10/05/11

A andorinha que aprendeu a voar

A andorinha confundia-se frequentemente; chamava coelhos aos pássaros e às vezes caía num torpor acriançado que a fazia voar em círculos pequenos, dar cambalhotas, fazendo rir todos aqueles que a rodeavam.
Era uma andorinha especial por fazer rir os outros e por ter sonhos maiores do que as asas.
A mãe costumava dizer “és um caderno liso sem nada escrito, à espera que em ti desenhem ou escrevam histórias”. E sim, a andorinha passava a vida a escrever histórias e a ver histórias na vida dela e na vida dos outros e a imaginar-se sempre pequena junto das asas da mãe e dos outros da família, que era uma família grande. E andava numa roda-viva de afazeres que envolvia toda a comunidade de pássaros.
A andorinha vivia numa pradaria verde que não era nada de especial em termos estéticos mas era especial porque era a sua casa.
Um dia aconteceu-lhe uma coisa que costuma acontecer nos filmes.
Um pássaro solitário, grande, esguio mas forte, com asas especiais de tão harmoniosas, elegante como os actores a sério, cruzou aqueles céus e observou de longe a andorinha.
E o que aconteceu é que andaram uma data de anos a observar-se às escondidas, porque os pássaros até conseguem ser mais espertos do que os homens, nunca se perdendo de vista.
Ele, habituado a longas viagens, desaparecia de repente mas acabava sempre por voltar. E fazia-o sem que fosse preciso anunciar a sua presença porque a sua presença já de si era mais forte do que qualquer coisa muito forte.
Um dia lá se conheceram num jantar de pássaros e aconteceu o que acontece nos filmes: ele falou e ela parou; ele aproximou-se e ela congelou. Ele olhou-a com olhos profundos e negros e ela foi para casa escrever histórias de passarinhos acabados de nascer.
E, com uma habilidade genuína e encantadora, em voos assertivos e baixos e cinematográficos, ele abeirou-se dela. E com a doçura e sabedoria dos grandes pássaros enlaçou-a em câmara lenta com as suas asas grandes e protectoras. E ela deixou-se ir.
E com ele voou algumas primaveras. Por céus longínquos e mágicos, onde só voam os pássaros que podem voar assim.
A família dela ficava na pradaria a vê-la partir e dizia-lhe adeus. E ela ia feliz.
Com ele descobrira que, com as suas asas inexperientes, conseguia voar muito alto. De inicio tivera medo, escondera-se debaixo delas, negara-as e recuara em voos baixos e inseguros e voltara para a sua zona de conforto: os verdes mantos de erva da pradaria onde habitava e onde escrevia as suas histórias, histórias essas que alimentavam a andorinha que não queria voar.
E então começou a viver como se fossem duas:
Vivia na pradaria verde aconchegada pela família, pela comunidade dos pássaros e pela sua vida que aprendera a amar; vivia com chinelinhos rasteiros, vivia enlevada por música brasileira e dançava com calças de flores e vivia sentada à noite, a devorar novelas e programas de gente gorda e chorava com eles e depois quedava-se a olhar, embasbacada, para uma planta recém comprada, aproveitando cada momento, cada sopro, cada mover de asas. Vivia a sua vida sem desejar voos altos porque nem todos os pássaros precisam de voar alto, daí haver várias espécies de pássaros.
E vivia com ele, fugazmente, por entre montes, montanhas, planaltos e desertos. Vivia com ele poentes de pintura renascentista, vivia manjares de deuses, poesia transformada em dias e noites estreladas. Viviam coisas únicas e belas, viviam horas de felicidade suprema, viviam riso e choro, descoberta e reconhecimento. Viviam familiaridade e sem saber escreviam, nas asas um do outro, a história de amor mais bonita das suas vidas.
Mas a dada altura ela percebeu que as diferenças que existem nos homens também existem nos pássaros.
E que, embora as suas asas lho permitissem, não o poderia acompanhar, como ele desejava, pelas viagens sábias e mágicas, numa jornada solitária e longa, longe da sua pradaria verde.
Porque a andorinha era feita de coisitas; aprendera a viver no meio delas, aprendera a viver com tanta gente à volta, aprendera a voar rasteirinho, aprendera a amar a recente capacidade que tinha em satisfazer-se com insignificâncias: uma chuvada recente que liberta da terra um cheiro tão característico, o caminhar do seu pai, pássaro velho e feliz, os olhos nublados da sua mãe, e o chilrear presente e tão característico dos irmãos.
E finalmente aceitou que há pássaros que são diferentes: uma águia não pode viver ao nível de uma andorinha e o mesmo acontece com um falcão e um pardal.
E finalmente entendeu que mesmo não podendo coabitar pode amar-se alguém, de longe.
E quando percebeu que ainda o amava ficou em paz porque o peso do amor é muito menor que o peso da saudade e o peso do amor acalma e conforma porque amar torna-nos mais serenos.
Ela não o via, mas sentia-o nos céus e revisitava-o nos sonhos: o quente das asas, o brilho dos olhos, o hálito a terra e viagens, o perfume do seu ser, a figura imponente e omnipresente.
E a certa altura ela deixou de escrever histórias de passarinhos que acabam de nascer e começou a escrever histórias reais.
E certo dia teve necessidade de lhe escrever, a ele. Para lhe dizer coisas que nunca lhe tinha dito.
Para lhe explicar que ele iria ser sempre muito importante.
E escreveu-lhe a história deles.
Com a esperança que ele a guardasse num sítio especial.
E para que ele soubesse que, mesmo de longe, iria continuar a ser o pássaro que ela mais amara.
Para que os dois pudessem, quem sabe, voar em paz.

4 comentários:

Camomila disse...

e eu espero mesmo isso. Que voes em paz Laura a tua maneira e que sejas muito feliz.

adorei :)

Mar Arável disse...

Uma ternura

Só resta voar
reler
em pleno voo

Carolina Ó i Ó ai disse...

clap clap clap <3

Ana disse...

Adorei. Muito bom texto, melhor ainda a história.

Porque amar é também ensinar a voar, voar junto e libertar.

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