26/11/10

"garota de ipanema"

Quem sabe ela não seria assim se em miúda as coisas não lhe tivessem acontecido daquela maneira.
A música entrara-lhe na vida pela porta da frente, sem lhe dar qualquer hipótese de recusar a entrada, mesmo que fosse educadamente.
Entrara e conservara-se na sua vida como uma planta de raiz profunda e imortal.
E penetrara, de facto, em todas as profundezas físicas e emocionais do seu ser, sem dó nem piedade.
Na altura, a música já era grande. E ela era muito pequena. Portanto, a música era muito maior do que ela. Envolvia-a frequentemente num estado de letargia que lhe provocava um prazer transcendental e, na época, assustador.
Consumira tudo. As Melodias de Sempre dos anos 30 da música Portuguesa, o jazz que lhe chegava às mãos em discos pesados e importados, com capas brilhantes, os sons rock-sinfónico, os grupos de rock pesado, os musicais que já corriam mundo e os eternos temas que ainda hoje tocam nas rádios e nos corações de todos: Gilbert O’Sullivan, Nilsson, Shirley Bassey, Petula Clark, Barry White, Camel, Spartacus Triunwirat e por aí fora, um rol sem fim de long-plays e 5 rotações.
Mas a música possuíra-a de facto e nela gerara o filho que nunca lhe saiu do corpo quando um dia pegou num disco do António Carlos Jobim e do Stan Getz e pousou, delicadamente, a agulha na superfície brilhante do longa duração. A 1ª música.
E aos seus ouvidos soaram os primeiros acordes de um estilo que até aí nunca tinha escutado.
A guitarra gingou, a voz masculina entrou, madura e doce, e ecoaram as primeiras palavras, materializadas num sotaque cheio de bossa e calor

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela, menina que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar…”

A criança pequena apanhou um murro no estômago.
E depois sentiu um calor cheio de arrepios a subir-lhe, pelos pezinhos pequenos, até à ponta dos cabelos.
E depois começou a chorar.
Sem perceber muito bem porquê.
Apenas percebendo que aquilo que acabara de sentir tinha que ser especial. E foi.
Porque, grávida daquele som, carregou essa música e tantas outras, desse estilo, no ventre, até aos dias de hoje.
E ainda hoje guarda esses filhos no ventre como sendo eternamente seus.

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