08/06/11

a bonita rapariga feia

A rapariga tinha os dois olhos vesgos, um nariz demasiado pequeno e arrebitado, uma boca de lábios bastante finos e o rosto mais comprido que o habitual.
A voz era estranha, a rondar o fino e de vez em quando resvalava para um falsete colossal.
O corpo era esguio como o de uma menina que não tivesse crescido e os dois pés, também pequenos, cambavam ligeiramente para dentro, provocando um andar que mais parecia uma dança tribal.
Mas Deus não se esquecera dela na totalidade e dera-lhe um dom, porventura um dos maiores dons: o da escrita. E se na beleza física lhe roubara a inspiração o mesmo não acontecera com a inteligência.
Por tudo isto (e muito cedo na sua vida) a rapariga deixou de se ver ao espelho e a querer estar com pessoas. Porque as pessoas olhavam para ela com aquele ar piedoso-simpático e comentavam quando ela se voltava de costas e sussurravam ao ouvido e ela sofria. Ela sofria muito.
Por tudo isso e outras tantas coisas a rapariga passou a concentrar-se única e exclusivamente nas histórias sobre raparigas bonitas que lhe assomavam o espírito a toda a hora: de noite, de dia, quando estava a trabalhar, enquanto comia a sobremesa, enquanto estava na depilação, enquanto fazia compras no supermercado e às vezes até a dormir.
E escreveu histórias sobre raparigas bonitas para grandes, pequenos, velhos e retardados, passadas em diversos sítios, com diferentes desfechos, histórias engraçadas, comezinhas, densas, dramáticas e eróticas que foram traduzidas em várias línguas e lhe valeram uma notoriedade merecida.
Mas só no dia em que escreveu a sua própria história, e que intitulou “ a bonita rapariga feia”, só nesse dia é que começou de facto a viver pois nesse dia arranjou-se, vestiu um vestidinho feminino, calçou umas sandálias com salto médio, pôs perfume, arranjou o cabelo
e passeou-se durante toda a tarde pela marginal, junto ao rio,
com andar cadenciado,
embalado pelo orgulho nostálgico das suas palavras que já tinham embriagado e feito sorrir tantas mulheres e homens
embalado pela súbita descoberta de uma vida que se lhe afigurava bela
e embalado pela certeza de que, mesmo sendo uma rapariga feia,
era também uma rapariga bonita.

1 comentário:

CNS disse...

Muito bom, Laura. :)

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