07/06/11

a rapariga que se apaixonava pelas palavras

Apaixonava-se não como as outras pessoas – à primeira vista.
Mas sim – à primeira vírgula.
A rapariga, que era estranha em hábitos e vontades, também era estranha no amor.
E não era capaz de se apaixonar sem antes ver - não a cara ou o corpo – mas a escrita
e a cadência das palavras.
De facto estas eram para ela mais importantes do que um par de olhos verdes ou umas pernas jeitosinhas.
As palavras, as palavras desencadeavam nela o ardor tonto e intempestivo das paixões adolescentes:
queimavam-lhe a garganta e o cérebro
punham-lhe água nas mãos e na boca
e atiravam-na para a derradeira vertigem da consumação da paixão
que acontecia, pois, quando lia - quando o lia.
As suas maiores paixões eram portanto por pessoas que não conhecia.
E que na maioria das vezes não queria conhecer.
Ao todo amara as palavras de uns 20. Casara com as palavras de 10.
Divorciara-se de 9. Permanecia fiel a 4.
Mas a rapariga - que era estranha em hábitos e vontades e também era estranha no amor -
 esperava, um dia,
conseguir apaixonar-se por um homem que por acaso escrevia palavras
e não pelas palavras escritas por um homem.

3 comentários:

João Cari disse...

muito bonito.

Anónimo disse...

Gostei, muito!
bjs
marisa

Luis Eme disse...

que rapariga tão estranha!

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