26/11/10

amar de maneira esquisita

Tinham a mania de tirar retratos com coisas na cara.
A brincadeira saiu-lhes cara pois, como nunca tiveram filhos, acabaram por cair no esquecimento.
Ele morreu primeiro do que ela.
Ela morreu uns anos depois dele.
Foram enterrados em sítios distintos.
E na lápide de cada um podia ler-se:
“marido (do casal sem rosto)”
“mulher (do casal sem rosto)”
Muitos correram ao cemitério para fotografar aquela bizarrice. Fizeram-se filas e houve até quem tivesse levado farnel.
Os artistas pintaram-nos, escreveram-nos e musicaram-nos.
E passou a ser moda fazer lápides sem nomes. Fotografias sem rostos.
E passou a ser possível amar de maneira esquisita.

3 comentários:

luís ene disse...

gostei. a opção verso pareceu-me interessante.

S* disse...

Até acho uma homenagem bonita... mas é triste não ter uma imagem do rosto de quem amamos.

Luis Eme disse...

e eu que pensava que sempre foi possível amar de uma forma esquisita...

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