10/11/17

teu nome é Gal



Acho que te sei desde que me sei a mim.
É amor antigo, de bordado de avó, a cheirar fino, com galões, debruados e ponto pé-de-flor.
Uma qualquer força estranha, entre o que me ensinaste em música e me ajudaste a crescer.
Uma relação Índia, com cheiro de Açaí, Caminhos cruzados com Ponto de luz, um Sonho meu, ou uma viagem no Trem das Onze.
Quando era miúda punha a cabeça para baixo, metia os dedos no cabelo farto e parecia-me, a mim, que ficava um nadinha mais parecida contigo.
E ficava embasbacada a ver as fotografias a preto e branco de uma Gal arriscada, linda, de pés descalços e boca grande, sentada num banco alto, a cantar como se fosse Deus.
Quando era miúda ouvi-te pela primeira vez, num disco que comprei com músicas do grande Ary Barroso e nunca mais deixei de te ouvir.
Já fiz coisas incríveis graças a ti. Já te vi no castelo de Montemor numa noite perfeita de luar, já te esperei na porta traseira do Coliseu (e tenho um beijo teu no bilhete), já cantei com uma irmã uma chuva cheia de prata para outra irmã.
Guardo-te em mim na dobra da roupa mais bonita e na ruga dos sorrisos de maior felicidade.

Vou ver-te, pela 4ª vez, domingo.
Talvez porque, sem que tenha pensado muito nisto, assumi tacitamente que só poderia ir… ver-te.
Sabes como é quando nos levantamos e respiramos?
É mais ou menos isto.

(ai de ti que não me cantes o “chega de saudade”.)

04/11/17

Edward Hopper em cinema

incrível, o filme de Gustav Deutsch, "Shirley: Visions of Reality"
nele, algumas das pinturas icónicas de Hopper são divinamente recriadas: o uso perfeito da luz, o veludo do movimento.

a história: a vida de uma atriz de Nova York (Stepahie Cumming) durante a Grande Depressão de 193
A cinematografia do filme é uma reprodução de 13 dos conjuntos de Hoppers seguindo a história de uma vida de atriz de Nova York (Stepahie Cumming) durante a Grande Depressão de 1931.

deixo-vos o trailer e algumas imagens do filme.




 https://www.youtube.com/watch?time_continue=141&v=rcQ4JKxxukY

02/11/17

eu e a minha casa e a minha casa e eu

Cinta Vidal, Urban Evening Painting.




Chega-me num murmúrio, a voz da minha casa.
Tem timbre grave, sotaque acentuado. Carrega nos erres e às vezes esvai-se em onomatopeias.
Ensinei-a a falar comigo e sobretudo a ouvir-me.
Tem mãos firmes, a minha casa. Acolhe-me, ampara-me e também me empurra, quando estou apática.
Temos, uma na outra, vaidade contida e compreensão aprendida.
Somos sonolentas pela pálida luz da manhã e mulheres maduras na mão dos candeeiros bonitos do fim de tarde.
Falamos inglês, francês e pequeno. Mudamos muito de roupa e adoramos sapatos de salto.
Gostamos de artistas de cinema antigas e pinturas do século passado.
Às vezes choramos e traçamos com a água dos olhos uma linha-rio no rosto das paredes.
Às vezes rimos muito e fácil numa abertura de lábios e portas.
A minha casa e eu e eu e a minha casa somos uma espécie de livro inacabado.
Já lhe escrevemos o prefácio mas teimamos em não lhe querer escrever o fim.
O fim é coisa de coisas materiais.
Eu e a minha casa e a minha casa e eu somos imortais dentro da finitude da história da nossa vida.

01/11/17

para lá do lá

phot. noell oszvald

para lá do ali e do lá e do onde.
onde se confunde o agora com o que se espera
onde se amealham instantes e se arremessam vontades.

nesse exacto pedaço de tempo inequívoco
em que sou tudo
mesmo aquilo que não posso ser.

"O modelo" de Lars Saabye Christensen


peculiar, intenso, orgânico.
uma viagem aos limites do medo, dos limites do ser humano, das fronteiras da arte.



Peter Wihl é um pintor famoso, o melhor da sua geração. Agora, em vésperas de cumprir 50 anos, prepara uma nova exposição, que será o ponto alto da sua carreira.
Mas tudo se desmorona quando Peter descobre que sofre de uma terrível doença que em muito pouco tempo o vai deixar irremediavelmente cego. O desespero e o inesperado encontro com um antigo colega de escola, o enigmático Thomas Hammer, lançam-no numa viagem sem retorno pelos limites da legalidade e da ética. Peter pagará um alto preço pela sua escolha, alterando para sempre a sua relação com todos aqueles que o rodeiam, incluindo a sua mulher Helene e a pequena Kaia, sua filha.


Lars Saabye Christensen é um dos melhores escritores noruegueses da actualidade.
É um contador de histórias, um narrador pleno de imaginação e, ao mesmo tempo, muito realista. O seu realismo alterna entre imagens poéticas e incidentes ingénuos, numa linguagem urbana e subtil. Os seus personagens possuem uma boa dose de ironia. Alguns críticos encontram paralelos com o sentido de humor de Woody Allen. Mas, por detrás da vivacidade da sua escrita, existe sempre um tom melancólico latente. 
Lars Saabye Christensen já publicou vários romances, contos e poesia, dos quais se destacam «Herman», já publicado na Cavalo de Ferro, "Ingens", "Juben" e "Halvebroren". Foi o romance «Beatles» que consolidou o sucesso de Christensen, tendo vendido 200.000 cópias, apenas na Noruega. Christensen já foi galardoado com mais de uma dezena de prémios, entre os quais: Prémios das Livrarias, Prémio da Crítica e Prémio do Livro Nórdico. 
A sua obra encontra-se traduzida em mais de 25 países.

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