de cores quentes e ataviar-te com bijutarias de primavera.
vou dar-te um abraço tão apertado que nunca mais te vais esquecer de mim.
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