05/11/10

"as cadeiras estão sentadas"


As cadeiras serviam-lhe como fatos de saia e casaco.

E serviam-lhe para tudo.
Para se esconder, para subir a um armário alto.
Para se debruçar nelas enquanto ouvia uma conversa, para fazer “cu-cu” a um bebé.
Já escrevera um conto de amor sobre cadeiras.
Já fizera não sei quantas peças de teatro em que a cadeira era “o” elemento cénico primordial.
Já cenografara cadeiras e até já as pontapeara.
Já se zangara vezes sem conta com a cor delas, as da sua sala.
Mas as cadeiras continuavam, pela vida fora, a servir-lhe para quase tudo.
Já lhes atribuíra uma vida própria e imaginara, vezes sem conta, o Sr. Bordalo sentado nelas, imponente, a comer as iguarias Portuguesas que a família que mandava pelo transatlântico.
Ainda lhe serviam para descansar e para jogar cartas.
Para comer, sozinha na sala, enquanto ouvia as noticias.
Para a terapia, para as jogatinas até às tantas, para as consoadas cheias de gente.
Também lhe serviam para pendurar roupa. E para ter conversas importantes.
Ela gostava substancialmente de cadeiras. E de imagens com cadeiras.
Gostava de cadeiras vintage, de cadeiras de madeira já velhotas e cadeiras com design arrojado.
Mas a cadeira que ela gostava mais era aquela que sabia que um dia lhe seria estendida para ela se sentar ao lado de alguém. Para sempre.

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