16/10/08

a porta giratória

Já se apaixonara em supermercados, papelarias, quermesses, no metro, na cadeira do cabeleireiro, na página de um jornal, mas nunca, nunca se apaixonara numa porta giratória de um centro comercial.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. Não interessa agora como é que ela ia vestida ou o que é que ele trazia na mão. Ou seja, não houve qualquer elemento exterior aos dois que os fizesse iludir com qualquer coisa. Não.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. E olharam-se numa partículazinha de tempo invisível e teimoso, quando ela já tinha os dois pés pequenos dentro do compartimento direito da (grande) porta giratória e ele tinha os dois pés grandes no compartimento esquerdo da (grande) porta giratória.
Olharam-se de raspão mas não o suficiente para se verem.
Quiseram ver-se mais uma vez.
Ela fingiu que o telemóvel tocou.
Ele fingiu que deixou cair um papel que tinha na mão.
E então, deram mais uma volta na porta giratória.
Porém, ela não encontrou o telefone, dentro da carteira.
E no chão, acocorado, ele não encontrou o papel simplesmente porque não estava a olhar para ele. Estava a olhar para ela.
Ela não era boa a fingir que falava para telemóveis mudos e por isso corou até à nuca.
Ele não era bom a fingir espanto quando o papel caiu ao chão porque tinha sido ele a deitá-lo e então deu-lhe vontade de rir.
Com tudo isto, não se tinham visto ainda bem.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
Esqueceram telefones e papéis e… Olharam-se demoradamente, enquanto um homem barrigudo entrou a tossir nicotina para o compartimento direito e uma adolescente com música aos gritos nos ouvidos entrou a mascar chiklet com barulho para o compartimento esquerdo.
Às tantas, sem saberem porquê, numa cadência de espírito e num bater de coração, consertado, acertaram os passos, um com o outro.
E ao mesmo tempo entrou, no compartimento da direita, uma mulher jovem, de óculos escuros, que procurava dentro da sua Louis Vuitton o telemóvel, que tocava. E o toque do telemóvel, ó sorte fantasmagórica, ó música oportuna, de repente a mais melodiosa do mundo, de repente a mais bela do mundo, a música deles ali naquela porta giratória a rodar, …“Dream a little dream of me”.
Sentiram-se, obviamente, a andar de carrossel. Devem ter pensado nisto ao mesmo tempo. Riram.
Banda sonora tácita. Tremor nos membros inferiores. A paixão a sair da larva, a bater ainda fraca mas a agarrar-se à vida, com unhas e dentes.
Ela levou a mão à boca. Ele mexeu o pescoço.
A mulher saiu sem ter encontrado o telemóvel. Mas a música ficou com eles.
Ela quis dar mais uma volta. Ele quis dar mais uma volta.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
E nos olhos, disseram-se coisas e combinaram tomar um café ali mesmo ao lado, na casa agrícola.
E saíram e frente a frente ele olhou para ela, embasbacado, o corpo parado mas ainda a rodar, num frémito de palavras que lhe corriam nas veias, prontas a sair em todas as línguas, sem pontuações ou com todas as figuras gramaticais.
Ela olhou para ele, fixamente, demorando-se em cada linha do rosto, reconhecendo o rosto, rugas, sinais, memorizando poros e pequenos derrames.
E foi então que ela riu de repente, com vontade, chegou-se a ele e lhe disse, com a voz ainda a rodar:
- Tenho de ir vomitar, estou muito tonta…Esperas por mim?

4 comentários:

Anónimo disse...

Que lindo! Também fiquei "tonta"...

marisa

Anónimo disse...

Incrivel texto... é facil visualizar... um texto possivel de sido visto em "a cronica feminina"...

paula

Nini disse...

Caramba... Que enjoo fenomenal! Há muito tempo que não navegava assim, nos meandros de uma paixão estonteante nas letras de alguém. Obrigado!

CNS disse...

Como gosto das tuas histórias!

um beijo

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