09/02/09

nunca me apeteceu muito ir para a escola.
gostava mais de ver novelas e desfolhar revistas para ver mulheres com vestidos giros e sapatos altos.
de maneira que quando fui para a 1ª classe, fi-lo obrigada.
não era muito engraçada de aspecto; usava umas terríveis botas ortopédicas, cabelo à escovinha, teimoso e cheio de marcas do travesseiro e ainda por cima roía as unhas até aos sabugos.
para completar tinha umas pernas que apreciam uns palitos e usava uma roupa meia estranha, que passava dos meus irmãos para as mãos de uma costureira habilidosa, que era meia amalucada e criava, nos seus delírios de crença que em outra vida tinha sido aprendiz de costureira da Coco Chanel, peças únicas de um retro-kitsch delicioso.
não era, portanto, uma imagem propriamente simpática.
de maneira que lá para o segundo mês de aulas decidi incorporar a personagem feminina de uma novela que passava, na altura, na televisão (e que eu via às escondidas) e que era uma rapariga alegre, popular no seu circulo de relações sociais e muito, mas muitíssimo gira.
pois bem, comecei a falar brasileiro, na sequencia da incorporação e comecei também a fazer jus à minha disposição natural para ser popular.
lancei charme pelas raparigas de lacinhos e óculos de massa e batas cheias de nódoas, uma piscadela de olhos aos matulões e até fui bastante riquinha com as auxiliares de educação de joelhos gordos.
aprendi a copiar a palavra “amo-te” e eis que um dia, em que me sentia particularmente gira e brasileira, decido abordar o rapaz mais triste da turma – um mulato bem giro, de caracóis brilhantes e olhos negríssimos - um rapaz que estava sempre sozinho nos intervalos, por ser mulato, julgo eu, mas que tinha uma voz quente e forte, já para a idade.
entrego-lhe o papel , na aula, que diz “amo-te” numa caligrafia curva e balbucio uma qualquer palavra num brasileiro impecável.
não foi muito inteligente ter entregue o papel na aula, porque o Carlos (era o nome dele) ficou meio apalermado a olhar para mim com aqueles olhos negros, a professora magrinha chegou-se a mim, sorriu, fez-me uma festinha no cabelo, pegou no papel, leu, arregalou um bocadinho os olhos uma coisinha de nada, deu-me uma pancadinha nas costas e disse-me numa voz segura “dá-me o teu caderninho para eu escrever um recado para a tua mãe”.
a minha mãe foi à escola falar com a dona Maria José, que estava preocupada porque a menina de repente desatara a falar brasileiro e ainda por cima numa pronuncia rigorosíssima, “têm família no Brasil, é?”
e a minha mãe lá lhe explicou (como pôde) que a menina falava muito sozinha e fazia umas coisas que a ela, mãe, lhe pareciam espectáculos se bem que não havia publico, mas o deleite e a entrega da criança eram totais de maneira que aquilo de falar brasileiro era uma fase e que um dia destes passava.

e pronto, acho que foi aqui que começou a minha fatal queda para escrever para pessoas, sobre pessoas, com pessoas, a olhar tudo com extrema atenção, a perceber o sentido das coisas banais, a reconhecer os estímulos que levam as pessoas a agir, a pensar, a especular, a rir, a gozar.

12 comentários:

Patti disse...

Brilhante!
São os nossos muitos Eu's, a romperem por nós afora.

Como eu te entendo.

Teresa Durães disse...

as crianças têm sempre um poder enorme de gerarem mundos de fantasia

Carla disse...

bom entrar nesse teu "Eu" e partilhar as tuas memórias
bom passar por aqui
beijos

vida de vidro disse...

Devias ser uma criança cheia de imaginação. E muito atenta, está visto. O que resultou na mulher que escreve como tu escreves. Bom, bom. **

Gasolina disse...

Garanto-te que foi da novela.

Morava dentro de ti. Tão simples quanto isso.

Um beijo.
O meu papelinho diz "gosto muito de ti Laura".

Gasolina disse...

Ressalva:

"Garanto-te que não foi da novela"

A minha dislexia está animadissima de há dias para cá...

Laura Ferreira disse...

E que bom partilhar estes tesouros com vocês, que me compreendem.

Estes textos, afinal, continuam a ser bilhetes!

Um beijo para todas.
Com letra direitinha.

Anónimo disse...

uma história deliciosa, Laura :).

cláudia (sem login)

Anónimo disse...

não conhecia a tua primeira paixão... com papelinho e tudo!...
gostei muuuuiiiito
beijo
marisa

Pedro Branco disse...

A escola... que desperdício às vezes na vida de uma criança! Salvem-se as histórias!

(E fala um professor...)

pin gente disse...

ah, bestial... tenho algumas diferenças (nomeadamente a de ainda ter feito a primária sem rapazes)... mas estou a ver que somos um pouco parecida. eheheh
eu tinha nascido nos EUA, e como conhecia bem o mapa todas me acreditavam... fiteira, ei? não!!!
ainda não havia novelas.

beijo, laura

o Reverso disse...

escreve-se muito bem por qui e coisas muito interessantes.

boa semana

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